Historiadora Marcília Gama relaciona a formação da extrema direita brasileira à estrutura social construída desde o período colonial e alerta para a permanência de referências integralistas, anticomunistas e autoritárias no cenário político atual
A formação histórica da extrema direita brasileira foi o tema do programa Café com Democracia, exibido pela Rádio e TV Atitude Popular nesta quarta-feira, 7 de outubro. Convidada do programa, a historiadora e especialista em Arquivologia Marcília Gama apresentou documentos reunidos ao longo de sete anos de pesquisa e relacionou a origem de movimentos autoritários brasileiros à estrutura social formada durante o período colonial e à longa experiência de escravização no país.
Responsável durante 20 anos pelo arquivo do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), Marcília afirmou que sua análise parte de documentos produzidos e apreendidos pela polícia política. A pesquisa mencionada na entrevista foi desenvolvida durante sete anos no Arquivo Público Estadual de Pernambuco, com financiamento da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe), a partir do projeto DOPS: imagens censuradas.
“A extrema direita nasce a partir dos 350 anos de escravização que a gente teve colonial aqui”, afirmou a historiadora.
Segundo Marcília, as oligarquias formadas a partir da estrutura colonial constituíram uma das bases históricas de uma tradição política marcada pela concentração de poder e pela manutenção de desigualdades sociais. Ela destacou que sua interpretação não parte apenas de uma leitura contemporânea da política brasileira, mas de documentos preservados em arquivos da repressão política.
Documentos do DOPS e a presença nazista no Brasil
Durante a entrevista, Marcília apresentou registros referentes à atuação de grupos nazistas no Brasil entre as décadas de 1930 e 1940. De acordo com a historiadora, os documentos reunidos pelo DOPS mostram a existência de organizações vinculadas ao nazismo em diferentes regiões do país, especialmente em comunidades de origem alemã.
Ela mencionou o trabalho de um comissário de polícia do Rio Grande do Sul responsável por investigar e identificar integrantes de uma rede nazista instalada no Brasil. Segundo Marcília, o material policial inclui prontuários individuais, registros funcionais e imagens produzidas para documentar a circulação dessas organizações.
A historiadora também chamou atenção para a dimensão nacional dessas redes. Os documentos, segundo ela, não se restringiam a Pernambuco, alcançando estados como Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Paraná.
O conjunto apresentado no programa inclui uma fotografia na qual, segundo Marcília, estão identificados 571 alemães associados ao Partido Nazista. A historiadora afirmou ainda que existiam conexões entre grupos estabelecidos no Brasil e organizações presentes em outros países da América do Sul.
Para Marcília, a documentação demonstra que a presença da extrema direita no país não pode ser tratada como fenômeno isolado ou recente. “Eu não estou inventando não. Isso é material de trabalho, de pesquisa, com grandes fundamentos”, afirmou.
Integralismo e a adaptação brasileira do fascismo
Outro eixo da entrevista foi o integralismo, movimento político liderado por Plínio Salgado a partir dos anos 1930. Marcília apresentou o movimento como uma das principais manifestações brasileiras de inspiração fascista daquele período.
Segundo a historiadora, a Ação Integralista Brasileira chegou a organizar cerca de mil núcleos pelo país. Seus integrantes eram conhecidos como camisas-verdes e utilizavam símbolos, uniformes, rituais e formas de mobilização inspirados em movimentos autoritários europeus.
Marcília destacou a influência de Benito Mussolini sobre Plínio Salgado e mostrou documentos relacionados à propaganda integralista, incluindo materiais eleitorais, selos e registros de atividades públicas.
Ela também chamou atenção para a participação feminina no movimento. As mulheres eram incorporadas à organização política sob a justificativa de que teriam a função de formar os filhos segundo os valores defendidos pelos integralistas. A historiadora apontou que a presença feminina nesse projeto fazia parte de uma estratégia mais ampla de reprodução ideológica.
A pesquisa apresentada durante o programa sustenta que a extrema direita brasileira conseguiu construir formas de organização social que ultrapassavam a atuação de pequenos grupos. “A gente não está tratando de um grupelho que fica isolado”, afirmou Marcília. “A gente está tratando de uma ideologia que houve um avassalamento de ideias e de proposituras e de candidatos e de seguidores.”
A cultura anticomunista como instrumento político
A historiadora também apresentou documentos relacionados à propaganda anticomunista produzida antes do golpe de 1964. Entre os materiais exibidos estavam cartazes destinados à circulação nacional e registros associados ao chamado Comando de Caça ao Comunismo.
Segundo Marcília, parte desse material foi preservada nos arquivos do DOPS e permite acompanhar a construção de uma cultura política baseada na identificação do comunismo como inimigo interno.
A pesquisadora relacionou esse processo ao ambiente político que antecedeu o golpe militar de 1964. Para ela, a documentação permite identificar uma continuidade entre diferentes momentos históricos da direita brasileira, especialmente na utilização do anticomunismo como instrumento de mobilização política.
Marcília também destacou que personagens associados à política, ao direito e às elites econômicas participaram de diferentes momentos dessa tradição. Sua preocupação, afirmou, é mostrar que essas ideias não permaneceram restritas às margens da sociedade.
