Uma reconstituição baseada em 125 mensagens apreendidas pela Polícia Federal revela detalhes sobre a participação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, em um orgia privada promovida pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A festa ocorreu em 28 de fevereiro de 2025, uma sexta-feira de Carnaval, no apartamento tríplex de Vorcaro no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo.
As informações constam em reportagem veiculada pela revista piauí nesta quinta-feira (15).
O encontro, identificado nas conversas como destinado a “KN” (iniciais de Kassio Nunes Marques, ministro do STF e atual presidente do TSE), mobilizou dois motoristas, o chef de cozinha José Maria Meira, o mordomo Michael, uma faxineira (Selma), o arquiteto Kiko Sobrinho e a agenciadora de mulheres Rayanna.
Os gastos registrados giraram em torno de R$ 27 mil, com destaque para carnes, caviar e trufas.
Durante o evento, o mordomo manteve o anfitrião informado por meio de mensagens que descreviam pessoas nuas na área da piscina e o tempo de permanência do excelentíssimo visitante. Registros das mensagens trocadas entre os organizadores indicam a destinação de um dos quartos da residência de luxo para o magistrado acompanhado de cinco garotas de programa.
Às 20h56, Michael informou a Vorcaro: “Emprestei quarto do lado para ministro com 5 menina”. O banqueiro respondeu “Claro. Que sim” e deu instruções sobre os quartos.
Às 22h08, o mordomo relatou: “Pessoal tudo pelado na piscina. Uma passou mal vomitou mais tá bem já”. Pouco depois, às 22h55, acrescentou: “Ministro tá sem pressa nenhuma de ir embora acabou de falar que está renovando para começar tudo novamente”.
Às 23h15-23h17, avisou a saída. Em seguida, enviou fotos de três preservativos usados sobre um tapete e escreveu;“Tô arrumando pra não deixar pra selma [faxineira] essas coisa” e de uma calcinha de renda preta encontrada entre o lençol e a fronha.
Vorcaro instruiu Rayanna a recolher os celulares das mulheres. “Só lembra que sem celular”, escreveu. No mesmo dia da festa, Vorcaro escreveu ao então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó: “fazendo graça para ministro em SP”.
Posteriormente, a agenciadora cobrou R$ 10 mil relativos ao atendimento privê prestado por uma das acompanhantes ter “ficado com o Kassio”. Não se sabe se a cotação de R$ 10 mil é o valor de praxe ou por ter sido prestado especialmente ao distinto ministro da Suprema Corte.
Noitada sem respostas
O ministro Kassio Nunes Marques é casado com Maria do Socorro Marques. Em resposta oficial enviada à revista, a assessoria do magistrado declarou que ele nunca votou a favor de Daniel Vorcaro, ressaltando o posicionamento pela manutenção da prisão do empresário, e informou que jamais trocou mensagens ou solicitou favores ao banqueiro.
A nota acrescentou que o magistrado não autorizou terceiros a falarem em seu nome e não se responsabiliza por diálogos entre interlocutores. A manifestação, contudo, não apresentou negação explícita sobre a presença física no triplex de Vorcaro.
O caso da Destilaria Alcídia
O episódio ganha relevância pelo contexto dos processos judiciais que envolvem as empresas de Vorcaro. O Banco Master sofreu liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, após a identificação de grave crise de liquidez e descumprimento de normas do Sistema Financeiro Nacional, investigados no âmbito da Operação Compliance Zero. O rombo estimado junto ao Fundo Garantidor de Créditos ultrapassa R$ 40 bilhões.
Investigações da Polícia Federal apontam decisões do STF que impactaram ativos ligados ao grupo financeiro. Em outubro de 2024, cinco meses antes do evento em São Paulo, Kassio Nunes Marques proferiu o voto de desempate na Segunda Turma da Corte no julgamento referente à Destilaria Alcídia. A decisão favoreceu a valorização de uma carteira de precatórios do setor sucroalcooleiro estimada pela PF em mais de R$ 10 bilhões, de interesse direto do Banco Master. No mesmo dia do julgamento, diretores da instituição comemoraram o resultado em mensagens e compartilharam contatos do filho do magistrado, Kevin Marques. Durante o período, a instituição financeira realizou repasses milionários a empresas que efetuaram transferências para o filho do ministro.
A revista Piauí observa ainda que se trata de episódio inédito na história recente do STF: um ministro citado em mensagens privadas recebendo favores (incluindo de caráter sexual) organizados por um banqueiro cujo processo por fraude de grande escala tramita na mesma Corte.
O caso ganha relevância adicional porque Kassio preside o TSE às vésperas das eleições de 2026 e integra o tribunal que julga o Master. Até o momento, o STF não tomou providências formais sobre as revelações.