A extrema direita não bate mais à porta. Ela já está na sala.
por Daniel Costa
Passadas pouco mais de 24 horas do fechamento das urnas, mesmo que ainda a quente, algumas reflexões já podem ser feitas. Evidentemente, ainda não temos o distanciamento necessário para uma análise definitiva, mas os números estão na mesa e não devemos fingir que determinados resultados não carregam consigo sinais preocupantes para o futuro da democracia brasileira.
Para muitos, foi assustador observar o desempenho do PL nesta eleição. O partido elegeu 121 deputados federais e chegará ao Senado em 2027 com 28 integrantes, a maior bancada da Casa no início de uma legislatura desde a redemocratização. A federação PT-PCdoB-PV, por sua vez, continuará sendo a segunda maior força da Câmara, com 88 deputados, e o PT terá nove senadores. O problema, portanto, é real e não deve ser minimizado. Mas, justamente por ser real, merece ser compreendido para além das análises apressadas que, mais uma vez, encontram no Partido dos Trabalhadores o grande culpado pelo resultado.
A velha ladainha da autocrítica já começou a aparecer, principalmente entre coleguinhas da imprensa e aqueles que se autoproclamam de uma tal esquerda radical. Como se, a cada eleição, fosse necessário reunir meia dúzia de intelectuais, dirigentes partidários e comentaristas para descobrir que o PT errou, que Lula deveria ter feito isso ou aquilo, que o partido perdeu a conexão com a sociedade e, ao fim e ao cabo, que tudo poderia ter sido evitado caso os petistas tivessem sido suficientemente autocríticos.
Antes de apontar o dedo para o PT pelo resultado do Legislativo, é preciso olhar para aquilo que efetivamente aconteceu com o conjunto do sistema partidário. E aqui os dados são bastante claros. O próprio DIAP classifica o resultado da Câmara como um deslocamento da centro-direita para a direita, acompanhado de circulação de poder entre antigos e novos parlamentares. Ou seja, o que assistimos não foi simplesmente a sociedade brasileira “abandonando em massa” a esquerda e correndo para os braços da extrema direita. O fenômeno é mais complexo e, talvez justamente por isso, mais preocupante.
O bloco de esquerda e centro-esquerda não sofreu a hecatombe anunciada por alguns. Na Câmara, o bloco somado permaneceu praticamente estável, enquanto a esquerda propriamente dita ampliou sua presença e a centro-esquerda perdeu espaço. O movimento mais significativo ocorreu no outro lado do espectro político, com o encolhimento do centro e da centro-direita e a transferência de parte desse eleitorado para uma direita mais radicalizada.
Durante muito tempo, uma parcela do descontentamento com a política tradicional encontrava abrigo em candidaturas de protesto. Humoristas, jogadores de futebol, celebridades, subcelebridades e personagens que apareciam durante o período eleitoral prometendo chacoalhar Brasília conseguiam capturar esse sentimento, muitas vezes sem apresentar sequer um programa político minimamente consistente. Não que esse tipo de voto tenha desaparecido. Ele continua existindo. O que mudou foi a capacidade de um determinado campo político de organizar esse descontentamento dentro de uma identidade ideológica muito mais estruturada.
Quando Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato ultrapassam a barreira dos três milhões de votos, tornando-se os dois deputados federais mais votados da história da Câmara, não podemos simplesmente colocar toda essa votação na conta do voto de protesto. Há uma parcela que pode, sim, ter votado nesses personagens por rejeição à política tradicional, por identificação pessoal ou simplesmente pela lógica do voto útil e da celebridade digital. Mas seria uma enorme ingenuidade imaginar que milhões de brasileiros estão apenas brincando de política.
Existe uma parcela expressiva da sociedade brasileira que abraçou um discurso autoritário, punitivista, anti-esquerda e baseado na transformação permanente do adversário em inimigo. Um discurso que encontrou no bolsonarismo uma linguagem capaz de organizar ressentimentos antigos, medos concretos, preconceitos e frustrações sociais em torno de uma narrativa simples e poderosa.
Não estou dizendo que os mais de três milhões que votaram em Nikolas ou Pavanato sejam, individualmente, fascistas ou neofascistas. Seria uma simplificação tão grosseira quanto aquela que reduz toda a votação da extrema direita a voto de protesto. O que devemos reconhecer é outra coisa: o campo político que podemos identificar como extrema direita, ou mesmo como parte de um projeto neofascista brasileiro, mostrou capacidade de construir uma base social ampla, militante e eleitoralmente disciplinada.
