Presidente da CTB, Luciano Simplício, afirma que segundo turno coloca em disputa projetos distintos para o mundo do trabalho e defende mobilização sindical em torno da democracia e da soberania nacional
O primeiro turno das Eleições 2026 abriu uma nova etapa da disputa política brasileira e colocou no centro do debate as consequências do resultado das urnas para os direitos sociais e trabalhistas. Em entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, o presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Luciano Simplício, analisou o cenário eleitoral e afirmou que o segundo turno deve ser compreendido também como uma disputa sobre os rumos da economia, da Previdência e das relações de trabalho. Ao lado do comentarista Antonio Ibiapino, Simplício defendeu a mobilização do movimento sindical e apontou a soberania nacional como uma das questões centrais da campanha.
Ao avaliar os dois projetos que chegaram ao segundo turno, o dirigente sindical sustentou que existe uma diferença de orientação econômica entre as candidaturas. Para ele, a experiência dos governos do Presidente Lula demonstra a possibilidade de combinar crescimento econômico com políticas sociais e circulação de renda, enquanto a alternativa representada por Flávio Bolsonaro, segundo sua avaliação, ameaça ampliar a retirada de direitos.
“A primeira coisa que eles vão fazer ainda, se eles ganharem a eleição, vai ser uma nova reforma da Previdência Social e derrubada de direitos fundamentais importantes”, afirmou Simplício durante o programa.
O presidente da CTB também relacionou o debate eleitoral ao papel dos sindicatos na defesa das condições de trabalho. Para ele, a discussão sobre a escala 6 por 1 não pode ser separada de uma concepção mais ampla sobre a relação entre trabalhadores e empregadores. Simplício criticou a ideia de que empregados possam negociar individualmente condições de trabalho em uma relação marcada por uma diferença de poder econômico.
Segundo o sindicalista, a atuação coletiva continua sendo necessária para estabelecer condições mínimas de negociação. Ele lembrou sua própria trajetória no movimento sindical, iniciada a partir da organização de trabalhadores terceirizados, e relatou situações de violência e exploração que teria encontrado durante esse processo.
Simplício contou que trabalhou na organização de um sindicato ligado aos trabalhadores terceirizados da limpeza e afirmou que, naquele período, acompanhou casos em que trabalhadores eram submetidos a situações de intimidação para receber seus pagamentos. A experiência, segundo ele, contribuiu para sua decisão de permanecer na atividade sindical.
“Eu me tornei sindicalista porque a gente tem que lutar pela vida do trabalhador, não só do trabalhador atual, mas esse trabalhador, o tempo vai passar, vai precisar de uma aposentadoria e também da criança que está chegando agora”, declarou.
Trabalho e Previdência no centro do segundo turno
A Previdência apareceu durante a entrevista como uma das principais preocupações diante do resultado eleitoral. Simplício argumentou que uma eventual nova reforma poderia ampliar as dificuldades enfrentadas por trabalhadores que já encontram obstáculos para alcançar a aposentadoria.
Antonio Ibiapino também relacionou a discussão previdenciária às transformações econômicas e às experiências de outros países latino-americanos. Professor da rede estadual do Ceará, ele apresentou sua própria trajetória profissional como exemplo de uma geração que precisou trabalhar durante décadas para conquistar o direito à aposentadoria.
Ibiapino criticou o avanço de políticas econômicas que, segundo ele, subordinam os direitos sociais à busca por maior rentabilidade financeira. Na avaliação do comentarista, a discussão sobre trabalho não pode ficar restrita ao salário recebido no presente, pois envolve também as condições de vida na velhice e a proteção social das gerações seguintes.
O professor também defendeu a redução da jornada e mudanças na organização do ensino em tempo integral. Para ele, a ampliação do período escolar precisa vir acompanhada de atividades culturais e esportivas e de uma revisão da carga horária dos estudantes.
Sindicatos diante de um Congresso mais conservador
Luciano Simplício avaliou que o resultado das eleições para o Legislativo criou um cenário difícil para o campo progressista. Ele afirmou que a composição do Senado e da Câmara dos Deputados exige capacidade de negociação política por parte do próximo governo e atribuiu ao movimento sindical a tarefa de organizar uma reação capaz de disputar esse cenário.
O dirigente mencionou uma plenária do movimento sindical marcada para o dia seguinte à entrevista, em Fortaleza, como parte desse processo de organização para o segundo turno. A proposta, segundo Simplício, seria discutir estratégias para a campanha e fortalecer a mobilização dos trabalhadores.
Para ele, a disputa eleitoral não termina na propaganda ou no voto. O sindicalismo precisaria atuar também na formação política e na conversa direta com trabalhadores que não participaram do primeiro turno ou que ainda não definiram sua posição.
Antonio Ibiapino reforçou essa avaliação e defendeu uma atuação voltada especialmente para os eleitores mais jovens. Na visão do professor, parte desse público tem sido atraída por discursos relacionados ao empreendedorismo e à ideia de liberdade individual sem perceber as consequências de uma relação de trabalho com menor proteção coletiva.
Ibiapino argumentou que a negociação individual entre empregado e patrão ocorre em condições desiguais. Sem instrumentos coletivos, disse ele, o trabalhador fica mais vulnerável à substituição e à perda de direitos.
