“A culpa não é da mídia”: Malu Gaspar tenta lavar as mãos do golpe anunciado de Flávio Bolsonaro

Malu Gaspar e Flávio Bolsonaro. Foto: Reprodução

Malu Gaspar publicou nesta quinta-feira (8), no Globo, um artigo em que responsabiliza Lula pelo avanço de Flávio Bolsonaro e rejeita qualquer responsabilidade da imprensa pela ascensão da extrema direita.

É uma tentativa conveniente de tirar o próprio corpo de uma tragédia anunciada. A chamada razão cínica, na definição do alemão Peter Sloterdijk.

A jornalista publicou vazamentos seletivos que ajudaram a deslocar o foco das denúncias envolvendo Flávio, Daniel Vorcaro e a operação “Dark Horse” para Lulinha e Alexandre de Moraes. Sua cobertura obsessiva alimentou uma ofensiva contra o Supremo Tribunal Federal, transformada em plataforma eleitoral por candidatos ao Senado que fizeram do impeachment de Moraes sua principal bandeira.

Não vão parar em Moraes, evidentemente. Um sujeito eleito pelo Maranhão já fala em se vingar de Flávio Dino.

Agora, diante da possibilidade de um governo comandado pelo filho de um golpista condenado, Malu pretende convencer o público de que a imprensa não teve participação alguma nesse processo. Cobra autocrítica de Lula, mas se recusa a examinar as consequências de suas próprias escolhas.

Isso não significa que jornalistas devam esconder denúncias contra ministros do STF. Significa perguntar por que determinadas suspeitas receberam tamanho destaque enquanto as conexões e os crimes de Flávio Bolsonaro não tiveram a mesma centralidade. Ela sabe o que fez.

Malu afirma que culpar a imprensa equivale a chamar o eleitor de burro. É exatamente o contrário. Questionar o papel da mídia hereditária (apud Xico Sá) significa reconhecer que a seleção de notícias, a repetição de acusações e a definição de prioridades editoriais influenciam o debate público.

A jornalista também deveria explicar se pretende dedicar às relações de Luciano Huck com Vorcaro o mesmo empenho investigativo reservado a Moraes.

Lula e o PT cometeram erros e devem responder por eles. Mas isso não absolve uma imprensa comprometida com a limpeza de imagem de bandidos que viram presidentes.

Quem trata o público como burro é Malu Gaspar. Autocrítica é bom. Mas precisa ser adulto e responsável.

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