
Por Fernanda Alcântara
Da Página do MST
A Jornada Nacional das Crianças Sem Terrinha deste ano tem como eixo os 30 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás. Em 17 de abril de 1996, famílias Sem Terra marchavam e bloquearam a rodovia PA-150, no sul do Pará. Na Curva do S, as famílias ficaram cercadas, com tiros e bombas de gás dos dois lados da pista. O saldo foram 19 trabalhadores rurais Sem Terra assassinados no local, dois mortos no hospital e cerca de 69 mutilados. Os julgamentos que se seguiram não produziram justiça, e a impunidade segue como marca do caso. Por isso o MST insiste em levar essa história para dentro das escolas.
Para Daiane Santos, do Setor de Educação do MST, lembrar Eldorado é conhecer a história dos territórios onde as crianças vivem e estudam. “A memória dos 30 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás nos ensina que a luta pela terra também é uma luta pelo direito de viver, de crescer e de construir um futuro com dignidade. Essa memória não é apenas lembrança de um acontecimento do passado, ela faz parte da história dos territórios onde vivem, estudam e constroem sua identidade”. Em entrevista (confira abaixo), Daiane levanta que cultivar a memória é cultivar a luta, a identidade e os valores da classe trabalhadora, e por isso se torna tão importante pautar entre as crianças este acontecimento.

Não esquecer os mártires da luta pela terra é ensinar às novas gerações que a história dos povos trabalhadores e trabalhadoras também é história de resistência, organização e esperança”
A proposta metodológica parte do território, quando as escolas são convidadas a pesquisar a história do acampamento ou assentamento, com perguntas quando foi a ocupação, quantas famílias participaram, se houve despejos e violência, como a terra foi conquistada. Os mais velhos são chamados a contar, e a escola pode montar acampamentos pedagógicos, túneis do tempo, saraus e maquetes do Monumento das Castanheiras, erguido na Curva do S.
Uma das ações de nível nacional contará ainda com plantio de árvores em memória de Eldorado, com mudas e bosques podem receber placas com os nomes dos mártires. O plantio integra o Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis, que prevê plantar 100 milhões de árvores em dez anos. A coleta de sementes, a produção de mudas e o cuidado com o que foi plantado são, segundo o Movimento, atividades educativas com intencionalidade pedagógica que permitem confrontar o modelo do agronegócio, da mineração e do hidronegócio, que desmata e destrói. Ao debater a Amazônia, as crianças aprendem o projeto defendido pelo MST, de floresta em pé e povo vivo.

A palavra de ordem da Jornada reforça o tom: “Sem Terrinha em ação! Brincadeira e esperança! Eldorado é memória: Sem Terrinha faz história!“. As ações são locais, com estudo, celebração, agitação e propaganda. Onde for possível, seguem a luta por direitos, por escolas e contra o fechamento das existentes.
Solidariedade internacionalista e democracia ameaçada
O internacionalismo é outra dimensão da Jornada. Em 2026, o destaque é a solidariedade a Cuba, com cartas, desenhos e vídeos em defesa da soberania cubana e em celebração ao centenário de Fidel Castro. Para o Movimento, a atividade ensina desde cedo a importância da autodeterminação dos povos.
Daiane Santos afirma que a solidariedade é também uma prática pedagógica, porque permite às crianças reconhecerem que, em diferentes partes do mundo, povos enfrentam desafios, resistem e constroem formas coletivas de organização. “Ao olhar para as crianças palestinas e para a experiência de Cuba, os Sem Terrinha fortalecem a compreensão de que defender a vida, a educação e os direitos de todas as crianças é também defender os direitos e construir uma cultura de solidariedade entre os povos”.

Outro ponto importante que será trabalhado é o fato de que outubro traz, além da Jornada, o processo eleitoral, e pede que setores e coletivos antecipem o planejamento para garantir a participação de crianças e famílias. Para Daiane, o contexto exige diálogo franco com a infância.
Nesse contexto em que estamos vivendo, em que um candidato de extrema-direita está concorrendo às eleições com chances de chegar à presidência, é muito importante dialogar com as crianças sobre esses riscos. Em momentos de crise e de perdas de direitos, a infância é quem mais sofre as consequências“.
Neste sentido, Daiane lembra que desde muito novas as crianças Sem Terrinha exercitam o direito de participação em defesa da democracia e de um projeto de país soberano, além de também lutarem e construírem reforma agrária popular. E este tema conecta a pauta infantil à disputa política concreta: escola, transporte, saúde, água potável e estradas dependem de políticas públicas e de decisões do Estado. Dependem, portanto, de quem governa.

