Após alerta “crítico” da Abin, governo Trump nega interferência na eleição brasileira

PCC CV Estados Unidos
A porta-voz do Departamento do Estado dos Estados Unidos, Amanda Roberson. Foto: Reprodução

O governo de Donald Trump negou que esteja interferindo nas eleições brasileiras depois de o presidente Lula manifestar preocupação com a atuação dos Estados Unidos no pleito. Em entrevista à CNN Brasil, a porta-voz do Departamento de Estado Amanda Roberson afirmou que influenciar eleições de outros países não faz parte da estratégia de Washington e disse que os Estados Unidos trabalharão com o governo escolhido pelos brasileiros.

Amanda afirmou que o governo estadunidense acompanha a disputa, mas sustenta que a eleição é uma decisão soberana do Brasil. Questionada sobre eventual preferência da administração Trump ou do secretário de Estado, Marco Rubio, ela não indicou candidato e afirmou que Washington pretende manter relações com o próximo governo independentemente de sua posição política.

A manifestação ocorre depois de Lula dizer à jornalista Christiane Amanpour, da CNN, que via indícios de interferência por meio de inteligência artificial e que estava “muito preocupado” com Rubio, a quem relacionou ao bolsonarismo. O presidente ressalvou que, naquele momento, tratava-se de suspeita. Antes de viajar a Nova York, Lula já havia anunciado que diria a Trump para não se meter nas eleições brasileiras e, na Assembleia Geral da ONU, reforçou o recado ao declarar que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

A preocupação do governo se soma a uma sequência de alertas. Um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência classificou como de nível “crítico” o risco de influência e interferência estadunidense no processo eleitoral. O Instituto Vladimir Herzog também levou à ONU um alerta sobre possíveis ingerências dos Estados Unidos. O candidato Renan Santos afirmou estar denunciando risco de interferência estadunidense na disputa, enquanto perfis com localização no exterior foram identificados em publicações patrocinadas favoráveis a Flávio Bolsonaro, sem identificação pública de quem financiou essas mensagens.

Lula Trump
Os presidentes Lula, do Brasil, e Donald Trump, dos Estados Unidos, durante o primeiro dia da Assembleia Geral da ONU. Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert/Daniel Torok/Casa Branca

A negativa do Departamento de Estado também ocorre depois de Trump afirmar que candidatos apoiados por ele venceram eleições na América Latina. O presidente estadunidense declarou ter obtido um aproveitamento de “nove em nove” e citou resultados na Colômbia e na Argentina. Jornalistas estadunidenses também vinham tratando o cenário como motivo de atenção: Jon Lee Anderson afirmou que “nunca descartaria” uma interferência de Trump no Brasil, e Jeffrey Goldberg, diretor da The Atlantic, falou em “possibilidade real” de atuação do governo estadunidense sobre a eleição.

No mesmo dia da negativa, veio à tona que o Pentágono contratou um especialista para avaliar os efeitos de operações psicológicas e de informação do Comando Sul na América Latina. Registros oficiais mostram ainda uma ordem de US$ 1,2 milhão para serviços da revista digital Diálogo, ligada ao Comando Sul. O termo de referência prevê atividades de operações de influência, exige fluência em espanhol e português, incluindo o Brasil na área de responsabilidade regional. As ordens de 2026 permanecem em execução durante as eleições brasileiras.

Os documentos, porém, não descrevem uma operação destinada à eleição brasileira nem identificam o Brasil como alvo específico da avaliação de operações psicológicas. Esse limite separa os contratos militares efetivamente documentados das suspeitas de interferência eleitoral levantadas por Lula, pela Abin e por outros atores. A posição oficial de Washington, reiterada por Amanda Roberson, é que a disputa pertence aos brasileiros e que os Estados Unidos trabalharão com o governo escolhido nas urnas.

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