no RED – Rede Estação Democracia
A rede do crime que agasalha Flávio Bolsonaro, por Benedito Tadeu César
De Fabrício Queiroz e Adriano da Nóbrega ao Banco Master, Dark Horse e às conexões recentes com investigados no caso do INSS, a trajetória de Flávio Bolsonaro é atravessada por personagens envolvidos em alguns dos maiores escândalos criminais das últimas décadas.
O que Fabrício Queiroz, Adriano da Nóbrega, Frederick Wassef, Daniel Vorcaro, Mário Frias, Karina Gama e um contador preso na investigação das fraudes do INSS têm em comum?
Em momentos diferentes, todos entraram no raio de relações políticas, pessoais, profissionais, empresariais ou financeiras de Flávio Bolsonaro e de seu entorno. Alguns foram condenados. Outros, denunciados ou investigados. Há também empresários e operadores que aparecem em investigações ainda em andamento.
O que importa aqui não é uma relação isolada. É a recorrência. São mais de duas décadas em que personagens envolvidos com rachadinhas, milícias, lavagem de dinheiro, Banco Master, recursos públicos e, mais recentemente, fraudes contra aposentados aparecem, desaparecem e reaparecem ao redor da trajetória política de Flávio Bolsonaro.
Agora ele disputa a Presidência da República. E alguns personagens do passado voltaram à cena enquanto novos nomes entram no mapa. A questão, portanto, deixou de interessar apenas à biografia do candidato.
Interessa ao futuro do país.
Queiroz nunca foi apenas Queiroz
Fabrício Queiroz é o personagem que melhor atravessa essa história. Amigo antigo de Jair Bolsonaro, ex-policial militar e assessor de Flávio, foi apontado pelo Ministério Público como operador financeiro do esquema das rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Em novembro de 2020, o MP denunciou Flávio, Queiroz e outras 15 pessoas por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. Segundo a acusação, servidores devolviam parte dos salários e Queiroz recolhia e movimentava o dinheiro.
Flávio não foi absolvido dessas acusações em julgamento de mérito. As principais provas foram anuladas por questões processuais, o que esvaziou a investigação.
Queiroz também não foi banido do círculo político de Flávio. Em 2024, recebeu seu apoio público ao disputar uma vaga de vereador em Saquarema. Em 2026, voltou a apoiar o amigo na campanha presidencial.
De Adriano às 527 homenagens
Queiroz conduz diretamente a Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado pelo Ministério Público como liderança da milícia de Rio das Pedras e associado ao Escritório do Crime.
A relação com Flávio foi extensa. Queiroz apresentou Adriano a ele; Adriano deu-lhe instrução de tiro; recebeu de Flávio uma moção e teve posteriormente proposta pelo deputado a Medalha Tiradentes. Flávio e Jair Bolsonaro o visitaram na prisão. Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano, e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, sua então mulher, trabalharam no gabinete de Flávio. Segundo o MP, Danielle transferiu pelo menos R$ 150 mil para Queiroz, parte dos recursos passando por contas controladas por Adriano.
A sequência é reveladora: Queiroz → Adriano → familiares de Adriano → gabinete de Flávio → dinheiro → Queiroz.
Adriano tampouco foi um caso solitário. Levantamento da revista Piauí encontrou 495 moções e 32 medalhas concedidas por Flávio a integrantes das forças de segurança durante seus quatro mandatos de deputado estadual: 527 homenagens. Ao menos 23 homenageados tornaram-se réus ou condenados por crimes que iam de homicídio a lavagem de dinheiro, organização criminosa e fraude em licitação.
Entre eles estão Ronald Paulo Alves Pereira, posteriormente apontado como liderança da milícia de Rio das Pedras e alvo da Operação Intocáveis, e Edson Alexandre Pinto de Góes, posteriormente condenado por lavagem e ocultação de bens.
Uma coincidência pode ser coincidência.
Vinte e três já formam um padrão que merece ser explicado.
Wassef estava lá
Quando a investigação das rachadinhas apertou o cerco sobre Queiroz, outro personagem do círculo Bolsonaro entrou definitivamente na história: Frederick Wassef.
Foi numa propriedade utilizada por Wassef, em Atibaia, que Queiroz foi localizado e preso em junho de 2020. O advogado já atuava para Jair e Flávio Bolsonaro.
Passaram-se seis anos. Em julho de 2026, Wassef subiu ao palco no lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, em São Paulo.
O passado estava de volta à campanha.
