Carta aberta ao eleitor de centro, ao eleitor de direita e a quem cansou de votar, por Dora Nassif

Carta aberta ao eleitor de centro, ao eleitor de direita e a quem cansou de votar, por Dora Nassif

Você não precisa concordar com Lula. Precisa apenas pensar na democracia

Prezado eleitor, prezada eleitora,

Esta carta não é um pedido para que você mude de lado. Eu sou de esquerda. Você talvez não seja, e está tudo bem. Ser de direita ou de centro é legítimo. São ideologias diferentes, com visões sociais e econômicas diferentes, e todas cabem numa democracia. Eu sei que você talvez não seja alguém que votaria em Lula. Você pode discordar da forma como ele conduz a economia, pode ter críticas sérias à responsabilidade fiscal do governo, pode nunca ter votado no PT. Não estou pedindo que concorde com as ideias dele.

Estou pedindo que pense na democracia. Porque quatro anos de Flávio Bolsonaro no poder não dá.

O que Flávio representa, na minha opinião, não é a direita nem a esquerda. Ele representa tudo aquilo que uma democracia não deveria representar. Representa a destruição do nosso país. Não representa o povo. Não representa você. E não representa a mim.

Muita gente diz que isso é exagero. Que ninguém vai destruir o Brasil, que as instituições aguentam, que é tudo discurso de campanha. Não é exagero. Procure as propostas dele. Leia o plano de governo. Ouça o que ele diz em cima do palanque.

Flávio afirmou que quer formar no Congresso uma maioria com quórum suficiente para mudar a Constituição e fazer com que “as instituições voltem a atuar dentro de seus limites”. Seu plano de governo propõe reformar o Supremo Tribunal Federal, limitar suas decisões e retirar da Corte as competências criminais, justamente o tribunal que condenou seu pai por tentativa de golpe de Estado. Ele já disse que receberá a faixa presidencial das mãos desse mesmo pai. E o Congresso de que precisa acaba de ser eleito: a partir de 2027, quase 60% do Senado será bolsonarista. Presidente, Congresso e um Supremo enfraquecido, todos alinhados ao mesmo grupo. O que sobra da separação de Poderes, que já anda bem fragilizada?

Olhe para quem fica pelo caminho. Ao defender a mudança da Constituição, Flávio citou a demarcação de terras indígenas entre os temas que, segundo ele, geram insegurança jurídica, e seu plano promete flexibilizar o licenciamento ambiental e acelerar a concessão de direitos minerários. Para os povos indígenas, isso não é debate econômico. É território, é sobrevivência. Para as mulheres, o sinal também é claro: a líder do PL na Assembleia Legislativa do Ceará rasgou em plenário o Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio e disse que as mortes acontecem porque as pessoas não seguem o evangelho. Num país em que mulheres são assassinadas todos os dias por serem mulheres, isso não é opinião religiosa. É abandono.

Pense também na soberania. Em 2025, enquanto o Brasil era alvo de tarifas e de sanções impostas pelo governo dos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, se mudou para lá e fez campanha em Washington por punições contra autoridades brasileiras. Uma família que pede a um governo estrangeiro que pressione o próprio país não pode ser a guardiã da nossa soberania.

E olhe para o que ele diz sobre os temas que mexem com a sua vida. Questionado mais de uma vez sobre o fim da escala 6×1, uma proposta popular entre trabalhadores de todas as ideologias, Flávio fugiu da resposta e preferiu defender um modelo de pagamento por hora trabalhada. Sobre as bets, que têm endividado tantas famílias, chamou a proibição de “hipócrita e eleitoreira” e defendeu manter as apostas esportivas, embora elas tenham funcionado livremente durante todo o governo do pai. Quem diz defender a família não pode tratar o vício em apostas como detalhe.

Lula pode ter todos os defeitos que você enxerga nele. Pode ter, para você, todas as irresponsabilidades econômicas que existirem. Mas Lula acredita na democracia. E nós precisamos de uma democracia. Se você quer um Brasil próspero e acha que Lula não vai conseguir, tudo bem. Daqui a quatro anos haverá outra eleição, e quem vier depois pode ser que consiga. Agora pergunte a si mesmo: com Flávio Bolsonaro e a família Bolsonaro no poder, uma família que já tentou um golpe de Estado, qual será a nossa perspectiva daqui a quatro anos? Teremos um país em condições de progredir? Uma democracia de verdade? Um país com programas sociais? Ou um país em que os direitos sociais foram retirados, um a um, por um Congresso alinhado e com o apoio do presidente?

Sei que muita gente que lê esta carta está cansada. Cansada da polarização, de ter que escolher sempre entre os mesmos dois lados, de ver a política nunca se renovar. Para muita gente, é tudo a mesma coisa, e a vontade é só viver a vida sem pensar nisso. Eu entendo. Eu também estou cansada de uma política que não se renova. E culpo, sim, em parte, o PT por isso. Culpo parte da esquerda, que demorou a formar novas lideranças e muitas vezes preferiu falar sozinha. Culpo, sobretudo, o nosso sistema político como um todo: complicado, distante e, em muitos pontos, institucionalmente corrupto.

Mas não votar também é uma escolha, e ela tem consequência. No primeiro turno, mais de 33 milhões de pessoas ficaram em casa, e Flávio terminou na frente por cerca de 2,3 milhões de votos. A abstenção, desta vez, não é neutra. Ela favorece um candidato que pode levar o país a um caminho de onde é muito difícil voltar.

Então eu não peço que você vire de esquerda. Peço que, no dia 25 de outubro, você vote pensando na democracia. Vote para que, daqui a quatro anos, você possa continuar votando, criticando, fazendo oposição e escolhendo livremente. Você pode votar em Lula e começar a cobrá-lo no dia seguinte. Eu mesma vou cobrar.

Discordamos em muita coisa. Mas a democracia é justamente o lugar onde podemos continuar discordando. Vamos protegê-la juntos.

Com respeito,

Dora Nassif

Advogada, Mestra em Direitos Humanos e Doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilla.

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