A batalha pelo Brasil

A batalha eleitoral pelo poder no Brasil é o principal confronto político da América Latina e Caribe, em 2026. E poderá impactar a relação de forças políticas por anos. No próximo dia 4 de outubro, ocorrerá as eleições gerais no país e o mais importante 1o turno presidencial do subcontinente.

Ocorrerá também a votação direta, num sistema proporcional por estados da federação, para ocupar as 513 cadeiras da câmara dos deputados, além de 2/3 das cadeiras do Senado da República, sendo 2 por cada estado e 2 pelo Distrito Federal. Igualmente se elege 27 governadores e deputados estaduais das assembléias parlamentares das unidades federadas.

São mais de 158 milhões de eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. As urnas são distribuídas em 2.637 zonas eleitorais e 496.856 seções, no Brasil e no exterior. Uma eleição gigante simultânea em todo o território nacional e no exterior. Mas que pelo moderno sistema de votação, apuração e totalização eletrônica (estaduais e nacional), após o fechamento das urnas às 17h, em no máximo em 2 horas, já se conhece todos os vencedores.

Não há “contagem rápida” por amostragem, como nos países vizinhos, ou mesmo perfuração/marcação de cartões/cédulas como nos EUA. A eleição para Presidente e Vice-Presidente é direta. A apuração e totalização não demoram mais dias e noites como foi no passado. Pode ser considerado um dos sistemas de votação e apuração mais seguros e ágeis do mundo.

Há um poder judicial eleitoral relativamente independente dos governos, com autonomia de gestão orçamentária e administrativa, o Tribunal Superior Eleitoral, além dos Tribunais Regionais eleitorais estaduais. Os juízes e servidores dos tribunais eleitorais são em sua maioria concursados e efetivos, tendo suas estabilidade funcional garantidas constitucionalmente. Os mesários das urnas são cidadãos comuns voluntários.

Os 30 partidos e federações partidárias receberam valores para as campanhas do Fundo Eleitoral (total de R$4,96 bilhões de reais) e tempo de TV e rádio de forma proporcional às suas bancadas.

O sistema eleitoral brasileiro é relativamente democrático, não está livre de desigualdades e interferências do clientelismo, do poder econômico do grande capital e das grandes mídias empresariais. O tempo de propaganda e a distribuição do Fundo é bem desigual.

Há partidos que não tem representação parlamentar que não tem acesso ao tempo de TV e rádio. Apesar de todas as críticas necessárias, a principal fonte da legitimidade da democracia liberal no país passa pela soberania popular efetivada nas eleições. Não à toa uma das campanhas recorrentes do bolsonarismo tem sido a tentativa de deslegitimar a urna eletrônica.

O maior perigo dessas eleições não é a compra de votos e a coerção aos trabalhadores dentro das empresas e nos territórios controlados pelas oligarquias, mais rurais e socialmente precarizados, que sempre ocorreu em maior ou menor nível. São as ingerências, em andamento, do imperialismo trumpista e a máquina de fake news controlada pelas bit techs e estimuladas pela candidaturas de extrema-direita, principalmente as mais alinhadas com a família do ex-Presidente.

De olho nas grandes reservas naturais e minerais

A mira do imperialismo neocolonial trumpista não é somente ideológica. Basta olhar para Venezuela e perguntar por que os barcos que, supostamente transportavam drogas todos os dias como se fossem num jogo de videogames a serem abatidos, desapareceram e deram lugar às imposições dos contratos para a espoliação do petróleo e dos minérios naquele país.

Não é mais segredo que por trás da falsa guerra às drogas está o interesse neocolonial nas reservas minerais e energéticas em favor das grandes corporações. O enquadramento do governo Trump de facções criminosas brasileiras como se fossem “organizações terroristas” atendem a tais objetivos como gatilho para futuras intervenções militares.

O Brasil tem cerca de 214 milhões de habitantes e um PIB aproximado de U$2,6 trilhões de dólares. Mas não somente pelo peso econômico e geopolítico, esta eleição é estratégica e principalmente considerando a correlação de forças a favor da extrema-direita no continente cujas derrotas mais recentes da esquerda e centro-esquerda saltam aos olhos com os resultados do Chile, Colômbia, Peru, Equador e Bolívia.

Vencer no Brasil significa ter o controle quase total do tabuleiro latino-americano para melhor influenciar na correlação de forças política para além do continente, por exemplo, nos BRICS e na ONU.

Vencer no Brasil significa ter o controle quase total do tabuleiro latino-americano para melhor influenciar na correlação de forças política para além do continente, por exemplo, nos BRICS e na ONU.

Possuindo uma área territorial de aproximadamente 8.5 milhões de km², o país possui ainda um total de 25.214 quilômetros de fronteiras, divididas entre os limites de 15.719 quilômetros com 10 dos 12 países da América do Sul (as exceções são o Chile e o Equador) e 9.495 quilômetros de extensão de fronteiras marítimas, banhados pelo Oceano Atlântico.