Soberania e disputa internacional
A análise de Luciano Simplício também incorporou uma dimensão internacional. O presidente da CTB afirmou que o segundo turno deve ser observado dentro de uma disputa mais ampla por influência política e econômica na América Latina.
Ele mencionou as eleições recentes em países latino-americanos e afirmou que interesses externos fazem parte da disputa política brasileira. Na avaliação de Simplício, as riquezas naturais e o potencial econômico do Brasil estão entre os fatores que explicam o interesse de outras potências sobre o país.
Antonio Ibiapino aprofundou esse argumento ao falar sobre as chamadas terras raras. Durante a entrevista, ele associou esses minerais ao desenvolvimento tecnológico e defendeu que o Brasil invista em formação profissional e capacidade industrial para evitar que suas matérias-primas sejam exportadas sem agregação de valor.
Para o professor, a discussão sobre soberania passa diretamente pela educação. Ele lembrou sua própria infância em uma escola rural com poucos recursos e comparou aquela experiência às condições encontradas atualmente em escolas públicas que, segundo seu relato, passaram a contar com alimentação, materiais didáticos e estrutura melhorada.
Ibiapino também associou a expansão das escolas técnicas a uma estratégia de desenvolvimento nacional. Na sua avaliação, a formação de profissionais qualificados poderia permitir que o país transforme seus recursos naturais em produtos de maior valor agregado.
Educação como política de desenvolvimento
A educação ocupou espaço importante na segunda metade da entrevista. Ibiapino apresentou a própria trajetória escolar para ilustrar a transformação das condições de acesso ao ensino público.
Ele contou que estudou em uma escola instalada em uma propriedade rural, sem acesso a merenda ou transporte escolar. Décadas depois, como professor da rede estadual, passou a trabalhar em unidades que, segundo seu relato, oferecem alimentação, climatização e materiais escolares.
O professor reconheceu que ainda existem problemas a serem enfrentados na educação em tempo integral, mas defendeu a ampliação de atividades culturais e esportivas e a revisão da jornada diária dos estudantes.
Para Ibiapino, o investimento educacional está diretamente ligado à capacidade brasileira de desenvolver tecnologia e aproveitar recursos naturais estratégicos. A educação, nesse sentido, deixa de ser apresentada apenas como uma política social e passa a integrar um projeto de desenvolvimento econômico.
A infância como questão social
A discussão sobre infância apareceu no final do programa vinculada à experiência pessoal dos participantes e à pobreza histórica no Nordeste. Ibiapino relatou que começou a vender sacos de papel em feiras de Fortaleza aos seis anos de idade. Segundo ele, o trabalho infantil fazia parte da realidade de muitas famílias que precisavam complementar sua renda.
O relato foi utilizado para defender que a proteção da infância depende das condições econômicas oferecidas às famílias. Para o professor, uma sociedade que não garante renda, educação e proteção social acaba empurrando crianças para o trabalho precoce.
Ibiapino também recordou relatos históricos sobre a mortalidade infantil no Ceará e mencionou a presença de pequenas cruzes azuis nas estradas como representação de crianças mortas em contextos de pobreza. A lembrança foi associada à discussão sobre a necessidade de defender políticas públicas voltadas à infância.
Luciano Simplício retomou a questão a partir da própria trajetória. Ao falar sobre sua infância, ele afirmou que começou a trabalhar ainda muito cedo, embora tivesse conseguido conciliar o trabalho com os estudos. Ressaltou, porém, que essa possibilidade não estava disponível para todas as crianças.
A defesa da infância, para o dirigente sindical, está relacionada ao conjunto de políticas que protegem a família trabalhadora. O trabalhador de hoje, afirmou, precisa ter condições para se aposentar no futuro, enquanto seus filhos precisam ter garantido o direito à educação e a uma infância protegida.
O desafio da mobilização até o segundo turno
Ao final da entrevista, Simplício convocou os trabalhadores a participar da campanha e defendeu uma atuação permanente do movimento sindical. Para ele, o segundo turno oferece uma oportunidade para comparar os projetos apresentados aos eleitores e discutir as consequências concretas de cada escolha.
“O que está em jogo é o interesse do brasileiro que está num processo de desenvolvimento e o interesse do americano que quer a terra rara nossa comprando a preço barato”, afirmou Ibiapino, ao defender uma política de soberania econômica.
Simplício encerrou sua participação convocando a mobilização em defesa dos trabalhadores, das mulheres e das crianças. A defesa da vida, segundo o dirigente, precisa integrar a atuação sindical e política diante do segundo turno.
A entrevista mostrou que, para os participantes do programa, a eleição presidencial está diretamente relacionada às condições de trabalho e ao futuro das políticas sociais. O debate apresentado no Democracia no Ar também colocou em evidência a preocupação com a composição do Congresso, a influência de interesses externos e a necessidade de ampliar a formação política entre trabalhadores.
A disputa eleitoral, nessa leitura, será acompanhada por uma disputa sobre qual modelo de desenvolvimento deverá orientar o país e sobre o lugar ocupado pelos direitos sociais nesse projeto.