A diferença de tratamento dispensada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aos canais de WhatsApp das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) provocou uma nova controvérsia na disputa presidencial. Enquanto o “Exército do Lula” foi suspenso por determinação do presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques, o “Tropa do Flávio”, que também teve seu endereço comunicado tardiamente à Justiça Eleitoral, continuou funcionando normalmente, mesmo após a identificação de conteúdos falsos e enganosos disseminados pela rede bolsonarista.
A desigualdade ficou ainda mais evidente com uma investigação da Agência Lupa, publicada na terça-feira (13), que identificou ao menos oito conteúdos enganosos em 247 mensagens divulgadas pelo canal de Flávio Bolsonaro. Entre eles, imagens produzidas por inteligência artificial, falas de Lula retiradas de contexto e acusações sem provas contra o presidente.
Apesar das irregularidades, o canal bolsonarista não recebeu a mesma punição aplicada ao canal do presidente. Foi somente após a campanha de Lula exigir igualdade de tratamento que Nunes Marques recuou, antecipando a liberação do “Exército do Lula” na quarta-feira (14). Nesta quinta (15), o próprio TSE derrubou a regra que estabelecia a espera de 48 horas para a retomada das atividades.
Dois pesos, duas medidas
O “Tropa do Flávio” foi criado em 6 de outubro. No dia seguinte, o PL informou ao TSE a existência de um site com esse nome, mas omitiu que o endereço direcionava para um canal de WhatsApp. Essa informação só foi complementada nesta terça, exatamente no mesmo dia em que a campanha de Lula registrou oficialmente o “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), que já reunia mais de 4 milhões de seguidores.
No entando, a semelhança dos procedimentos não resultou em tratamento equivalente.
Atendendo a um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, Nunes Marques determinou inicialmente, no dia 11, a derrubada do canal pró-Lula. A ordem foi revertida pelo corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, mas, dois dias depois, Kassio voltou a determinar a suspensão, condicionando a retomada das atividades ao cumprimento de 48 horas.
Enquanto isso, o canal da campanha de Flávio, com aproximadamente 1,7 milhão de seguidores, continuava operando sem sofrer a mesma restrição.
A contradição levou a coligação de Lula a questionar a diferença de tratamento e pedir que o TSE aplicasse ao “Tropa do Flávio” a mesma medida imposta ao “Exército do Lula”.
O pedido colocou em evidência uma questão: a de que as regras eleitorais devem valer igualmente para todos os candidatos, independentemente de sua posição política.
Canal bolsonarista espalha imagens falsas e ataques sem provas
A investigação da Agência Lupa examinou 247 mensagens publicadas no “Tropa do Flávio” entre 6 e 13 de outubro. O levantamento encontrou conteúdos manipulados e informações enganosas distribuídas para uma audiência que, naquele momento, contava com cerca de 1,5 milhão de seguidores.
Entre os exemplos identificados está um vídeo que distorce declarações de Lula sobre exames de prevenção ao câncer de próstata para insinuar uma associação com abuso infantil. O material utilizava ainda uma ilustração gerada por inteligência artificial.
Outra publicação apresentava um trecho editado de um discurso para sugerir que Lula não acreditava em Deus, omitindo justamente a parte em que o presidente afirmava sua fé.

O canal também reproduziu acusações não comprovadas envolvendo Lula e o banqueiro Daniel Vorcaro, além de um áudio atribuído a Marcola, apontado como líder do Primeiro Comando da Capital (PCC), que circula desde 2022 sem comprovação de autenticidade.

A ofensiva digital atingiu ainda as manifestações populares em defesa da reeleição do presidente. Uma imagem artificial mostrava uma trabalhadora limpando pichações contra Jair Bolsonaro em uma estação de metrô. Outro vídeo, que já circulava em diferentes países antes dos protestos, foi apresentado como registro de uma manifestação pró-Lula. Este último acabou retirado do canal após questionamentos da imprensa.

Apesar dessas evidências documentadas, os conteúdos do “Tropa do Flávio” não haviam sido submetidos à mesma análise técnica do TSE realizada sobre o canal de Janones.
Pressão por isonomia obriga recuo
A cobrança da campanha de Lula expôs uma contradição na aplicação das regras eleitorais. Se a ausência de registro prévio justificava impedir temporariamente o funcionamento de um canal, por que a mesma restrição não havia sido aplicada à estrutura digital do adversário?
Diante dessa diferença, a coligação do presidente pediu, em 14 de outubro, que o TSE também suspendesse o “Tropa do Flávio” por 48 horas.
Após o pedido, Kassio antecipou a liberação do “Exército do Lula”, sem exigir o cumprimento integral do prazo anteriormente determinado. Um dia depois, o plenário do TSE revogou a própria exigência de espera de 48 horas após a regularização dos canais.
A decisão elimina a restrição que atingiu o canal pró-Lula, mas não encerra o debate sobre a fiscalização da propaganda digital. As regras eleitorais também proíbem a disseminação de desinformação e estabelecem condições para o uso de inteligência artificial em materiais de campanha.
O episódio deixa uma questão central para o segundo turno: como garantir igualdade de tratamento entre as candidaturas enquanto uma estrutura digital com milhões de seguidores dissemina conteúdos comprovadamente enganosos sem receber a mesma fiscalização?
A defesa da lisura eleitoral exige mais do que a regularização formal de canais. Exige que as regras sejam aplicadas com critérios transparentes e que a disseminação de notícias falsas seja enfrentada independentemente de quem as produz.
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com informações de agências