A Amazônia brasileira representa aproximadamente 60% de todo o território da Bacia/Bioma Amazônico da América do Sul. O Brasil detém aproximadamente 12% de toda a água doce superficial do planeta e cerca de 28% das reservas de todo o continente americano. Com esse volume, o país ocupa o 1º lugar no ranking mundial de países com as maiores reservas de água doce renovável.

Estima-se que o Brasil detenha entre 15% e 20% das terras aráveis disponíveis para expansão no planeta sem necessidade de desmatar vegetação nativa. O país possui cerca de 150 a 160 milhões de hectares em pastagens, dos quais cerca de 30 a 40 milhões de hectares têm alto potencial para conversão direta em lavouras.

Neste tema, ficamos atrás somente de Índia, Estados Unidos, China e Rússia, que juntos concentram mais de 35% das lavouras globais. Significa em torno de 3,4% a 4% das lavouras mundiais, respondendo por cerca de 8% a 9% da produção global de grãos e mais de 15% do comércio agrícola internacional de alimentos.

Do ouro do Século XXI, as chamadas “terras raras”, no solo brasileiro encontram-se 93 milhões de toneladas, representando 23% das reservas totais (ainda quase nada exploradas) ficando atrás somente da China. Além de 93% de todo o nióbio global (842 milhões de toneladas) e 8% do lítio (98 milhões de toneladas).

O Brasil possui cerca de 17,5 bilhões de barris de petróleo em reservas provadas. Esse volume coloca o país entre a 15ª e a 16ª posição no ranking global de reservas provadas. Isso sem considerar as reservas da margem equatorial, que estima-se que a região (que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte) possa abrigar entre 10 e 30 bilhões de barris em recursos potenciais.

A importância da vitória de Lula

No contexto internacional da estratégia da recolonização da América Latina pelo imperialismo trumpista, temos os precedentes de interferências recentes nas eleições da Argentina, Colômbia, Peru e Honduras. Seja por meio de chantagens econômicas e tarifárias comerciais ou por medidas reais de sanções a autoridades nacionais dos países latino-americanos, ou ainda, para além de medidas diplomáticas e econômicas, a adoção de ações militares violentas como o sequestro do Presidente Maduro, na Venezuela em 3 de janeiro deste ano, além do embargo econômico contra Cuba.

A importância do Brasil num cenário global de ascensão da extrema-direita e ofensiva sionista é que, junto com México e Espanha, tem sido um anteparo relevante em defesa das liberdades democráticas, da soberania, dos direitos sociais e do trabalho, das mulheres e dos povos negros e indígenas.

A importância do Brasil num cenário global de ascensão da extrema-direita e ofensiva sionista é que, junto com México e Espanha, tem sido um anteparo relevante em defesa das liberdades democráticas, da soberania, dos direitos sociais e do trabalho, das mulheres e dos povos negros e indígenas.

As principais candidaturas em disputa são a de Lula, numa Frente Ampla composta pelo PT, PSB, PSOL, PDT, PCdoB, Rede e PV. Além do apoio de candidaturas aos governos estaduais e parlamentares do centro liberal (e do Centrão clientelista) nas regiões do Norte e Nordeste.

O principal opositor de Lula e da Frente Ampla é a do filho de Bolsonaro, Flávio Bolsonaro. Uma espécie de síntese entre os perfis de Milei e Bukele. Um personagem sinistro, que já ofereceu ao governo Trump um espaço numa suposta equipe de transição do seu suposto governo.

Tal candidato carrega várias denúncias de envolvimento com as milícias do crime no Rio de Janeiro e denúncias de corrupção, a mais recente envolvendo o recebimento de um montante que chega a R$134 milhões ou mais, com repasses do banqueiro Vorcaro, Presidente do Banco Master, supostamente voltados ao financiamento da cinebiografia Dark Horse (filme sobre Jair Bolsonaro), conforme revelou a reportagem do portal Intercept Brasil em 4 de setembro de 2026.

O Vorcaro está preso por acusações de execução de vários crimes financeiros e cujas investigações, no âmbito da Operação Compliance Zero da Polícia Federal, revelaram várias autoridades envolvidas, incluindo 5 membros do STF, nos seus esquemas bilionários de corrupção com apropriação de fundos previdenciários de servidores e compra de influência de autoridades políticas e judiciais, além do patrocínio de orgias, esquemas bilionários de fraudes e interferência institucional. Uma espécie de Epstein brasileiro.

Flávio e Vorcaro tiveram áudios revelados e viralizados, numa longa conversa denotando forte amizade. O denunciado pelo Ministério Público, que se encontra preso, se tornou banqueiro durante o governo de Bolsonaro e está envolvido com diversos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional: gestão fraudulenta e estelionato na gestão do Banco Master (que sofreu liquidação extrajudicial pelo Banco Central), lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial.

