Flávio Bolsonaro vai à missa no Dia da Padroeira do Brasil após semanas de embates com católicos

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(Imagem: João Pedro Carvalho | Agência Ceub)

Entre protestos e polêmicas, Flávio comparece à missa de Nossa Senhora Aparecida

Em meio à disputa pelo eleitorado católico, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), que se declara evangélico, participou nesta segunda-feira (12) de uma missa em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, na Catedral de Brasília. A presença ocorreu após semanas de embates envolvendo a Padroeira do Brasil, acusações contra a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e questionamentos sobre a proximidade do candidato com lideranças religiosas que já fizeram declarações hostis à devoção católica. A menos de duas semanas do segundo turno, a participação do presidenciável em uma celebração católica ganhou evidente dimensão eleitoral.

O contraste entre a aproximação de Flávio com os católicos e o histórico de manifestações contrárias à devoção mariana em setores religiosos próximos ao bolsonarismo voltou ao centro das discussões. A controvérsia também ganhou um novo capítulo com o lançamento do documentário *A Guerra à Santa*, apresentado pela cantora Juliette, que recupera episódios de intolerância religiosa e questiona a relação do senador com o pastor JB Carvalho.

O histórico de hostilidade contra Nossa Senhora Aparecida

A relação entre setores evangélicos e a devoção a Nossa Senhora Aparecida é marcada por divergências teológicas que, em determinados episódios, ultrapassaram o debate religioso e assumiram a forma de ataques públicos.

Um dos casos mais conhecidos ocorreu em 12 de outubro de 1995, quando o bispo Sérgio von Helder, então integrante da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa televisivo. O episódio provocou indignação nacional e se tornou um dos símbolos mais conhecidos da intolerância contra a fé católica no Brasil.

É importante distinguir as diferentes tradições religiosas. Evangélicos, de maneira geral, reconhecem Maria como mãe de Jesus, mas não compartilham da veneração católica aos santos. Essa diferença doutrinária, entretanto, não equivale à hostilidade contra símbolos religiosos.

O problema surge quando a divergência de crença é utilizada para desqualificar a fé alheia, atacar imagens consideradas sagradas ou defender a imposição de uma interpretação religiosa sobre toda a sociedade.

Pastor ligado a Flávio já atacou a devoção à Padroeira

Entre as lideranças religiosas que protagonizaram manifestações contra a devoção mariana está o bispo evangélico João Batista Carvalho, conhecido como JB Carvalho.

Em seu livro A Bomba, publicado em 2001, o religioso apresentou críticas à veneração católica de Maria e questionou o reconhecimento de Nossa Senhora Aparecida como padroeira nacional.

O documentário A Guerra à Santa recupera passagens nas quais Carvalho associa a devoção mariana a uma suposta entidade pagã, descrita como braço direito de Satanás.

O vínculo político e religioso ganha relevância porque Flávio Bolsonaro escolheu a Comunidade das Nações, igreja liderada por JB Carvalho, para realizar seu batismo evangélico em janeiro de 2024.

O batismo é um fato documentado, assim como as manifestações religiosas atribuídas ao pastor. Isso não significa que Flávio tenha feito as mesmas declarações ou que compartilhe necessariamente de todas as posições teológicas de Carvalho.

A proximidade, entretanto, tornou-se objeto de questionamentos públicos justamente porque o candidato agora busca ampliar sua presença em espaços católicos.

Projeto de 2007 propôs retirar o título de Padroeira do Brasil

Outra controvérsia tem origem no Congresso Nacional.

Em dezembro de 2007, o então deputado federal Professor Victório Galli, à época filiado ao PMDB de Mato Grosso, apresentou o Projeto de Lei 2.623/2007.

O texto pretendia alterar a Lei 6.802/1980, responsável por instituir o feriado nacional de 12 de outubro, substituindo a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.

A justificativa apresentada por Galli era a de que o caráter laico do Estado brasileiro impediria o reconhecimento oficial de uma padroeira vinculada a uma religião específica.

A proposta foi rejeitada e arquivada em agosto de 2008.

Anos depois, Victório Galli aproximou-se do bolsonarismo e chegou a ocupar um cargo de assessor especial durante o governo de Jair Bolsonaro.

O projeto, portanto, existiu e foi apresentado por um político que posteriormente integrou o entorno do ex-presidente. Mas não foi de autoria de Flávio Bolsonaro, e não há comprovação de que o senador pretenda retomar a iniciativa.

Essa distinção é indispensável para compreender a controvérsia sem confundir relações políticas posteriores com responsabilidade direta por uma proposta legislativa anterior.

Declaração de Flávio durante a campanha reacende o debate

Em agosto de 2026, Flávio Bolsonaro afirmou que, caso fosse eleito presidente, um de seus primeiros atos seria decretar que o Brasil pertence a Jesus Cristo.

 

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A declaração, feita durante uma manifestação pública sobre sua ausência em um debate presidencial, provocou questionamentos sobre a relação entre religião e Estado.