Do gabinete ao Banco Master
Se Queiroz, Adriano e Wassef formam o núcleo histórico, Banco Master e Dark Horse abriram uma dimensão financeira muito maior.
Flávio procurou Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, para captar recursos destinados à cinebiografia de Jair Bolsonaro. Documentos e mensagens reunidos pela Polícia Federal mostram negociações de aproximadamente US$ 24 milhões e remessas superiores a US$ 12 milhões, por meio de uma cadeia de operadores e empresas no Brasil e nos Estados Unidos.
A PF investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros crimes. Dark Horse, porém, não termina em Vorcaro.
A investigação alcançou Mário Frias, roteirista e produtor-executivo do filme; Karina Gama, responsável pela Go Up Entertainment e dirigente de entidades que receberam recursos públicos; emendas parlamentares; intermediários financeiros; e empresas abastecidas por um contrato da Prefeitura de São Paulo que, depois de um aditivo, chegou a aproximadamente R$ 157 milhões.
Cerca de 5 mil páginas da investigação paulista tiveram o sigilo levantado em setembro. Elas revelaram uma extensa circulação de recursos entre o Instituto Conhecer Brasil, dirigido por Karina, empresas subcontratadas e outras entidades ligadas ao mesmo núcleo.
O caso do filme começava a revelar algo muito maior que um filme.
As redes começam a se cruzar
Uma empresa contratada pelo ICB relaciona-se a um homem apontado pelo Ministério Público paulista como integrante do PCC. Outra empresa atingida pela investigação de Dark Horse, a Recovery Black, também aparece nas apurações sobre as fraudes do INSS.
A Polícia Federal procura reconstruir esses circuitos e determinar a origem e o destino dos recursos. O que já aparece documentalmente é uma sucessão de empresas, entidades, contratos públicos, emendas e transferências que convergem para o mesmo ambiente empresarial e político da produção de Dark Horse.
A conexão com o INSS chega ainda mais perto de Flávio. Alexandre Caetano dos Reis, contador de seu escritório de advocacia, foi preso na investigação das fraudes contra aposentados. A empresa contábil de Alexandre também atendia companhias relacionadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. E Letícia Caetano, irmã de Alexandre, administra o escritório de Flávio.
Há ainda a Bravo Grafeno, empresa da qual Flávio foi sócio e que compartilhou endereço em Brasília com empresas relacionadas ao Careca do INSS.
O mapa continua crescendo.
O problema não é uma fotografia. É o mapa
Queiroz poderia ser tratado como um caso. Adriano, como outro. Wassef, como um terceiro. O Banco Master poderia ser apresentado separadamente de Dark Horse. O contador preso no caso do INSS poderia ser considerado apenas mais uma coincidência.
É exatamente assim que essa história costuma aparecer: fragmentada.
Quando as peças são colocadas sobre a mesma mesa, surge outra imagem.
Queiroz operou o gabinete. Adriano foi homenageado e teve familiares empregados por Flávio. Outros policiais homenageados acabaram envolvidos em organizações criminosas e crimes graves. Queiroz foi preso numa propriedade usada por Wassef. Wassef reapareceu no lançamento da candidatura. Flávio procurou Vorcaro para financiar Dark Horse. O dinheiro atravessou operadores e empresas no Brasil e nos Estados Unidos. A produção se conecta a entidades abastecidas por recursos públicos. E o contador do escritório de Flávio foi preso na investigação do INSS.
Não estamos mais diante de uma fotografia.
Estamos diante de um mapa.
Quem entra pela mesma porta?
E o mapa ganha outro significado quando Flávio Bolsonaro deixa de disputar apenas uma cadeira no Senado e passa a disputar a Presidência da República.
Um presidente não chega sozinho ao Palácio do Planalto. Chega acompanhado das relações de confiança que construiu, de seus operadores políticos, advogados, empresários, financiadores, assessores, familiares e aliados.
Flávio apresenta-se ao eleitorado prometendo segurança e combate ao crime. Ao mesmo tempo, Queiroz continua aliado, Wassef reapareceu no lançamento de sua candidatura e investigações envolvendo Dark Horse, Banco Master, recursos públicos e pessoas de seu entorno poderão continuar abertas quando o próximo presidente tomar posse, em 1º de janeiro de 2027.
Por isso, o passado de Flávio Bolsonaro não é apenas passado.
É também uma pista sobre as relações que poderão cercar o poder presidencial.
E deixa a pergunta que abre esta série: quem dessa rede está chegando com Flávio Bolsonaro às portas do Palácio do Planalto?
Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED – Rede Estação Democracia.
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