Vorcaro é acusado ainda de financiar e comandar uma milícia para realizar monitoramentos clandestinos, perseguições, intimidações e ameaças físicas contra adversários comerciais, autoridades e jornalistas. Esta ainda na lista, crimes cibernéticos e espionagem digital e invasão de dispositivos informáticos, através de um núcleo de hackers, derrubada de perfis em redes sociais e acesso ilegal a informações sigilosas para proteger seu esquema econômico. Além de corrupção e infiltração no Estado, e um longo etc.

A grande ameaça: a associação do bolsonarismo com o trumpismo

Diferente do pai, que está em prisão domiciliar por ter liderado uma tentativa de golpe de Estado de 8 de Janeiro de 2023, junto com uma fração das Forças Armadas, Flávio tenta se apresentar como uma versão mais moderna e jovem, menos tosca que o velho rabugento.

Lembremos que o ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) a uma pena de 27 anos e 3 meses de prisão. A condenação ocorreu em setembro de 2025, tornando-o o primeiro ex-presidente da história do Brasil, além de generais e coroneis, condenados por tentativa de golpe de Estado.

Os crimes pelos quais o Bolsonaro foi considerado culpado e condenado incluem: golpe de Estado; tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito; liderança de organização criminosa armada; dano qualificado contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.

Junto com seu Chefe, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou 19 militares no encerramento dos julgamentos da trama golpista de 2022. Do denominado “Núcleo Crucial” (Alta Cúpula), foram condenados 6 militares de alta patente ao lado do ex-presidente.

Não à toa, a principal bandeira de Flávio Bolsonaro é a anistia ao pai e aos golpistas de 8 de Janeiro e sua agitação para controlar o Senado e o STF como estratégia para fechamento do regime, ante o qual passará a atacar os grandes direitos do Estado social brasileiro, alguns criados e outros ampliados durante os governos do PT.

Não à toa, a principal bandeira de Flávio Bolsonaro é a anistia ao pai e aos golpistas de 8 de Janeiro e sua agitação para controlar o Senado e o STF como estratégia para fechamento do regime, ante o qual passará a atacar os grandes direitos do Estado social brasileiro, alguns criados e outros ampliados durante os governos do PT.

Além dos ataques à Seguridade Social pública (saúde, previdência e assistência social) e aos direitos dos trabalhadores do setor público, o objetivo do bolsonarismo e toda a extrema-direita está em entregar a soberania nacional ao imperialismo e atacar a rede pública de educação federal e estaduais, os Institutos Federais; as políticas públicas como o Bolsa Família (auxílio de no mínimo R$ 691 a partir de outubro para as famílias mais pobres com a manutenção das matrículas escolares); o Farmácia Popular (medicamentos gratuitos para o tratamento de doenças comuns e crônicas como hipertensão, diabetes, asma, osteoporose, colesterol alto, rinite, doença de Parkinson, glaucoma e anticoncepção. Insumos de higiene como fraldas geriátricas para pessoas com incontinência e absorventes higiênicos); o Programa Gás do Povo (benefício do Governo Federal que garante a recarga gratuita do botijão de gás de cozinha (GLP de 13 kg) para famílias de baixa renda).

Outros programas ameaçados pela extrema-direita é o Minha Casa Minha Vida (política de acesso à moradia própria para famílias em áreas urbanas com renda bruta mensal de até R$ 13.000 (ou renda anual de até R$ 134.000 em áreas rurais com taxas de juros reduzidas e ajuda financeira do governo para cobrir parte significativa do valor do imóvel); o Luz para Todos que levou energia elétrica a milhões de residências em áreas rurais e isoladas; o ProUni que concede bolsas de estudo integrais e parciais em instituições privadas de ensino superior; a valorização real do Salário Mínimo com política de reajustes reais baseada no crescimento do PIB e na inflação, entre outras tantas políticas sociais, que não poderiam existir sem uma forte presença do Estado no impulso econômico catalisador do crescimento, do crédito e garantidor das políticas sociais com a vinculação das aposentadorias e benefícios ao valor do salário mínimo.

Dados do Ministério do Desenvolvimento Social demonstram que em dois anos, o número de famílias em situação de vulnerabilidade social caiu 25%. Eram 26,1 milhões de domicílios em maio de 2023 e passaram a 19,56 milhões em julho de 2025. Isso representa 6,55 milhões de famílias que melhoraram de vida. Em termos individuais, são 14,17 milhões de pessoas que deixaram a pobreza no país.

As pesquisas eleitorais têm indicado, desde o início do ano, uma forte resiliência da candidatura de Lula em manter-se à frente, no primeiro e segundo turnos, apesar das oscilações e empates na margem de erro.

Mas é possível vencer. As pesquisas eleitorais têm indicado, desde o início do ano, uma forte resiliência da candidatura de Lula em manter-se à frente, no primeiro e segundo turnos, apesar das oscilações e empates na margem de erro.

O alerta vem das derrotas recentes na Colômbia e no Peru, e da experiência das eleições anteriores, no Brasil. O grande capital, associado ao bolsonarismo e ao imperialismo farão todos os esforços para impor uma derrota estratégica aos povos da América Latina. Será voto a voto e há perigo na esquina.

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