Entre 9 e 12 de outubro, a menos de duas semanas do segundo turno, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kássio Nunes Marques, tomou uma série de decisões que favoreceram a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) e contra a campanha à reeleição de Lula (PT): interrompeu três julgamentos em que já havia maioria pela retirada de publicações contra Lula, suspendeu duas vezes um canal de apoiadores do presidente, mandou recolher um jornal sindical e suspendeu uma propaganda sobre o Banco Master. Ao mesmo tempo, Kássio é o ministro do STF apontado em mensagens do polêmico banqueiro Daniel Vorcaro, apontado de receber regalias, hospedagens e voos, envolvido em um contrato de até R$ 427 milhões ligado a precatórios e de pagamentos a seu filho. Ele nega as acusações. O candidato beneficiado, Flávio Bolsonaro, por sua vez, é investigado no mesmo caso.
O conjunto de decisões eleitorais e as suspeitas relacionadas ao Banco Master colocam sob escrutínio a atuação de Nunes Marques, que, além de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), preside a Justiça Eleitoral durante a disputa pela Presidência da República.
As decisões na reta final da campanha
Julgamentos interrompidos
Na sexta-feira (9), Nunes Marques pediu destaque, ou seja, paralisou três julgamentos virtuais do TSE sobre publicações contra a imagem de Lula, divulgadas pela campanha de Flávio ou por apoiadores. Os processos já tinham maioria favorável à retirada dos conteúdos, com placar de 5 a 1 em cada um.
O pedido de destaque transfere a análise para uma sessão presencial e interrompe a votação virtual. Embora seja um instrumento previsto no regimento do tribunal, a iniciativa provocou questionamentos sobre o momento em que foi adotada, às vésperas do segundo turno. Uma das peças associava Lula à defesa de criminosos e a campanha do PT buscava a remoção das publicações.
A disputa pelo canal “Exército do Lula”
A controvérsia se aprofundou no fim de semana com a suspensão do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), que reúne milhões de inscritos.
A pedido da campanha de Flávio, Nunes Marques determinou a suspensão do grupo na plataforma em prazo de três horas, sob alegação de divulgação de conteúdos irregulares. No domingo (11), porém, o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, revogou a ordem e restabeleceu o funcionamento do canal.
Cueva argumentou que não havia provas suficientes para justificar a retirada integral do serviço do ar antes de uma investigação mais aprofundada. Ele manteve a proibição de divulgar materiais já considerados ilícitos e determinou o prosseguimento da apuração.
Na segunda-feira (12), a área técnica do TSE apresentou relatório solicitado pelo próprio Nunes Marques. A análise não identificou novas publicações com as informações falsas apontadas pela campanha de Flávio no período examinado, entre 2 e 11 de outubro. O documento alertou para o alcance das mensagens, a mobilização coordenada de seguidores e o uso de linguagem polarizadora.
Apesar da revogação da suspensão inicial, Nunes Marques voltou a impor restrições ao canal nesta terça-feira (13). O ministro determinou a suspensão de atualizações e da entrada de novos seguidores até que o endereço do serviço fosse formalmente comunicado à Justiça Eleitoral, seguida de um prazo de 48 horas para a retomada. Também ordenou que a Meta acompanhe proativamente publicações do canal e de outros canais públicos de grande alcance indicados pelas campanhas.
A decisão alcança também canais ligados à candidatura de Flávio Bolsonaro. Ainda assim, a medida provocou reação do PT, que anunciou que contestará a ordem. Janones também recorreu.
Propaganda sobre Flávio e corrupção do Banco Master é suspensa
Na segunda-feira (12), Nunes Marques também determinou a suspensão de uma propaganda eleitoral de Lula que associava Flávio a suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo o Banco Master.
O ministro considerou que a peça apresentava imputações criminais sem fundamentação mínima e que o horário eleitoral não poderia ser usado para comprometer a igualdade de oportunidades entre os candidatos.
