Arthur Napoleão o gênio do piano e do xadrez, por Luís Nassif

Uma das personalidades mais curiosas do universo da música clássica brasileira é o português Arthur Napoleão.

Menino prodígio, era levado pelo pai a concertos de piano nas principais capitais europeia. Depois, por alguma razão mudou-se para o Rio de Janeiro e montou a casa Arthur Napoleão, de instrumentos musicais e partituras, durante décadas o ponto principal da música erudita brasileira.

Tem mais coisas. Era um enxadrista de primeira. As lendas do xadrez garantem que ele empatou em um match com Paul Morphy, o gênio norte-americano considerado o maior enxadrista de sua época.

Ensinou xadrez a Machado de Assis e foi professor de piano de Chiquinha Gonzaga.

1. A disputa com Morphi

Aqui, uma transcrição da Revista da Semana, edição semanal ilustrada do Jornal do Brasil, sobre as qualidade enxadrísticas de Arthur Napoleão:

Como justa homenagem a um dos mais illustres enxadristas e ao decano dos compositores de problemas de xadrez no Brasil, inserimos hoje o retrato do commendador Arthur Napoleão, limitando-nos porém, a desenhar aqui, ligeiros traços sobre a sua carreira enxadristica, porisso que, não nos compete tratar da individualidade artistica do grande maestro, rival de Saint-Saëns.

Foi em 1853, em uma das suas viagens a Inglaterra, que Arthur Napoleão aprendeu os primeiros movimentos do jogo de xadrez; tendo ido para New-York em 1858, ahi, bem joven ainda, adquiriu extraordinario gosto, tornando-se alvo da admiração dos mais fortes amadores, pelo precoce talento que revelara nas lutas com elles travadas.

Paulo Morphy, tendo batido todos os mestres da Europa, de tal modo enthusiasmo[u] os americanos, que, em 1859, o jogo de xadrez generalizou-se em todos os Estados-Unidos.

Arthur Napoleão, tambem suggestionado, fez-se membro do New-York Chess Club e ahi foi apresentado ao grande mestre.

«Uma noite (disse um jornal do tempo), Morphy desprezando os mestres presentes quiz medir-se com o genio do piano»; effectivamente jogaram duas partidas, levando A. Napoleão a Torre de vantagem; uma dellas foi publicada por Max Lange e reproduzida em publicações inglezas, francezas, allemãs e portuguezas.

Com a idade de 15 annos começou a fazer problemas; amigo intimo de S. Loyd, este o iniciou na mesma arte e publicou em uma columna que redigia os problemas que no Caissana Brasileira trazem os ns. 19 e 21, esse ultimo com um retoque de Loyd.

Arthur Napoleão lidava n’esse tempo com a maioria dos mestres Norte-americanos: ganhou a Stanley o campeão dos Estados Unidos (antecessor de Morphy) n’um torneio handicap, offerecendo este um cavallo de partido; recebeu muitas lições de Lichtenhein com quem residia; visitava frequentemente a Miron Hazeltine, que em um dos seus livros, o Chess Tournament, publicou os problemas que na Caissana tem os ns. 85 e 86.

Foram esses os primeiros passos do enxadrista de que nos occupamos.

Em 1878 assistiu ao grande torneio de Paris em que tomaram parte: Andersen, Blackburne, Zukertort, Mackensie, Winaver, Rosenthal e outros meteoros do xadrez. Foi n’essa occasião que a pedido de Préti (pae e filho) tornou à composição de problemas.

Agora, durante a Exposição de Paris, acompanhou o torneio do Grand Cercle, onde teve occasião de relacionar-se com Pillsbury, Lasker, Marco, Showalter, Mieses, Maroczy, Burn, Marshall e Tschigorin.

A. Napoleão tem problemas publicados em todas as principaes revistas estrangeiras, e entreteve correspondencia com os grandes luzeiros da arte, como o Barão von Heydebrand u. der Lasa, J. Berger, etc.
Os seus esforços em prol do enxadrismo no Brasil estão sobejamente attestados: na bôa orientação dada ao Club de Xadrez, do qual é presidente ha dous annos; na direcção das columnas desse genero mantidas com muito brilho no Jornal do Commercio (1884-1885) e na Gazeta de Noticias (1897-1900) e, finalmente, na sua excellente obra intitulada Caissana Brasileira em que o autor reuniu, além do codigo do jogo de xadrez, a collecção completa de todos os problemas nacionaes.

2. Arthur Napoleão e Machado de Assis: amizade, música e uma derrota no xadrez

A amizade entre Machado de Assis e Arthur Napoleão começou na década de 1860 e se desenvolveu em torno da música, da literatura e do xadrez.

Machado não era apenas um admirador do jogo: disputava partidas, acompanhava publicações especializadas e frequentava clubes de enxadristas.

Em 1862, Machado escreveu entusiasmado sobre a passagem de Arthur Napoleão pelo Rio de Janeiro. Os dois também colaboraram na peça O remorso vivo, com música de Napoleão e versos de Machado.

Em 1877, disputaram um confronto de xadrez, cujo resultado foi registrado pela Ilustração Brasileira, de 1º de julho daquele ano.

CONFRONTO DE 1877

Arthur Napoleão

7

vitórias

Machado de Assis

2

vitórias

Napoleão concedeu a Machado a vantagem de um cavalo, mas ainda assim venceu o confronto.

Ambos foram parceiros em várias músicas, conforme registro de Leniza Castello Branco:

3. Arthur Napoleão e Ernesto Nazareth: o editor e o compositor

Joel Fan (@JoelFanMusic) on X

A relação com Ernesto Nazareth (1863–1934) foi ainda mais decisiva para a história da música brasileira.

Arthur Napoleão foi uma das primeiras influências musicais de Nazareth e, posteriormente, tornou-se seu editor.

Segundo a biografia mantida pelo Instituto Moreira Salles, Nazareth ouvia, ainda criança, sua mãe tocar composições de Chopin, Beethoven e Arthur Napoleão.

Instituto Moreira Salles

Posteriormente, a Casa Arthur Napoleão tornou-se fundamental para a divulgação de suas partituras.

O pesquisador e pianista Alexandre Dias, em artigo publicado no Jornal GGN, destaca que a editora foi a primeira a publicar músicas de Nazareth e manteve suas obras em catálogo.

Jornal GGN

Há também um testemunho especialmente revelador sobre a relação pessoal dos dois músicos. Em uma carta histórica recuperada pelo projeto Ernesto Nazareth — 150 anos, aparece uma observação atribuída a Arthur Napoleão:

Ó Nazareth, por que não escreves tuas composições como as executas?

A frase sugere que Napoleão percebia uma diferença entre a riqueza interpretativa de Nazareth e aquilo que ele conseguia registrar nas partituras. É um testemunho significativo da relação artística entre os dois.

O aspecto histórico mais significativo é que Arthur Napoleão foi muito mais do que um pianista virtuoso. Ele funcionou como um articulador da vida cultural brasileira do século XIX, conectando o repertório europeu, a edição musical, os salões literários e o xadrez.

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