Trio de “Ainda Estou Aqui” não assina carta do cinema contra extrema-direita

Walter Salles, Fernanda Torres e Selton Mello, de “Ainda Estou Aqui”

Wagner Moura, Fernando Meirelles, Petra Costa, Kleber Mendonça Filho e outros profissionais brasileiros do cinema assinaram uma carta aberta pedindo “atenção internacional rigorosa” para o segundo turno da eleição presidencial. Os três nomes principais de “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar de melhor filme internacional em 2025, ficaram de fora: o diretor Walter Salles e os atores Fernanda Torres e Selton Mello. Até agora, não há explicação pública conhecida.

A ausência chama atenção porque trata-se de artistas com posições de esquerda notórias. Fernanda já havia enfrentado a reação da extrema-direita após protagonizar uma campanha das Havaianas no fim de 2025. No comercial, ela dizia que não queria que ninguém começasse 2026 “com o pé direito”, mas “com os dois pés”. Bolsonaristas interpretaram a frase como provocação contra a direita e defenderam boicote à marca.

Ela também participou de um ato no Rio de Janeiro contra o PL da Dosimetria, proposta criticada por manifestantes por beneficiar Jair Bolsonaro. “Nós ainda estamos aqui pelas florestas brasileiras, pelos direitos da mulher, pela democracia”, afirmou a atriz durante a manifestação.

Walter Salles, por sua vez, afirmou em fevereiro de 2025 que “Ainda Estou Aqui” não poderia ter sido realizado durante o governo Bolsonaro, período em que, segundo ele, o país havia se voltado para a extrema-direita. O diretor declarou que o filme foi possível graças ao retorno da democracia e à volta de Lula à Presidência.

A carta agora assinada por Moura e outros artistas aponta preocupações com possíveis interferências estrangeiras, suspeitas de pagamentos a eleitores e propostas de Flávio Bolsonaro, incluindo a promessa de reescrever a Constituição de 1988 e conceder anistia ao pai como primeiro ato de governo. Os signatários também criticam o que consideram uma normalização, pela mídia tradicional, das acusações contra a família Bolsonaro.

“Testemunhamos sinais preocupantes de desrespeito às normas democráticas, incluindo alegações de possível interferência estrangeira no Brasil que exigem investigação transparente e escrutínio internacional”, afirma o documento.

Entre os episódios mencionados está uma reportagem do jornal britânico The Guardian segundo a qual o governo dos Estados Unidos destinou cerca de US$ 1 milhão, por meio de um fundo de direitos humanos do Departamento de Estado, a um programa chamado “Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil”.

Sônia Braga, Anna Muylaert, diretora de “Que Horas Ela Volta?”, Gabriel Mascaro e Karim Aïnouz também são signatários.  Selton Mello foi cobrado pelo ator José de Abreu nas redes. Abreu questionou como alguém que protagonizou um filme sobre a ditadura militar poderia permanecer em silêncio diante do que ele classificou como avanço do fascismo.

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