O Nobel da Paz e o narcisismo maligno de Donald Trump

Donald Trump durante discurso público
Navi Pilay em evento das Nações Unidas. Foto: Reprodução

Por Paulo Henrique Arantes

A escolha da gigantesca Navi Pilay como Nobel da Paz em 2026 recebeu de pronto um ataque do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O bufão simplesmente afirmou que deveria ser ele o condecorado pelo Comitê Norueguês do Nobel, por ter “acabado com oito guerras” e outras benfeitorias imaginárias. Invadir e/ou bombardear nações soberanas, coparticipar do genocídio em Gaza, sufocar economias estrangeiras com tarifas exorbitantes e perseguir imigrantes em seu próprio país não deveria constituir óbice à sua premiação.

Distúrbios psiquiátricos levam líderes políticos a um egocentrismo assim patético. Imaginar-se um ser humano superior aos demais é característica de muitos deles, mas bradar publicamente essa falsa percepção é exclusividade trumpista. A ciência explica o distúrbio a partir de três conceitos: Síndrome de Húbris, Narcisismo Maligno e Tríade Sombria.

A Síndrome de Húbris é também chamada de “Mal do Poder”. O neurologista David Owen e o psiquiatra Jonathan Davidson, ambos britânicos, descreveram os acometidos como pessoas de orgulho excessivo, arrogância e insolência, que superestimam o próprio poder, acreditam estar acima do resto da humanidade, frequentemente julgando-se responsável apenas perante Deus ou a História. São incapazes de ouvir conselhos ou aceitar críticas. Passam ao largo da realidade.

O psicanalista alemão Erich Fromm e o psiquiatra austríaco Otto Kernberg cunharam o termo Narcisismo Maligno. Trata-se de uma variação extrema e perigosa do narcisismo que combina traços de autoengrandecimento com comportamentos antissociais e destrutivos. Assim se enxerga o narcisista maligno: absolutamente grandioso e infalível. Em paralelo, pratica intolerância visceral à rejeição ou à contrariedade. Agride violentamente bodes expiatórios e apresenta tendências paranoides – acha que há sempre uma conspiração contra si em curso.

Navi Pilay em evento das Nações Unidas
Donald Trump durante discurso público nos Estados Unidos. Foto: Reprodução

Já a Tríade Sombria resulta do cruzamento de três traços: narcisismo (grandiosidade, busca por admiração), maquiavelismo (manipulação cínica, exploração de outros e foco exclusivo no poder) e psicopatia subclínica (falta de empatia, de remorso e impulsividade). A patologia foi descrita pelos psicólogos canadenses Delroy L. Paulhus e Kevin M. Williams, em 2002. Suas pesquisas demonstram como indivíduos com essa combinação de traços são atraídos por posições de liderança e poder absoluto.

Donald Trump enquadra-se nitidamente nos três casos, sem tirar nem por. Incomoda sobremaneira a candura com que o mundo convive com uma figura tão grotesca, tolerando-a ou criticando-a de modo reverencioso. Claro, confrontar os Estados Unidos poderia significar ausência de juízo, mas, no caso de Trump, adulá-lo não garante reciprocidade.

Situada em lado oposto ao do mandatário americano, Navi Pilay engrandece o Nobel. Seu currículo faz-nos crer que o mundo ainda conta com pessoas dispostas a torná-lo menos cruel. Ela ajudou a garantir o acesso de presos da Ilha Robben, incluindo Nelson Mandela, a advogados, em 1973. Foi a primeira mulher não-branca a abrir um escritório de advocacia na província de Natal e, posteriormente, foi nomeada para a Suprema Corte da África do Sul. Presidiu o Tribunal Penal Internacional para Ruanda, que julgou crimes cometidos durante o genocídio de 1994. Foi alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Presidiu a comissão independente de inquérito da ONU que concluiu, em 2025, que Israel cometeu genocídio na Faixa de Gaza.

Do alto de uma carreira jurídica civilizatória e corajosa, Pilay olha para baixo e vê um minúsculo tiranete a lhe contestar o Nobel. Patético da parte dele.

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