A ultradireita peruana quer ensinar disciplina começando pelo cabelo dos estudantes. Menos de quatro meses após assegurar a vitória presidencial e recolocar o fujimorismo no poder, Keiko Fujimori apresentou um projeto de decreto que pretende regular a aparência e o comportamento de alunos das escolas públicas. Maquiagem, unhas pintadas, brincos, correntes, anéis e cabelos compridos para meninos estão na lista de proibições propostas pelo governo.
A iniciativa vem embalada pelo discurso de recuperação da ordem e da autoridade docente, uma das bandeiras políticas de Fujimori. O pacote também prevê restrições ao uso de equipamentos eletrônicos durante as aulas e expulsão de estudantes envolvidos em infrações classificadas como muito graves.
Sob a justificativa da disciplina, o governo mistura o enfrentamento à violência escolar com a imposição de padrões conservadores de aparência. A proposta foi apresentada na última segunda-feira, 12 de outubro, e ficará aberta a sugestões e comentários por 15 dias. As regras ainda não estão em vigor e se destinam às escolas públicas; as instituições privadas poderão estabelecer seus próprios regulamentos.
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Do combate à violência ao controle dos corpos
Para a ultradireita de Keiko Fujimori, a disciplina escolar também passa por vigiar cabelos, unhas e acessórios. O governo quer proibir maquiagem, esmalte, brincos, piercings e tatuagens, restringir o comprimento das saias e obrigar meninos a manter os cabelos curtos. Tudo em nome da ordem.
A escola, que deveria proteger estudantes de agressões e assédio, vira também espaço para fiscalizar como se vestem e se apresentam. A velha receita moralista: em vez de direcionar esforços para enfrentar a violência escolar, o governo quer ensinar até como os jovens devem parecer.
O anúncio veio após uma denúncia de violência sexual contra um estudante de 16 anos durante uma viagem em um ônibus escolar, em setembro. O caso provocou indignação no Peru e levou à internação preventiva de seis adolescentes envolvidos. Na esteira da repercussão, vieram à tona outros relatos de bullying e violência em escolas do país.
A pretexto de combater a violência, Keiko quer disciplinar até a aparência dos jovens. Episódios de violência sexual e agressões entre estudantes não têm relação com o comprimento dos cabelos, o uso de brincos ou as unhas pintadas. Ao misturar o enfrentamento dessas ocorrências com restrições à aparência dos alunos, o governo usa a crise como justificativa para impor padrões conservadores de comportamento.