Mas há outro dado que não pode ser ignorado quando olhamos para o resultado da esquerda, especialmente para o desempenho do PSOL. Erika Hilton recebeu mais de um milhão e meio de votos em São Paulo, seis vezes a votação que obteve em 2022, tornando-se a mulher mais votada da história da Câmara dos Deputados e a segunda candidata mais votada do estado, atrás apenas de Pavanato. A Federação PSOL-Rede, por sua vez, manteve 15 cadeiras na Câmara, praticamente preservando sua bancada de 2022. Cabe dizer que não se trata de estabelecer uma equivalência artificial entre os projetos políticos representados por Erika e pela extrema direita, mas de reconhecer que a esquerda também é capaz de produzir fenômenos eleitorais de massa quando consegue transformar identidade, representação e problemas concretos em uma linguagem capaz de alcançar parcelas mais amplas da sociedade.
A extrema direita brasileira passou os últimos anos construindo uma linguagem política própria, especialmente nas redes sociais. Ela não aparece somente quando começa o horário eleitoral, inclusive nem depende deste. Está presente todos os dias, reagindo a fatos, fabricando polêmicas, escolhendo inimigos, produzindo vídeos, memes, cortes, ataques e palavras de ordem. Não precisa convencer todo mundo. Precisa manter permanentemente mobilizada uma parcela suficientemente grande da sociedade.
E aqui chegamos a um dos grandes problemas enfrentados pela campanha de Lula.
Não faltou comunicação no sentido estrito da palavra. O presidente continua sendo um dos maiores comunicadores da política brasileira. Já escrevemos sobre isso. O problema é que existe uma distância crescente entre a capacidade pessoal de Lula de conversar com setores distintos da sociedade e a maneira pela qual sua campanha consegue transmitir essas palavras em 2026. A extrema direita fala uma língua muito adequada à lógica das redes. É rápida, agressiva, simplificadora e emocional. Transforma qualquer episódio em batalha moral. Não precisa explicar uma política pública por dez minutos. Basta encontrar um culpado, apresentar uma ameaça e oferecer uma resposta aparentemente simples.
A campanha de Lula, muitas vezes, permanece presa a uma lógica institucional. Explica demais aquilo que deveria ser sentido. Fala das realizações do governo, recupera conquistas, apresenta indicadores, relembra a destruição produzida entre 2016 e 2022 e procura demonstrar que o país voltou a andar. Tudo isso é importante. Mas não basta.
Há uma pergunta que permanece sem resposta satisfatória: qual é a cara do país que Lula pretende entregar ao brasileiro ao final de seu governo?
É justamente aqui que a campanha encontra uma dificuldade que já apontávamos antes das urnas. O governo tem resultados concretos para mostrar, mas ainda encontra dificuldade para transformar esses resultados em um projeto mobilizador de futuro. Em outras palavras, Lula consegue falar muito bem sobre aquilo que o Brasil foi e sobre aquilo que seu governo recuperou, mas precisa falar com muito mais força sobre aquilo que pretende construir.
A conjuntura exige reconhecer que o governo também tem responsabilidades nesse cenário, começando pela articulação política errática. Durante boa parte do mandato, o Executivo preferiu acomodar interesses de aliados de ocasião, distribuir cargos e emendas e apostar que a governabilidade poderia ser construída quase exclusivamente por meio da negociação parlamentar. Ao mesmo tempo, setores históricos da base social do campo democrático e popular muitas vezes receberam menos atenção do que poderiam e deveriam.
Mas, daí a concluir que o avanço da extrema direita no Congresso é consequência direta dos erros do PT, existe uma distância enorme. O que aconteceu foi também uma reorganização do próprio campo conservador.
A centro-direita perdeu força. Partidos que durante anos funcionaram como grandes recipientes do voto moderado ou fisiológico encolheram. O eleitor que antes distribuía seu voto entre PSD, MDB, PSDB, PP, União Brasil, Republicanos e outros partidos encontrou em candidaturas mais diretamente identificadas com a direita radical uma alternativa eleitoral que, além de tudo, oferece uma identidade política muito mais clara.
A direita radical deixou de ser apenas um setor ruidoso do Congresso e se transformou em uma força capaz de ocupar o espaço deixado pelos partidos tradicionais do conservadorismo brasileiro.
