As mãos que plantam fazem o artesanato florescer na 25ª Feira da Reforma Agrária

Por Jhessyka L. P. Fernandes
Da cobertura colaborativa da 25ª Feira da Reforma Agrária

Foto: Priscila Ramos

O prazer pela sensibilidade da expressão artística ultrapassa séculos, lutas, movimentos e, por que não, gerações de famílias do Movimento Sem Terra. É através do artesanato de nossos companheiros que essa sensibilidade se expressa. Eles veem no sol a energia da terra que dá o alimento, a luz que ilumina as mãos que tecem, bordam, esculpem, modelam, pintam, lixam e suam dando vida a mais uma linha, um graveto ou um tronco.

Na 25ª Feira da Reforma Agrária, que acontece na capital alagoana, os olhos dos artesãos brilham com a luta e com a inspiração de quem não se contém e precisa dar luz a mais uma peça. Na moda e nas artes plásticas, esses mesmos trabalhadores encontram no artesanato uma forma alternativa de renda, mas também uma forma de terapia, de construir companheirismo, de refletir um saber herdado pela família e de se alegrar com algo que resultou de horas, dias ou semanas para se concretizar.

Na feira, você encontra inúmeras expressões desses artesanatos e do que a Alagoas que luta para plantar e colher tem para oferecer e a gente te convida a vislumbrar um pouco desse pequeno e tão plural mundo dos nossos companheiros.

Os bordados de quem escreve histórias em tecido

Cláudia Maria do Nascimento, do assentamento Nova Esperança, em Olho d’Água do Casado, é artesã desde a adolescência, ofício herdado de sua mãe e irmã mais velha. Trabalhando anteriormente com tecelagem, Cláudia viu no bordado uma alternativa de renda, vendendo suas peças em eventos e feiras estaduais.

Morando desde sempre no campo, ela teve que se mudar para a cidade, mas não se adaptou. Hoje, ela borda representações do campo, da natureza e da luta social do MST em suas peças, tentando levar para fora de sua cidade a identidade de seu povo.

O crochê que modela corpos e formas

Jussara Emília dos Santos, do assentamento Patativa do Assaré, também de Olho d’Água do Casado, teve uma introdução mais tardia no artesanato. Apaixonada desde criança, só foi aprender aos 22 anos, sendo ensinada apenas o básico por sua cunhada, mas acessando um mundo de possibilidades pela internet.

Suas peças, coloridíssimas, são muito avermelhadas – sua cor favorita – e refletem uma vivacidade que a luta do MST carrega em sua vida. Inserida no movimento desde criança, ela vê na roça sua resistência, mas no crochê sua existência: a vida precisa do trabalho, mas também precisa dos momentos de alternância. O crochê é a paixão de Jussara.

Foto: Priscila Ramos

Esculturas que perpetuam bailarinas, naturezas, famílias e memórias

Joyce Maria Gomes Silva aprendeu há dois anos com sua família o ofício que lhe deu vida, imaginação e sustento. A bailarina, feita com gravetos obtidos com o roçado, é a peça pela qual mais sente afeto. Ela vê na beleza de outra expressão artística uma beleza em si própria por ser capaz de produzi-la.

Layane da Silva Pereira, de Pão de Açúcar, viu a mãe se interessar pelo artesanato e sua vivência a levou ao seu esposo, Lucimário Oliveira da Silva, também artesão e que hoje produz suas peças em conjunto com a esposa. Ele esculpe, ela pinta. O casal, que compartilhava cumplicidade na vida, agora vive o companheirismo do artesanato.

As Feiras da Reforma Agrária do MST transformam o ato de se alimentar em um manifesto cultural, unindo a produção agroecológica à identidade popular brasileira. Ao lado de frutas, verduras e sementes crioulas cultivadas em assentamentos de todo o país, as feiras movimentam a economia solidária com peças de artesanato local e valorizam a tradição regional por meio de shows de forró, viola caipira e mística popular.

A luta pelo direito à terra e à comida de verdade deixa de ser apenas uma pauta política para se tornar um espaço vivo de celebração e preservação cultural do Brasil.

A realização da 25ª Feira da Reforma Agrária e Festival do MST: Por Terra, Arte e Pão! conta com o patrocínio do Banco do Nordeste e é uma realização do Centro de Capacitação Zumbi dos Palmares, com apoio do Instituto Federal do Rio Grande do Norte, da União Nacional das Cooperativas da Reforma Agrária Popular do Brasil (Unicrab) e do Governo do Estado de Alagoas.

*Editado por Vitor Braz

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