A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acionou novamente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nesta quarta-feira (14), para denunciar o que classifica como “seletividade algorítmica” da Meta no tratamento das campanhas que disputam o segundo turno presidencial.
A equipe jurídica afirma que a empresa restringe conteúdos e anúncios ligados a Lula enquanto permite maior circulação de materiais favoráveis ao senador Flávio Bolsonaro (PL). A campanha pede ao tribunal medidas urgentes para interromper as restrições, derrubar perfis inautênticos e recompor o alcance que teria sido perdido.
IA da Meta expõe tratamento desigual
A denúncia ganhou novo elemento com testes realizados nesta quarta-feira. Reportagens independentes mostraram que a Meta AI, integrada ao WhatsApp, recusou pedidos para criar imagens com “Lula 13”, mas produziu normalmente uma peça com “Flávio 22”. Testes semelhantes também registraram a diferença.
O episódio é particularmente sensível porque a própria Meta afirma ter adotado medidas para impedir a criação de imagens promocionais de candidatos no Brasil. Ainda assim, a ferramenta continuou apresentando respostas diferentes para comandos politicamente equivalentes.
A discrepância, isoladamente, não comprova uma orientação política deliberada do algoritmo. Mas cria um problema objetivo de transparência: se a regra é a mesma para todos, a plataforma precisa explicar por que comandos equivalentes recebem tratamentos diferentes.
Assimetria digital ameaça igualdade na disputa
A campanha de Lula sustenta que a questão ultrapassa uma simples falha técnica. Para os advogados Gean Ferreira e Evelyn Santos, o problema é garantir “igualdade de oportunidades também no meio digital”, ambiente decisivo para a comunicação eleitoral.
A petição também questiona a distribuição de vídeos de Nikolas Ferreira (PL), cujos números de visualização, segundo a campanha, seriam desproporcionais ao tamanho de sua audiência quando comparados a grandes celebridades internacionais.
A Meta contesta a acusação e afirma que não existem evidências técnicas de favorecimento ou prejuízo deliberado a candidatos. Em resposta anterior ao TSE, a empresa atribuiu parte dos problemas apontados pela campanha a falhas técnicas e reiterou seu compromisso com a integridade eleitoral.
O ponto central, portanto, não é apenas saber se houve intenção política. É verificar se sistemas privados de recomendação, moderação, publicidade e inteligência artificial estão produzindo efeitos assimétricos capazes de alterar o alcance das mensagens eleitorais.
Milhares de relatos aumentam pressão sobre TSE
A organização CTRL+Z também cobra providências do TSE. A entidade lançou a campanha “Meta, tira a mão da nossa eleição” e afirma ter documentado mais de 1,1 mil relatos de bloqueios, remoções, restrições de funcionalidades e queda de alcance nas plataformas da empresa.
Entre os casos citados estão perfis de coletivos, sindicatos e organizações que relatam remoções ou restrições sem explicações claras. A entidade pede transparência sobre os critérios de moderação, mecanismos de revisão humana e restauração de conteúdos removidos indevidamente.
A campanha também menciona uma rede de 255 perfis automatizados que teria alcançado dezenas de milhões de visualizações, ampliando a preocupação com o uso de automação e inteligência artificial para interferir no debate eleitoral.
TSE precisa impedir uma eleição definida pelos algoritmos
Na televisão e no rádio, há regras públicas de distribuição e fiscalização. Nas redes, decisões tomadas por algoritmos opacos podem determinar quem aparece, quem desaparece, qual conteúdo ganha escala e qual é artificialmente limitado.
É justamente por isso que a campanha de Lula pede ao TSE uma resposta antes da votação. Em uma eleição decidida também pela disputa de atenção nas redes, garantir igualdade de condições significa impedir que empresas privadas tenham, na prática, poder para definir quais candidaturas podem falar e quais terão seu alcance reduzido.