A decisão ocorreu em meio à investigação da Polícia Federal sobre possíveis irregularidades no financiamento de Dark Horse. Conversas divulgadas pelo The Intercept Brasil indicam que Flávio negociou recursos com Vorcaro para a produção do filme. Mensagens divulgadas à época mostravam Flávio Bolsonaro pedindo R$ 134 milhões a Vorcaro, e a PF comprovou que o banqueiro transferiu R$ 61 milhões ao projeto por meio de seis operações. Nesta investigação, o candidato à Presidência é acusado de crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Flávio nega irregularidades.
A propaganda também citava uma suspeita envolvendo Alfredo Gaspar, candidato a vice na chapa de Flávio. Nesse caso, o pedido de investigação havia sido arquivado pelo STF, após manifestação da Procuradoria-Geral da República pela rejeição da denúncia por falta de elementos suficientes.
Jornal sindical também é alvo de restrição
Em outra medida, proferida na sexta-feira (9), Kássio Nunes determinou o recolhimento de um jornal do Sindicato dos Petroleiros, com multa de R$ 10 mil em caso de descumprimento, a pedido da campanha de Flávio, segundo a Federação Única dos Petroleiros (FUP)
O conjunto das medidas motivou críticas de integrantes do tribunal e alimentou a avaliação, em setores da Corte, de que a atuação do presidente do TSE estaria beneficiando a candidatura do PL. Nunes Marques nega parcialidade e afirma atuar segundo os critérios da legislação eleitoral.
Kássio é citado nas mensagens de Vorcaro
As decisões eleitorais do presidente do TSE ocorrem em meio às revelações sobre as relações de Nunes Marques e pessoas próximas do ministro com o polêmico banqueiro Daniel Vorcaro, cujo celular foi apreendido pela Polícia Federal. As mensagens e documentos enviados ao STF reúnem referências a pagamentos, encontros, hospedagens, viagens e contatos relacionados a processos judiciais.
Em reportagens anteriores, o GGN mostrou que a sigla “KN” aparece em conversas do entorno do banqueiro e é interpretada pela Polícia Federal como referência a Nunes Marques.
As suspeitas que envolvem o ministro têm quatro frentes: os processos sobre precatórios de usinas de açúcar e álcool; as relações entre o banqueiro e a advogada Camilla Ramos e seu marido, o desembargador Newton Ramos; os repasses feitos a uma consultoria que pagou o escritório do filho do ministro; e uma disputa empresarial envolvendo a J&F e a Paper Excellence.
Entenda o contrato de R$ 427 milhões
O Banco Master comprou créditos judiciais de usinas que cobravam indenizações da União por prejuízos atribuídos ao antigo controle de preços do açúcar e do álcool. Esses créditos, conhecidos como precatórios após o reconhecimento definitivo das dívidas, poderiam alcançar valores bilionários.
O contrato firmado pelo escritório da advogada Camilla Ramos, mulher do desembargador Newton Ramos, previa atuação em 12 processos relacionados ao setor sucroalcooleiro. Os honorários correspondiam a 5% líquidos dos valores recebidos pelo banco e poderiam chegar a R$ 427 milhões, caso as ações fossem bem-sucedidas. O escritório afirma que o contrato era formal e que não recebeu os honorários previstos.
As mensagens apreendidas mostram que assessores de Vorcaro se referiam ao casal como integrantes da “Turma do KN”. Newton Ramos havia trabalhado como juiz auxiliar de Nunes Marques no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).
As conversas também registram pedidos de hospedagem atribuídos ao ministro. Em um dos episódios, um assessor informou a Vorcaro que Newton Ramos havia solicitado uma reserva no Hotel Fasano, em São Paulo, para “KN”. Vorcaro autorizou que a despesa fosse colocada em sua conta. Outros registros mencionam viagens, camarotes e uma mansão no Rio de Janeiro durante o Carnaval de 2025.
