Reflexões sobre a sociedade humana e a falácia do desenvolvimento, por Marchesan, Bazzanella & Godoi

Reflexões sobre a sociedade humana e a falácia do desenvolvimento

por Jairo Marchesan, Sandro Luiz Bazzanella e Cíntia Neves Godoi

A trajetória histórica das relações da sociedade humana, sobretudo a ocidental/ europeia com outros territórios e povos, foi marcada, majoritariamente, pela exploração e destruição dos bens naturais e pelas variadas formas de violência, expropriação e opressão humana.

Na mesma direção, historicamente, a sociedade humana europeia foi e é marcada por conflitos internos, regionais e, por guerras mundiais (que para alguns autores também são consideradas como guerras civis e não necessariamente mundiais), equivocadamente assim denominadas, na medida que ocorreram em território europeu.

Deste modo, a história política, econômica e social, bem como, a acumulação da riqueza da maior parte dos países da Europa Ocidental é proveniente da conquista de territórios, do saque de bens naturais (solos, flora, fauna, minerais, água, enfim, da biodiversidade) e da produção agrícola dos países do sul global. Essa abordagem gerou relações e práticas associadas à destruição ambiental. Assim, é uma trajetória histórica marcada pelo intenso, extenso e violento processo de escravização de povos e colonialismo de territórios, seja na África, na Ásia ou na América.

É importante destacar que, na época da colonização, as Companhias Colonizadoras e outras frentes de colonização, inclusive religiosas, tiveram amplo apoio e financiamento dos Estados absolutistas e imperiais europeus para a execução de práticas de exploração ambiental e humana.

Posteriormente, a partir da modernidade e com a constituição dos Estados modernos, agora com características capitalistas, atuaram com as funções de proteger a propriedade privada, os donos dos meios de produção e a violenta lógica operacional de colonização.

Neste sentido, os Estados europeus contribuíram para a consolidação do modo de produção capitalista, provocando crescentes tensões, contradições, conflitos e guerras, as quais cresceram vertiginosamente por conta da orientação de uma racionalidade econômica específica, pautada e guiada pelos interesses da conquista, da invasão de territórios, da dominação de povos e do acúmulo de bens e produtos materiais, com a obsessão pelo lucro, pela acumulação de capital.

É sob tais pressupostos, que reitera-se que a civilização europeia e seus descendentes caracterizam-se, e ainda o fazem, pela invasão de territórios, saque de riquezas naturais, opressão e submissão de povos, violência e belicismo.

Dito de outro modo, as intervenções da sociedade humana europeia produziram centenas de conflitos em outros territórios como resultado de uma racionalidade política, econômica, religiosa e militar marcada pela conquista, obsessão, dominação, acumulação e consumo.

Neste ínterim, desde a constituição até a atuação dos governos coloniais do sul global e, posteriormente, com as “independências” políticas e administrativas de alguns países, de maneira geral, as elites e a classe média atuaram como verdadeiras covardes/traiçoeiras perante o povo, e como subservientes, por atenderem e defenderem os interesses e desejos dos grupos, governos e das corporações metropolitanas.

Ainda na atualidade, alguns governos dos ditos países desenvolvidos se comportam e atuam como se fossem donos do mundo, e isso se faz notório quando invadem territórios, subjugam e escravizam povos, destroem seus modos de vida e suas culturas e os submetem a condições de meros trabalhadores e produtores de riquezas para seus interesses e projetos.

Ainda, na mesma direção, as agressivas elites e parte considerável da classe média e seus asseclas destes países, sempre se associaram, atuaram e continuam firmemente a fazê-lo em defesa de seus interesses e para beneficiar as economias e culturas metropolitanas.

Mais recentemente, nos últimos 250 anos, uma derivação da cultura europeia também impôs-se imperialmente, mundo afora, por meio da força política, econômica e militar, influenciando e dominando territórios e povos. O modus operandi é praticamente o mesmo: iludir a população, despolitizá-la sistematicamente, explorar as riquezas naturais (solos, minérios, água, fauna e flora, etc.), intervir sobre governos, financiar e manter ditaturas, asfixiar economias, sequestrar e até eliminar chefes de Estado!

A partir, especialmente de teóricos e estrategistas estado-unidenses, ao longo dessa trajetória histórica, difundiram-se e impuseram-se, mundialmente, crenças religiosas, ideologias políticas, sociais e econômicas, “modelos” de economias e teorias que vão fazer uso das expressões – progresso e de desenvolvimento.

