Por Marcos Aurélio Ruy
Dois anos depois do assassinato, o exército israelense confirma que atirou contra o carro onde estava a menina palestina Hind Rajab (foto), de apenas cinco anos, em Gaza. A menina que sobreviveu inicialmente ao ataque, onde morreu parte de sua família, atendeu um telefonema da ONG Palestine Red Crescent Society, que levava ajuda humanitária aos palestinos. A criança foi morta com 335 tiros no carro onde se encontrava, em 2024. Houve inclusive uma tentativa de resgatá-la, impedida pelo exército de Israel. Que a matou sem nem hesitar.
A cineasta tunisiana, Kaouther Ben Hania conseguiu retratar essa atrocidade de maneira impactante. Agora em cartaz na Netflix, A Voz de Hind Rajab (2025), a voz dessa menina que perturba ou deveria perturbar a consciência de todo mundo, assusta, onde a guerra, burra como todas, como diria Gabriel García Márquez, virou espetáculo televisivo.
Assistir a esse filme leva a pensar sobre o poder da voz para quem acredita nas vozes suplicantes pela vida, contra a destruição das relações humanas por um sistema desumano por natureza, assim como diria Karl Marx, o capitalismo é um sistema sem coração. Para assistir A Voz de Hind Rajab é preciso se preparar para a comoção do início ao fim.
Candidato de Melhor Filme Internacional ao Oscar 2026, A Voz de Hind Rajab, torna-se um documento histórico de uma época onde predomina a crueldade tão peculiar do capitalismo.
Como diz Berenice Bento, professora do Departamento de Sociologia da UnB, esse “filme assume o caráter de documento histórico. Como o livro O Diário de Anne Frank, ele preserva uma voz que o terror tentou silenciar. O diário de Anne não foi apenas literatura. Tornou-se prova viva do horror nazista, registro íntimo que desmentia qualquer tentativa de negação ou relativização. Da mesma forma, as gravações que atravessam o documentário — a respiração tensa, o pedido de ajuda, o medo audível — convertem-se em vestígios históricos. Não são apenas emoção: são evidência, provas”.
O tempo passa no filme com a respiração ofegante da criança, desesperada por socorro. As pessoas que atendem a menina vivem em tensão constante, onde se mistura sentimento de impotência e a voz da consciência que nos impinge à ação. Só que numa guerra, onde o opressor é tão poderoso e a chamada comunidade internacional faz tão pouco pelos palestinos, a voz pode pouco.
As mesmas vozes caladas pela força dos donos do poder em toda a história. A voz que não se conforma e não se cala perante a violência e o ódio. Como no filme Antonio Gramsci: Os Dias do Cárcere (1977), dirigido por Lino Del Fra, onde o fascismo tentou calar a voz de Gramsci pelo seu crime de pensar e falar o que pensa.
O impacto maior acontece porque se ouve a voz real da menina nos registros telefônicos. Agora Israel reconhece ter cometido esse crime, mas o filme A Voz de Hind Rajab, como a realidade, dói na alma de quem crê num futuro sem guerras, onde todas as pessoas possam viver sem medo.