O que os investigadores apuram se foi “contrapartida” para os benefícios, Nunes Marques votou, em outubro de 2024, pelo reconhecimento do débito discutido no processo da Destilaria Alcídia, ao lado dos ministros Edson Fachin e Dias Toffoli. Gilmar Mendes e André Mendonça divergiram. O sistema do tribunal havia registrado Nunes Marques como impedido, mas o ministro corrigiu o sistema e se declarou habilitado.
Segundo uma representação apresentada ao STF, um diretor jurídico do Master comemorou o resultado com Vorcaro e, em seguida, compartilhou o contato do filho do ministro. Em junho de 2025, após nova decisão favorável às usinas, Camilla Ramos elogiou o voto de Nunes Marques em mensagens ao banqueiro.
A defesa do ministro afirma que o Banco Master não era parte no processo e que o voto tratou de uma tese jurídica geral, aplicável a diferentes empresas. Também sustenta que Nunes Marques já havia adotado posição semelhante quando atuava no TRF-1.
Repasses milionários à consultoria e ao filho
Outro episódio envolve a Consult Inteligência Tributária, empresa que recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master e R$ 11,3 milhões da JBS entre agosto de 2024 e julho de 2025. Segundo informações divulgadas pela imprensa, esses valores correspondiam à totalidade da receita da consultoria no período, embora o faturamento anteriormente declarado fosse de R$ 25,5 mil. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou incompatibilidade entre as movimentações e a capacidade financeira informada pela empresa.
A Consult repassou R$ 281,6 mil ao escritório de Kevin Marques, filho de Nunes Marques, advogado de 25 anos.
Nas mensagens reveladas no escândalo Master, em uma conversa de julho de 2025, o então diretor jurídico do Master perguntou a Vorcaro se o pagamento mensal de R$ 500 mil ao filho do ministro deveria ser mantido. Em outra, mencionou a Consult entre os “pagamentos essenciais”.
Kevin Marques afirma que prestou serviços tributários lícitos e nega ter trabalhado para o Banco Master ou recebido dinheiro de Vorcaro. A consultoria afirma ter realizado auditoria, consultoria tributária e desenvolvimento de sistemas. Nunes Marques declarou que o filho nunca prestou serviços ao banco e negou qualquer relação direta com o banqueiro.
A disputa pela Eldorado Celulose
A J&F, controladora da JBS, também aparece no contexto das suspeitas. Nunes Marques é relator de processos relacionados à disputa entre a holding e a Paper Excellence pelo controle da Eldorado Celulose.
Em outubro de 2024, o ministro negou uma liminar solicitada pela empresa indonésia e manteve suspensa a transferência do controle da companhia, decisão que favoreceu a posição da J&F. A medida ocorreu no mesmo período em que a Consult recebeu recursos da JBS.
O ministro nega irregularidades e apontou, em sua liminar, as regras sobre capital estrangeiro em terras rurais.
Pedidos de investigação e questionamentos sobre imparcialidade
As revelações sobre o entorno de Nunes Marques no escândalo do Banco Master levaram a iniciativas para apurar a sua conduta. Em 24 de setembro, o senador Alessandro Vieira protocolou um pedido de impeachment do ministro. Em 12 de outubro, deputados do PT apresentaram ao STF um pedido de investigação por meio de notícia de fato.
Nunes Marques foi indicado ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Em 2021, Bolsonaro declarou ter “10% de mim” dentro do Supremo ao se referir ao ministro.
Na disputa eleitoral, a campanha de Lula e mesmo ministros integrantes da Corte questionam as decisões de Kássio Nunes, que interrompeu julgamentos de retirada de publicações contra Lula, derrubou reiteradamente o canal de apoiadores do candidato e suspendeu propaganda que relacionava Flávio Bolsonaro ao Caso Master, sem que se tratasse de Fake News.