A campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro contava com a ajuda de Cerimedo?

O deputado federal Rui Falcão (PT-SP) pediu ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a adoção urgente de medidas de cooperação jurídica com a Bolívia para obter e preservar provas relacionadas a uma suposta “fazenda de bots” encontrada em endereços ligados ao argentino Fernando Cerimedo. Preso preventivamente no país vizinho, ele é um conhecido operador digital da extrema direita latino-americana e mantém vínculos antigos com a família Bolsonaro.

A ideia é saber se a estrutura de automação digital foi usada ou estava sendo preparada para interferir nas eleições brasileiras de 2026. Os advogados do argentino disseram que os equipamentos eram telefones satélites e modems, e não uma estrutura de robôs.

Cerimedo reapareceu no cenário político nacional em julho, quando participou de uma transmissão com Eduardo Bolsonaro para voltar a atacar as urnas eletrônicas. Diante do episódio, o PT e partidos aliados acionaram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O pedido ganhou ainda mais relevância depois que Nadia Beller, ex-companheira de Cerimedo, afirmou que o argentino pretendia atuar em favor da candidatura de Flávio Bolsonaro. Segundo relato feito por ela à Folha de S.Paulo, Cerimedo disse que a disputa estava difícil, mas que “eles iriam lutar”. Questionada se entendeu a resposta como uma indicação de que ele ajudaria Flávio, Nadia confirmou: “Foi o que entendi na hora”.

A campanha de Flávio Bolsonaro não apresentou resposta oficial às perguntas encaminhadas pelo jornal.

“Existe muita preocupação porque os indícios de intervenção estrangeira em nossa eleição são muito fortes”, afirmou Rui. Falcão. Para o deputado petista, o material apreendido pode esclarecer se “Cerimedo poderia estar tramando algo na eleição brasileira”.

Operadores, financiadores e beneficiários

Rui pede que as autoridades rastreiem os operadores da estrutura, as contas utilizadas, as fontes de financiamento, os clientes e os possíveis beneficiários das atividades. O deputado também solicita a apuração de eventuais vínculos com pessoas, partidos políticos, intermediários ou candidaturas no Brasil.

A representação busca garantir a preservação dos equipamentos, documentos e dados recolhidos pelas autoridades bolivianas, além de permitir que o material seja analisado pela Polícia Federal. Eventuais provas de natureza eleitoral também deverão ser compartilhadas com o TSE e a Procuradoria-Geral Eleitoral.

Cerimedo foi indiciado pela Polícia Federal em 2024 na investigação sobre a tentativa de golpe de Estado, como integrante do núcleo responsável por produzir, difundir e ampliar informações falsas contra o sistema eleitoral. A Procuradoria-Geral da República reconheceu sua participação na divulgação das mentiras, mas não o incluiu na denúncia porque, naquele momento, não estava comprovado que o argentino sabia que o relatório utilizado era falso ou que havia aderido conscientemente ao projeto golpista.

Para Rui Falcão, os equipamentos apreendidos na Bolívia podem justamente ajudar a preencher essa lacuna e revelar a dimensão da atuação de Cerimedo, tanto depois da derrota de Jair Bolsonaro em 2022 quanto na atual campanha presidencial.

Da mentira de 2022 à campanha de Flávio

Em outubro de 2022, em pleno segundo turno, Eduardo Bolsonaro aproveitou uma missão oficial a Buenos Aires, com apoio institucional da Câmara e do Itamaraty, para se encontrar com Cerimedo, que publicou nas redes sociais o registro dos dois.

No dia 4 de novembro do mesmo ano, Cerimedo transmitiu a live “Brazil Was Stolen”, vista por mais de 400 mil pessoas. Durante a transmissão, apresentou um relatório apócrifo para alegar, sem provas, que determinados modelos de urnas eletrônicas teriam favorecido o presidente Lula.

A tese foi desmentida pelo TSE e por especialistas, mas acabou incorporada pelo PL em uma tentativa de anular votos do segundo turno. As mesmas urnas, porém, haviam sido usadas no primeiro turno, quando o partido elegeu deputados, senadores e governadores.

O voto de Alexandre de Moraes no processo sobre a trama golpista registra que, de acordo com a colaboração de Mauro Cid, o coronel Ângelo Denicoli entrou em contato com Cerimedo para viabilizar a transmissão. Cid também relatou que o grupo responsável pelo material não encontrou qualquer fraude nas urnas.

Mesmo depois de ser indiciado, Cerimedo voltou a aparecer ao lado de Eduardo Bolsonaro em julho de 2026 para repetir suspeitas já desmentidas contra o sistema eleitoral. Segundo Nadia Beller, os dois também se encontraram nos Estados Unidos no início de agosto.

Prisão abriu novas frentes de investigação

Cerimedo foi detido em 18 de agosto no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, quando tentava deixar a Bolívia. Ele é acusado de ser o mandante de um ataque a tiros contra Nadia Beller, que está grávida. A advogada sobreviveu e a Justiça boliviana determinou a prisão preventiva do argentino por 180 dias. Cerimedo nega envolvimento, e sua defesa sustenta que o atentado teria sido encenado pela própria vítima.

Durante buscas em imóveis ligados ao consultor, investigadores afirmaram ter encontrado mais de US$ 40 mil e uma estrutura capaz de automatizar contas em redes sociais. A defesa também nega a existência de uma fazenda de robôs e afirma que os equipamentos eram apenas modems e aparelhos de comunicação.

Nadia, por sua vez, declarou que Cerimedo mantinha estruturas de automação na Bolívia e na Argentina, com capacidade para inundar redes sociais, segmentar públicos e ampliar artificialmente conteúdos políticos. Ela afirmou ainda que esse aparato foi empregado em diferentes países da América Latina, inclusive na campanha de Jair Bolsonaro em 2022.

Em outro desdobramento, o Ministério Público da Bolívia abriu uma investigação para apurar uma possível participação de Cerimedo em um esquema de proteção a voos ligados ao narcotráfico. O argentino também é investigado por suspeita de enriquecimento ilícito.

Caso o pedido de Rui Falcão seja atendido, a cooperação entre Brasil e Bolívia poderá revelar quem operava e financiava a estrutura digital, quais campanhas seriam beneficiadas e se a extrema direita preparava uma nova ofensiva de desinformação para interferir na eleição presidencial.

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