Bolívia admite apoio dos EUA em prisão de procurador que investiga Cerimedo

O governo da Bolívia reconheceu nesta quinta-feira (1º) que recebeu ajuda de agências dos Estados Unidos na ofensiva que resultou na prisão do procurador-geral Roger Mariaca. Dois dias antes, Washington havia cancelado o visto do procurador e o acusado de colaborar com o narcotráfico.

O ministro de Governo, Marco Antonio Oviedo, fez a admissão durante entrevista coletiva ao ser questionado diretamente sobre a participação da Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA) na operação.

“Esta operação específica foi realizada pela Polícia Boliviana. No entanto, devo agradecer a ajuda e a cooperação do governo dos Estados Unidos, por intermédio de suas agências, que colaboram conosco na luta contra o narcoterrorismo”, declarou.

Oviedo não informou quais agências norte-americanas forneceram apoio nem detalhou em que consistiu a colaboração. Ele afirmou que a operação foi executada integralmente pela Polícia Boliviana, mas situou as prisões dentro de uma “nova etapa” de cooperação internacional contra o chamado narcoterrorismo.

Mariaca e o procurador departamental de Santa Cruz, Alberto Zeballos, foram detidos na noite de quarta-feira (30), no Aeroporto Internacional de Viru Viru. Agentes encapuzados interceptaram os dois sem apresentar publicamente, naquele momento, a ordem e os motivos da operação. A Procuradoria-Geral denunciou inicialmente o caso como um “sequestro”.

Os dois foram levados para instalações da Força Especial de Luta contra o Narcotráfico (FELCN), em El Alto. Segundo Oviedo, eles serão apresentados à Justiça boliviana e não há decisão de extraditá-los para os Estados Unidos.

A operação ocorreu apenas dois dias depois de o Departamento de Estado norte-americano revogar os vistos de Mariaca, Zeballos e outras autoridades latino-americanas. Washington acusou os dois procuradores de corrupção e vínculos com o narcotráfico, as mesmas alegações apresentadas pelo governo boliviano depois das prisões.

Procurador investigava Cerimedo

Antes de ser preso, Mariaca havia classificado a punição imposta pelos Estados Unidos como “ingerência” e “pressão política”. Ele relacionou a medida às investigações conduzidas pelo Ministério Público, entre elas os processos contra o argentino Fernando Cerimedo.

Operador político da extrema direita latino-americana, Cerimedo trabalhou para Javier Milei e manteve relações com a família Bolsonaro. Depois da derrota de Jair Bolsonaro em 2022, participou da campanha de mentiras contra as urnas eletrônicas e ajudou a alimentar a tentativa de desacreditar o resultado da eleição. A Polícia Federal o indiciou por envolvimento na trama golpista.

Cerimedo está preso preventivamente na Bolívia desde agosto. Ele é investigado por tentativa de feminicídio contra sua ex-companheira, Nadia Beller, violência familiar e enriquecimento ilícito. O argentino nega as acusações.

Mariaca afirmou, após perder o visto, que não recuaria “nem um centímetro” nas investigações. Na noite seguinte, agentes policiais entraram em instalações do Ministério Público, realizaram buscas em sua residência e o prenderam no aeroporto.

Governo acusa procuradores de narcotráfico

Oviedo afirmou que 14 pessoas foram presas na operação. Além de Mariaca e Zeballos, o governo identificou o procurador Martín Irusta e o major Rubén Aparicio entre os investigados.

As acusações incluem organização criminosa, legitimação de ganhos ilícitos e tráfico de drogas. Até o momento, o governo apresentou sua versão em entrevista coletiva, mas não tornou públicas as provas que sustentariam a existência da suposta estrutura criminosa dentro do Ministério Público.

“Era uma organização criminosa que protegia o tráfico de substâncias controladas, participava dele e enriquecia com ele”, acusou Oviedo.

O ministro também vinculou Mariaca ao caso de um narcotraficante uruguaio. Segundo ele, o procurador comandava o Ministério Público de Santa Cruz quando Marset foi detido e liberado, em 2023.

O ex-ministro de Governo Eduardo del Castillo também é procurado pela polícia. Integrante do governo de Luis Arce e candidato do Movimento ao Socialismo (MAS) à Presidência em 2025, ele foi acusado por Marset de receber US$ 500 mil para permitir sua permanência na Bolívia. A acusação do narcotraficante ainda não foi comprovada.

A ofensiva é conduzida pelo governo de Rodrigo Paz, aliado de Donald Trump e integrante do Escudo das Américas. Criada por Washington, a articulação reúne governos conservadores sob a justificativa do combate ao crime organizado e prevê compartilhamento de informações, sanções e operações conjuntas.

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