
Por Leonardo Sakamoto no UOL
Há pelo menos quatro eleições presidenciais, uma parcela dos brasileiros nas redes sociais parece acreditar que o Nordeste comete um crime a cada quatro anos: votar em um candidato de quem ela não gosta. Desde 2014, quando Dilma Rousseff derrotou Aécio Neves, a região vira o saco de pancadas de quem considera legítimo apenas a escolha que coincide com a sua. E dá-lhe ódio!
Mudam os candidatos, permanece a estupidez. Levantamento da Ativaweb DataLab, divulgado por Carlos Madeiro, no UOL, identificou 27 milhões de menções hostis ou críticas ao voto nordestino nas primeiras 72 horas após o primeiro turno deste ano. Foram 82,2% das 32,8 milhões de manifestações analisadas.
Em parte dessas publicações, nordestinos são tratados como ignorantes, vendidos, dependentes de benefícios sociais ou incapazes de pensar. Segundo o estudo, 18,3% das manifestações examinadas recorriam à inferioridade intelectual, 22,1% associavam o voto à pobreza e à dependência e 12,5% empregavam expressões de desumanização.
Isso não é análise política, mas preconceito regional fantasiado de indignação eleitoral. E, quando há incitação à discriminação por origem, pode ser crime.
Os fatos pouco importam para os criminosos. Em 2022, a região metropolitana de São Paulo foi fundamental para a vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro. Aliás, no primeiro turno de 2026, a capital paulista deu 3.052.349 votos ao petista, contra 2.760.747 a Flávio Bolsonaro.
Mas ninguém organiza campanhas de ódio contra os paulistanos por isso. Quando São Paulo vota no PT, é resultado de uma complexa conjuntura política, mas quando o Nordeste faz o mesmo, vira prova de ignorância. Essa diferença de tratamento tem nome e não é divergência ideológica.

O preconceituoso não quer compreender por que alguém vota diferente. Quer se sentir superior a quem discorda dele. Para isso, transforma milhões de cidadãos em caricaturas e reduz suas escolhas a uma suposta deficiência intelectual. Sim, é curioso como pessoas que se apresentam como defensoras da liberdade ficam tão incomodadas quando outras pessoas exercem a sua.
Discordar de um voto é parte da democracia. Criticar um candidato, seu programa e seus eleitores também é legítimo. Mas tratar a escolha alheia como estupidez de uma parcela da população que vivem em uma região, dispensando qualquer esforço para compreender suas razões, é violência política. E transformar essa arrogância em discriminação ultrapassa os limites constitucionais e entra no terreno criminal.
Ultrapassa, por enquanto, claro. Porque com os avisos de que, em 2027, podemos ter reformas constitucionais amplas, isso aí pode cair também.
O Nordeste não é propriedade do PT e seus quase 60 milhões de habitantes têm opiniões diferentes, votam em candidatos de esquerda e de direita e não devem satisfações a quem acredita possuir o monopólio da inteligência.
No fundo, o ódio ao voto nordestino revela algo mais grave do que intolerância eleitoral: revela o tipo de país que determinados grupos políticos gostariam de construir. O problema nunca foi o Nordeste decidir uma eleição, mas a incapacidade de parte dos brasileiros de aceitar que o voto de uma trabalhadora do sertão, do agreste, da zona da mata valer exatamente o mesmo que o de um milionário da avenida Faria Lima.
O Nordeste não precisa aprender a votar, quem destila ódio contra ele é que precisa aprender a viver em uma democracia. Não à toa tanta gente sonha com o dia em que ela seja morta e enterrada.