Também é preciso ter cuidado com outro lugar-comum que já começou a dominar as análises: a ideia de que a eleição será decidida pelos “indecisos”. Evidentemente, eles existem. Mais do que o eleitor que simplesmente “não sabe em quem votar”, a disputa do segundo turno deverá acontecer em torno daqueles que não possuem vínculo sólido com nenhum dos dois campos, dos eleitores dos candidatos derrotados e daqueles que podem simplesmente escolher não votar.
E há ainda um detalhe que muitas análises esquecem convenientemente: a abstenção também é politicamente relevante, ainda que não seja contabilizada como voto. Um eleitor desmobilizado é tão importante para o resultado quanto aquele que muda de candidato. Mais de 33 milhões de brasileiros não compareceram às urnas no primeiro turno, o equivalente a pouco mais de 21% do eleitorado.
Lula terá, portanto, no segundo turno, alguns desafios muito claros. O primeiro é impedir que a eleição se transforme em um plebiscito sobre seus próprios índices de aprovação. Não basta falar para os que já votam nele. O segundo é apresentar um projeto de futuro. Um governo que pretende enfrentar a extrema direita precisa oferecer algo mais do que a promessa de impedir sua volta ao poder. É preciso mostrar ao eleitor por que vale a pena defender a democracia não apenas para preservar aquilo que existe, mas para construir aquilo que ainda não existe.
O terceiro é compreender que o eleitor não vive de abstrações. Segurança pública, custo de vida, emprego, saúde, educação, moradia, transporte, comida na mesa e corrupção continuam fazendo parte da vida cotidiana. A extrema direita entendeu isso muito bem ao transformar questões concretas em discursos extremamente simples, mesmo que, quando chega ao poder, faça exatamente o oposto.
Também seria um erro imaginar que os milhões de votos de Flávio Bolsonaro e da extrema direita são automaticamente transferíveis de uma eleição para outra. As urnas mostraram algo bastante interessante: o eleitor brasileiro continua capaz de fazer escolhas distintas para diferentes cargos. Em São Paulo, por exemplo, Lula venceu a disputa presidencial na capital, enquanto Tarcísio de Freitas venceu Fernando Haddad na eleição para governador.
A extrema direita brasileira chegou a um estágio em que não precisa mais depender exclusivamente da figura de Jair Bolsonaro. Ela possui parlamentares, governadores, prefeitos, influenciadores, estruturas partidárias, redes sociais e, sobretudo, uma base social que aprendeu a transformar conflito cultural em identidade política.
O resultado de domingo não inventou essa direita. Apenas mostrou o tamanho que ela adquiriu.
E talvez seja exatamente por isso que a resposta da esquerda não possa se resumir à velha fórmula da autocrítica. É evidente que o PT precisa discutir seus erros. Nenhum partido sério pode fugir dessa tarefa. Mas a autocrítica sem análise de conjuntura vira apenas autoflagelação. E a autoflagelação não derrota o fascismo, não constrói maioria social e muito menos devolve à esquerda a capacidade de formular um projeto de país.
O desafio, ao fim e ao cabo, é muito maior. É compreender por que parte da sociedade brasileira passou a enxergar na extrema direita uma possibilidade de futuro e não apenas uma reação ao passado. É compreender por que milhões de pessoas estão dispostas a votar em candidatos que fazem da guerra cultural sua principal ferramenta de mobilização. É compreender por que o centro político perdeu espaço e por que a direita radical conseguiu ocupar esse vazio.
E, principalmente, é responder a uma pergunta que talvez seja decisiva nesta eleição: que país queremos construir depois de tantos anos vivendo entre o medo do retorno do fascismo e a nostalgia de um passado que já não existe?
Lula continua com condições reais de vencer. A eleição está em aberto. Mas não será vencida apenas lembrando o eleitor de quem foi Bolsonaro, tampouco repetindo indefinidamente aquilo que o governo já fez.
Será preciso convencer o eleitor, mobilizar a militância e, sobretudo, apresentar à população uma perspectiva de futuro. Porque, depois de abertas as urnas neste domingo, uma coisa ficou definitivamente clara: a extrema direita não está mais batendo à porta. Ela já entrou na sala.
Daniel Costa é jornalista e mestre em História pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisador na área de História do Brasil e Moderna, além de temas relacionados ao samba de São Paulo.
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