Escritor conversou por mais de uma hora com candidato do PL, apresentou carta com exigências e obteve assinatura de Flávio; documento inclui fim da reeleição presidencial, proteção às mulheres e proposta de pacificação nacional
Da Redação
Augusto Cury decidiu apoiar Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial depois de uma conversa por videoconferência realizada nesta quinta-feira (8). O escritor, que disputou o primeiro turno pelo Avante e recebeu mais de 3,4 milhões de votos, condicionou seu apoio à assinatura de uma carta com oito compromissos políticos que pretende ver incorporados por Flávio caso o candidato do PL chegue à Presidência.
Cury está viajando pela Europa e participou da conversa a distância. O diálogo com Flávio durou mais de uma hora e encerrou alguns dias de indefinição sobre a posição que o escritor adotaria na disputa de 25 de outubro. Depois do encontro, Flávio concordou em assinar o documento apresentado pelo ex-candidato.
Entre os compromissos estão o fim da possibilidade de reeleição para presidente da República, medidas de proteção às mulheres e crianças, propostas para a educação, valorização dos professores, ampliação da telemedicina, incentivo ao cooperativismo e às microempresas, mudanças relacionadas à agricultura e à produção de alimentos e uma agenda que Cury apresenta como destinada à pacificação política do país.
O texto entregue ao candidato também registra expressamente que o entendimento não envolve distribuição de cargos ou vantagens pessoais.
A decisão representa uma mudança em relação à postura adotada por Cury imediatamente depois do primeiro turno. Na noite da votação, ele afirmou que preferia manter silêncio sobre Lula e Flávio e disse que ninguém estava autorizado a negociar apoio em seu nome. Nos dias seguintes, voltou a pedir paciência aos eleitores e afirmou que precisava conversar diretamente com os candidatos antes de assumir qualquer posição.
Na quarta-feira, Cury dizia ainda que precisava discutir temas como educação, saúde, proteção de mulheres e crianças e a redução da tensão política antes de anunciar sua escolha. Menos de 24 horas depois, a conversa com Flávio produziu o acordo.
Carta transforma apoio em compromisso público
A negociação é diferente de uma simples declaração de voto porque Cury decidiu vincular seu posicionamento a um documento assinado.
Segundo as informações disponíveis sobre a carta, Flávio aceitou oito compromissos propostos pelo escritor. Parte deles recupera ideias defendidas por Cury durante sua campanha presidencial.
Uma das propostas de maior alcance institucional é o fim da reeleição para presidente. A mudança exigiria alteração constitucional e dependeria, portanto, de aprovação qualificada na Câmara e no Senado. A assinatura de Flávio representa uma manifestação política favorável à ideia, mas não seria suficiente para modificar a regra atualmente existente.
Outros compromissos tratam de políticas públicas defendidas por Cury durante a campanha, como expansão da telemedicina, valorização dos professores e novas medidas de proteção às mulheres.
O escritor também procurou incorporar ao acordo sua principal bandeira discursiva do primeiro turno: a tentativa de reduzir a polarização política. A chamada pacificação nacional aparece entre os pontos apresentados ao candidato do PL.
Durante a campanha, Cury havia criticado tanto Lula quanto Flávio e procurado construir uma candidatura posicionada fora da disputa entre petismo e bolsonarismo. Em diferentes entrevistas, atacou o ambiente de enfrentamento permanente entre os dois campos e defendeu uma reorganização do debate político em torno de propostas.
Sua decisão de apoiar Flávio não elimina essas declarações anteriores. O próprio formato utilizado agora — uma carta de compromissos — procura apresentar o apoio como condicionado à adoção de parte das propostas que o escritor levou às urnas.
Cury havia estabelecido condições antes do primeiro turno
A possibilidade de uma aproximação com Flávio já havia aparecido ainda durante a campanha.
Em setembro, Cury afirmou publicamente que não apoiaria Lula em um eventual segundo turno e estabeleceu condições para uma eventual aproximação com Flávio. Na ocasião, disse que o candidato do PL precisaria responder a questionamentos levantados durante a campanha e assumir compromissos relacionados ao programa defendido pelo Avante.
Depois da votação de domingo, porém, Cury evitou transformar aquelas declarações anteriores em apoio automático.
Ele recebeu 3.448.569 votos no primeiro turno, correspondentes a 2,89% dos votos válidos. Esse eleitorado passou a ser objeto de atenção das duas campanhas assim que a disputa ficou restrita a Lula e Flávio.
Isso não significa que os votos dados a Cury sejam transferidos automaticamente para o candidato que ele decidiu apoiar. Eleitores não estão vinculados à orientação de antigos candidatos, partidos ou lideranças e podem fazer escolhas diferentes no segundo turno.
Pesquisas divulgadas depois do primeiro turno já apontavam divisão entre os eleitores de Cury e mostravam que uma parcela significativa ainda admitia mudar de posição antes da votação.
Por isso, o significado imediato do apoio é principalmente político: Flávio incorpora à campanha uma liderança que recebeu milhões de votos e aceita formalmente colocar determinadas propostas do antigo adversário em sua agenda.
Anúncio público deve ser feito em vídeo
Cury deverá gravar uma manifestação explicando sua decisão. O anúncio público estava previsto para ocorrer entre esta quinta-feira e sexta-feira.
Flávio também deverá apresentar o acordo aos seus apoiadores. A carta assinada permite que as duas partes mostrem de maneira objetiva quais condições foram negociadas.
O formato reduz também a possibilidade de interpretações sobre eventuais negociações de cargos. O documento afirma que o entendimento não envolve troca de posições no governo nem vantagens pessoais para Cury.
A campanha de Flávio vinha procurando o escritor desde o encerramento do primeiro turno. O coordenador-geral da candidatura, Rogério Marinho, havia confirmado anteriormente que a equipe procurara Cury, assim como outros candidatos eliminados da disputa.
O Avante também enfrentava discussões internas sobre qual posição adotar. Dirigentes e lideranças próximas ao partido defendiam uma aproximação com Flávio, enquanto Cury insistia que qualquer anúncio deveria ser feito pessoalmente por ele.
A decisão desta quinta-feira encerra essa indefinição.
O escritor deixa de manter neutralidade entre os dois concorrentes e passa a apoiar formalmente Flávio Bolsonaro. Em troca, não recebeu um anúncio de participação em eventual governo, mas uma assinatura em uma carta que poderá ser utilizada posteriormente para cobrar o cumprimento das promessas assumidas.
A relevância política do acordo será medida também pelo comportamento dos eleitores que escolheram Cury no primeiro turno. O apoio de uma liderança pode influenciar parte desse grupo, mas não permite antecipar como seus mais de 3,4 milhões de eleitores irão votar em 25 de outubro.
O fato concreto desta quinta-feira é mais delimitado: depois de dias dizendo que precisava ouvir, refletir e conversar diretamente com os envolvidos, Augusto Cury fez sua escolha e obteve de Flávio Bolsonaro um compromisso escrito antes de anunciá-la publicamente.