Embora a frase possa ser interpretada por seus apoiadores como uma manifestação pessoal de fé, representantes católicos e estudiosos da relação entre política e religião levantaram preocupações sobre seu significado institucional.

A Constituição brasileira assegura a liberdade religiosa e estabelece que o poder público não pode instituir cultos ou igrejas oficiais.

Para setores críticos à declaração, a preocupação não se limita à crença pessoal do candidato, mas à possibilidade de transformar uma orientação religiosa particular em referência para o funcionamento do Estado.

A discussão ganhou ainda mais intensidade diante do histórico de ataques a símbolos católicos e das relações do bolsonarismo com lideranças evangélicas conservadoras.

Polêmica explode na reta final do primeiro turno

Em setembro, a antiga proposta de Victório Galli voltou a circular nas redes sociais, agora associada à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.

Publicações passaram a afirmar que o senador pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

A afirmação não encontrou respaldo em propostas apresentadas pelo candidato.

Flávio negou qualquer intenção de modificar o reconhecimento da santa e classificou a acusação como uma das principais notícias falsas da campanha.

O episódio ganhou repercussão após comentários no programa Pulso Político, do canal Uol, sobre preocupações de grupos católicos diante de movimentos religiosos e políticos. A emissora posteriormente esclareceu que o projeto mencionado era antigo, estava arquivado e não havia sido apresentado pelo candidato.

A controvérsia, contudo, não se encerrou com o esclarecimento sobre a autoria do projeto.

Ela também expôs discussões anteriores sobre intolerância religiosa, laicidade do Estado e a influência de lideranças evangélicas sobre a política nacional.

Flávio acusa a CNBB e disputa chega à Justiça

Durante a repercussão do caso, Flávio Bolsonaro acusou setores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de envolvimento na disseminação de conteúdos falsos sobre sua candidatura.

A CNBB rejeitou as acusações.

Em nota oficial, a entidade afirmou que não produziu, autorizou ou participou da divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral e que não integra estruturas partidárias.

A campanha do senador também recorreu à Justiça Eleitoral.

O ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou a remoção de publicações que associavam Flávio à suposta intenção de retirar o título de Nossa Senhora Aparecida.

Uma dessas decisões foi posteriormente suspensa pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, após questionamento apresentado pelo humorista Antonio Tabet.

O caso produziu decisões judiciais divergentes e reacendeu o debate sobre os limites da liberdade de expressão em períodos eleitorais.

De um lado, a campanha sustentou que precisava combater a divulgação de informações falsas. De outro, manifestações críticas questionaram se as determinações de remoção também poderiam atingir opiniões políticas legítimas.

A disputa jurídica se somou às tensões entre o candidato e setores da Igreja Católica.

Às vésperas do segundo turno, Flávio participa de missa católica

Foi nesse ambiente que Flávio Bolsonaro compareceu, nesta segunda-feira (12), à missa em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, na Catedral Metropolitana de Brasília.

O senador esteve acompanhado da esposa, Fernanda Bolsonaro, do candidato a vice-presidente, Alfredo Gaspar, e de Daniella Marques, integrante da coordenação econômica de sua campanha.

A deputada Simone Marquetto (PP-SP), também presente, participou da cerimônia conduzindo uma imagem da Padroeira.

A participação do candidato evangélico em uma missa católica, isoladamente, não constitui uma contradição religiosa. O contexto eleitoral, entretanto, confere outro significado político ao gesto.

Depois de semanas de controvérsias sobre Nossa Senhora Aparecida, acusações contra a CNBB e disputas judiciais envolvendo o tema, Flávio apareceu em uma celebração dedicada justamente à santa que esteve no centro desses embates.

A presença também ocorreu em um momento no qual o candidato procura ampliar sua interlocução com os católicos, eleitorado relevante na disputa presidencial.

É nesse contraste que surge a crítica ao oportunismo eleitoral. A participação em uma celebração religiosa pode ser legítima, mas sua utilização como demonstração pública de proximidade com uma comunidade de fiéis, às vésperas de uma eleição, também está sujeita ao escrutínio político.

Daniella Marques vira alvo de ironias nas redes sociais

Um vídeo divulgado pelo Pragmatismo Político mostra Daniella Marques durante a celebração e provocou reações de internautas.

A integrante da equipe econômica de Flávio foi alvo de comentários que interpretaram seus gestos diante das câmeras como uma demonstração de religiosidade pouco espontânea.

A usuária @fernandakogin ironizou a cena, afirmando que os participantes pareciam não saber como se comportar no catolicismo.

Já @sandralira.13 fez uma referência crítica ao histórico de ataques a imagens católicas, enquanto @spdrio questionou a relação entre as manifestações públicas de fé e o respeito às crenças religiosas.

Os comentários expressam percepções individuais dos usuários. Não é possível determinar, apenas pelas imagens, se os gestos de Daniella foram espontâneos ou encenados.

A repercussão, contudo, ilustra a desconfiança despertada pela presença de integrantes de uma campanha identificada com setores evangélicos conservadores em uma cerimônia católica, depois de semanas de confrontos públicos envolvendo a Padroeira.