Destaca-se, aqui, a ideologia do crescimento e do desenvolvimento econômico, difundido e aplicado mundo afora como promessa e ilusão. Este sistema, também pautado e difundido nos ideais do progresso e da contínua insatisfação das conquistas e alcances e, portanto, do desejo de se ter sempre mais bens e produtos, acaba intensificando o regime de acumulação.

Podemos afirmar, neste contexto, que foi e que estamos vivendo a ocidentalização mundial da ideologia do desenvolvimento, que transmite a ideia de que, com a operacionalidade do desenvolvimento, se proporciona melhores condições de vida e qualidade ambiental, sem contestar o sistema capitalista que a engendra e mantém. Sob tais pressupostos, inclusive, intelectuais das periferias aderiram às causas metropolitanas imperiais, e passaram a ser porta-vozes, reprodutores ideológicos e divulgadores e defensores dos preceitos do desenvolvimento capitalista.

Nas últimas quatro ou cinco décadas, principalmente, esses preceitos são escamoteados ou disfarçados por adjetivos e variáveis de regional, territorial, humano, sustentável e local, entre outros. Tais variáveis, contudo, não passam de narrativas enganosas, equivocadas e a serviço (ou reprodução) do capital e de seu modo/regime de exploração e acumulação capitalista.

É perceptível que, especialmente neste período eleitoral, praticamente todos os candidatos a alguma vaga utilizam-se do discurso do desenvolvimento, não como projeto autônomo de nação, mas, como sinônimo de “evolução”, como certeza de crescimento econômico, como difundido largamente desde o final dos anos 1940, para, friamente propor um discurso de formas de viver que alegavam ser imprescindível para a melhoria da vida das pessoas, dentre outras famigeradas intenções. Sim, porque a ideologia do desenvolvimento tem essa pretensão e também a capacidade de operar captando sentimentos e afetos, capazes de gerar disposição e de fazer com que as pessoas acreditem em forças ou princípios transcendentes que por si só conduzem o mundo a uma “terra prometida”, onde há uma condição melhor.

Além disso, há o estímulo para que as pessoas sejam empreendedoras, utilizem-se das oportunidades e triunfem socialmente e economicamente. Evidentemente, como não se pode condenar a ideologia, e como é preciso ampliar a impossibilidade de seu alcance, cerne daquilo que se apresenta como utopia, aqueles que não alcançam tal condição, primeiramente são convidados a se esforçar mais, e, se forem considerados incapazes, certamente serão definidos como incompetentes e responsáveis individuais pelos seus próprios fracassos.

Então, ouve-se, cotidianamente, inclusive entre membros da sociedade, de maneira geral, insistências em reproduzir uma ideologia contaminada, ultrapassada e que se mostrou, ao longo do tempo, como nociva, destrutiva e violenta contra os povos e territórios.

Neste sentido, parece que tais retóricas soam como pretensas tentativas de receitar ou aplicar remédios para um doente em fase terminal. A contínua utilização da ideologia do desenvolvimento capitalista esconde os interesses e ações do capital para a exploração e expropriação humana. Ou ainda, produz e reproduz concentração de renda e perversidades sociais, políticas, econômicas e ambientais. Sob tais prerrogativas se constata, cotidianamente, crescentes impasses, conflitos e guerras.

Paralelamente, há a ampliação da exploração da mão de obra dos trabalhadores, das desigualdades sociais e dos problemas socioambientais, dentre outros. Diante de tal contexto, questiona-se: Que desenvolvimento é esse? Para reproduzir e proliferar socialmente as ideologias de engodo do capital, na crença de algo melhor que nunca acontece? É essa uma das características do falacioso e agressivo discurso das elites e seus asseclas que proclamam e reproduzem sistematicamente como um dos elementos de manterem o status quo e a reprodução do modo de produção capitalista.

Por isso, fica o convite para que os leitores reflitam profundamente sobre suas condições históricas, sociais, políticas e econômicas e o tipo de desenvolvimento divulgado e aplicado. Na mesma direção, neste período eleitoral, é importante, também, identificar a história ou a trajetória de vida dos candidatos, suas causas, seus compromissos e pautas de campanha, os que de fato possuem comprometimento com transformações socioeconômicas do país, sobretudo com a justiça social.

Dr. Jairo Marchesan. Geógrafo e Professor.

Dr. Sandro Luiz Bazzanella. Filósofo e Professor.

Drª. Cíntia Neves Godoi – Geógrafa e Professora

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