“A esquerda no Brasil não está preparada”
Ao analisar o presente, Marcília afirmou que a extrema direita conseguiu manter formas de organização política e cultural durante décadas, enquanto setores da esquerda não teriam desenvolvido uma estratégia equivalente de enfrentamento.
“Esse eu acho que é o grande mal da nossa esquerda”, afirmou. “A esquerda no Brasil não está preparada para um enfrentamento definitivo da extrema direita, porque essas pessoas vêm na surdina se organizando.”
Na avaliação da historiadora, as redes sociais ampliaram a capacidade de circulação de ideias que já possuem raízes históricas. Ela citou grupos que defendem o nazismo e o integralismo e que utilizam as plataformas digitais para atacar organizações e movimentos identificados com a esquerda.
Marcília também associou esse ambiente ao crescimento de discursos racistas e xenófobos, incluindo manifestações contra nordestinos.
Mulheres e a reprodução da ideologia extremista
A participação das mulheres nos movimentos de extrema direita também foi retomada durante o programa. A historiadora afirmou que, desde o integralismo, elas foram mobilizadas para desempenhar um papel específico na reprodução da ideologia dentro das famílias.
Segundo Marcília, a atuação feminina era apresentada como parte de um projeto de formação das novas gerações. As mulheres seriam responsáveis pela educação dos filhos segundo valores associados a Deus, pátria e família.
Para a historiadora, a presença de mulheres entre os eleitores e apoiadores contemporâneos da extrema direita não elimina a necessidade de compreender como esses movimentos historicamente construíram discursos destinados especificamente ao público feminino.
2016, 8 de janeiro e a permanência do autoritarismo
Marcília também relacionou acontecimentos recentes da política brasileira ao histórico de rupturas institucionais do país. Na entrevista, mencionou o golpe de 1964, o impeachment de Dilma Rousseff e a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 como momentos que devem ser analisados dentro de uma trajetória mais longa.
Ela afirmou que o Brasil acumulou diferentes rupturas institucionais ao longo de sua história republicana e defendeu que a compreensão desse passado é necessária para interpretar os conflitos políticos atuais.
A historiadora também recuperou uma frase do prefácio do Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964, publicado em Pernambuco, para discutir o processo de redemocratização. O trecho citado durante o programa afirma que buscar justiça não significa promover revanche e relaciona a responsabilização pelos crimes políticos ao avanço da democratização.
Para Marcília, a democracia brasileira permanece incompleta quando os mecanismos institucionais não são acompanhados por uma transformação efetiva das relações sociais e políticas.
Nordeste e desenvolvimento social
A conversa também abordou as diferenças históricas entre as regiões brasileiras e as políticas públicas implementadas nas últimas décadas. Luiz Regadas relacionou a expansão das universidades, a interiorização do ensino superior e os investimentos federais à transformação das condições sociais do Nordeste.
Marcília afirmou que a ampliação das universidades e a melhoria das políticas educacionais produziram mudanças relevantes na região. Ela citou a expansão de unidades da Universidade Federal Rural de Pernambuco para cidades do interior como exemplo.
A historiadora também destacou a evolução do piso salarial dos professores e atribuiu aos governos do Presidente Lula mudanças importantes na política educacional brasileira.
Para ela, o investimento em educação deve produzir condições para o desenvolvimento de pensamento crítico e para a capacidade de analisar informações que circulam nas redes sociais.
A disputa pela informação
No encerramento, Marcília voltou ao papel dos arquivos históricos como instrumentos de enfrentamento à desinformação. O material apresentado no programa, segundo ela, está disponível para consulta e foi produzido ou apreendido pelos órgãos de repressão política, não sendo uma documentação criada pela própria pesquisadora.
“Esse material riquíssimo é apenas uma amostra do que a gente tem de algo fantástico para esclarecimento dessa população”, afirmou.
A historiadora defendeu que documentos históricos sejam utilizados para ampliar o conhecimento sobre a formação política brasileira e para permitir que as novas gerações compreendam a origem de discursos e organizações que continuam presentes no debate público.
“Acordem, acordem, porque a gente está agora no limiar”, afirmou Marcília ao final da entrevista, antes de defender o voto no Presidente Lula como parte da disputa contra projetos que, em sua avaliação, representam novas formas de dominação política e econômica.
A entrevista do Café com Democracia colocou a história da extrema direita brasileira no centro da discussão eleitoral e apresentou documentos do DOPS como fonte para compreender a permanência de determinadas ideias e práticas políticas. Para Marcília Gama, conhecer essa trajetória é uma condição para reconhecer como antigas formas de autoritarismo podem reaparecer em novos contextos.
Referências
Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964. Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ano de publicação mencionado na entrevista: 2000.
DOPS: imagens censuradas. Projeto de pesquisa coordenado por Marcília Gama, desenvolvido ao longo de sete anos no arquivo do DOPS, com financiamento da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco.
Aniversário [título não identificado com segurança na transcrição]. Filme mencionado durante a entrevista por Luiz Regadas. A transcrição não permite identificar com segurança título, diretor ou ano, portanto essas informações não são atribuídas.