Juliette resgata ataques à santa em documentário

Também nesta segunda-feira, a cantora Juliette Freire apresentou A Guerra à Santa, episódio da série jornalística Revelando.

A produção investiga manifestações de hostilidade à devoção a Nossa Senhora Aparecida e examina a presença de discursos religiosos intolerantes no debate político.

Um dos principais pontos abordados é a relação entre Flávio Bolsonaro e JB Carvalho.

O documentário recupera declarações do bispo contrárias à veneração católica e destaca que o senador escolheu a igreja do religioso para seu batismo.

Juliette questiona por que uma figura tão associada à religiosidade popular brasileira se tornou alvo de manifestações de hostilidade.

A produção também recupera episódios históricos de violência contra imagens da santa e o debate sobre a utilização da religião como instrumento de poder político.

Ao relacionar acontecimentos separados por décadas, o documentário procura demonstrar que a atual controvérsia eleitoral não surgiu isoladamente, mas está inserida em uma história mais longa de conflitos entre diferentes interpretações do cristianismo.

Grupos católicos manifestam oposição à candidatura

As tensões entre a campanha de Flávio Bolsonaro e setores da Igreja Católica também se refletiram nas manifestações públicas do Dia de Nossa Senhora Aparecida, celebrado nesta segunda-feira (12). Grupos católicos exibiram faixas contrárias à candidatura do senador, em meio às controvérsias que marcaram o período eleitoral, envolvendo ataques à devoção mariana, acusações contra a CNBB e disputas judiciais sobre publicações relacionadas à Padroeira do Brasil.

As manifestações, registradas em vídeo, evidenciam a insatisfação de parte dos fiéis com o candidato, justamente no momento em que Flávio procura se aproximar do eleitorado católico. O contraste chama atenção porque, após semanas de embates envolvendo símbolos e instituições da Igreja, o presidenciável evangélico compareceu a uma missa acompanhado de familiares e integrantes de sua equipe de campanha, a menos de duas semanas do segundo turno.

As manifestações não representam, necessariamente, o posicionamento institucional da Igreja Católica ou da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A entidade tem defendido o voto consciente, a democracia, o respeito à diversidade e a responsabilidade dos fiéis diante das questões sociais, sem declarar apoio oficial a qualquer candidatura presidencial. A distinção é importante porque a Igreja Católica reúne diferentes correntes políticas e não constitui um bloco eleitoral homogêneo.

Arcebispo de Aparecida condena o ódio

Na celebração do Dia da Padroeira, o arcebispo de Aparecida, dom Mário Antônio da Silva, fez um apelo contra o ódio, os preconceitos e as divisões.

Em sua homilia, defendeu uma paz desarmada e desarmante e lembrou que os ensinamentos cristãos não autorizam a perseguição de pessoas que pensam de maneira diferente.

O religioso também ressaltou a importância de construir pontes, promover o diálogo e enfrentar a indiferença diante da fome, da pobreza, da violência e do sofrimento humano.

Dom Mário não mencionou diretamente Flávio Bolsonaro, Lula ou a controvérsia envolvendo a Padroeira.

Sua mensagem, entretanto, foi apresentada em um momento no qual a religião ocupa espaço central no debate eleitoral e manifestações de intolerância voltaram a ganhar visibilidade.

A homilia também recuperou uma dimensão importante da tradição católica, especialmente de sua doutrina social, ao relacionar a fé à responsabilidade diante das desigualdades e da vulnerabilidade humana.

Entre a devoção religiosa e a disputa por votos

A presença de Flávio Bolsonaro na missa do Dia de Nossa Senhora Aparecida encerra uma sequência de acontecimentos que atravessou a campanha presidencial.

Há um histórico documentado de ataques à devoção mariana. Há declarações de lideranças religiosas próximas ao senador que questionaram o reconhecimento da Padroeira. Houve um projeto de lei, apresentado por um político que posteriormente se tornou aliado do bolsonarismo, para alterar a denominação oficial de Nossa Senhora Aparecida.

Também houve uma acusação não comprovada de que o próprio Flávio pretendia retomar essa proposta, seguida de uma disputa judicial e de confrontos públicos com a CNBB.

Agora, às vésperas do segundo turno, o candidato evangélico participa de uma missa católica acompanhado de integrantes de sua campanha.

A aproximação pode ser apresentada por seus aliados como um gesto de respeito religioso. Para os críticos, porém, a sequência dos acontecimentos suscita questionamentos sobre o uso eleitoral de símbolos católicos após semanas de embates envolvendo a própria fé que esses símbolos representam.

O contraste ganha ainda mais relevância diante da mensagem apresentada pelo arcebispo de Aparecida. Em uma sociedade marcada pela diversidade religiosa, a convivência entre diferentes crenças exige mais do que gestos públicos de aproximação. Exige também respeito às tradições, aos símbolos e à liberdade religiosa de todos os brasileiros.

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