A discussão sobre soberania popular também atravessa toda a Jornada. Segundo Daiane, falar em soberania popular é falar do direito das comunidades de participar das decisões sobre seus territórios e sobre os bens da natureza. “Para os Sem Terrinha, essa discussão faz parte da formação de uma consciência de que a terra, a água, as sementes e a natureza são patrimônios fundamentais para a vida e não podem ser pensados apenas a partir da lógica do lucro. Portanto, nosso Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
Na prática, as crianças discutem quem produz os alimentos, como a terra é usada e que impactos o agronegócio causa na água, no clima e na vida das comunidades. São debates estruturais tratados na linguagem da infância, a partir do que elas vivem nos territórios.
Hoje, segundo o Movimento, são mais de 2 mil escolas públicas construídas em acampamentos e assentamentos. As crianças são sujeitos do presente, e não apenas “o futuro” da Reforma Agrária Popular. Isso exige que o Movimento escute de fato as suas vozes e garanta que a representação da infância seja prática real de decisão.
O desafio, segundo o Setor de Educação, é transformar visibilidade em conquista concreta: assentamento das famílias, escolas abertas e estruturadas, transporte, saúde, estradas, proteção ambiental e fim da violência no campo. A ludicidade, na metodologia da Jornada, não é intervalo da política. Desenhar o território, plantar uma muda ou conduzir uma assembleia é forma de interpretar a realidade e formular posições.

Confira a entrevista completa de Daiane Santos sobre esta Jornada Sem Terrinha:
Passados 30 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, o que a memória da impunidade revela sobre a infância Sem Terra nos territórios de resistência?
A impunidade diante da violência contra os trabalhadores e trabalhadoras do campo revela que ainda existem profundas desigualdades no acesso à justiça e à proteção dos direitos humanos. Por isso, manter viva a memória de Eldorado dos Carajás é também um ato educativo e político, é ensinar às novas gerações que a história dos povos do campo deve ser conhecida, contada e transformada.
Durante a Jornada Nacional das crianças Sem Terrinha nos territórios de resistência, as crianças aprendem que memória é também semente. Ao conhecerem a história de seus companheiros e companheiras, os Sem Terrinha fortalecem sua identidade, sua formação de organização e o compromisso com uma sociedade em que nenhuma criança precise crescer sob a ameaça da violência, da expulsão ou da negação de seus direitos. Ao mesmo tempo, a memória é uma ferramenta pedagógica e política.
De que forma a solidariedade internacionalista às crianças palestinas e a Cuba dialoga com a luta das crianças Sem Terrinha por direitos?
A solidariedade internacionalista parte de um princípio muito presente na formação do MST, nenhum povo luta sozinho. Ao conhecerem a realidade das crianças palestinas e a experiência do povo cubano, especialmente no marco dos 100 anos do nascimento de Fidel Castro, as crianças Sem Terrinha compreendem que a luta pelos direitos da infância, pela educação, pela saúde, pela soberania e pela dignidade humana ultrapassa as fronteiras.

Como a defesa da democracia e dos direitos humanos se relaciona com o contexto do segundo turno das eleições presidenciais?
No contexto de um segundo turno presidencial, essa reflexão ganha importância porque as escolhas políticas podem ter consequências sobre as políticas públicas, os direitos sociais, a educação, a Reforma Agrária Popular, a agricultura familiar, meio ambiente, os povos do campo e a proteção das crianças e adolescentes. A democracia, portanto, não se reduz ao voto, ela também se constrói cotidianamente nos espaços de participação popular, nas escolas, nas comunidades, nos assentamentos e acampamentos e na luta permanente pela garantia dos direitos humanos.
A defesa da democracia e dos direitos humanos, no contexto do segundo turno das eleições presidenciais, tem relação direta com a vida e o futuro das crianças, porque as decisões políticas impactam concretamente o acesso à educação, à saúde, à alimentação, à proteção social, à cultura e ao direito de viver com dignidade.”
Para as crianças Sem Terrinha, defender a democracia significa garantir que possam crescer em territórios onde seus direitos sejam respeitados, onde tenham escola, alimentação saudável, espaço para brincar, participar e aprender, e onde suas famílias possam viver e produzir com dignidade. Por isso, o processo eleitoral também é um momento de refletir sobre quais projetos de sociedade contribuem para assegurar às novas gerações não apenas o direito de existir, mas o direito de sonhar, participar e construir um futuro com justiça social e respeito aos direitos humanos.
Qual o papel da educação do campo e da campanha de não fechar escolas na formação do sujeito Sem Terrinha e na construção de sua identidade.
A escola do campo é parte fundamental da vida e da organização das comunidades. Quando uma escola é fechada, não se perde apenas um prédio, enfraquece-se um espaço de convivência, de produção de conhecimento, de cultura e de organização comunitária.
Para os Sem Terrinha, isso contribui para que a escola seja um espaço onde possam reconhecer sua própria história e compreender que ser criança do campo não significa ter menos direitos. A campanha contra o fechamento das escolas do campo, portanto, é também uma luta pelo direito à educação e pelo direito de permanecer no território. É defender uma escola que dialogue com a vida da comunidade e que contribua para formar sujeitos capazes de interpretar a realidade, atuar coletivamente e transformar aquilo que precisa ser transformado é parte fundamental da construção da identidade Sem Terrinha, porque reconhece que a escola não pode estar desligada da vida, do trabalho, da cultura e das lutas dos povos do campo. Educação do Campo: Direito nosso, dever do estado e compromisso da comunidade!

Como a ofensiva do capital e o modelo mineral-exportador impactam a soberania popular e o futuro das crianças do campo?
A expansão de grandes projetos econômicos sobre os territórios do campo pode provocar mudanças profundas na vida das comunidades. Quando a terra, a água e os bens da natureza passam a ser tratados prioritariamente como mercadorias, entram em disputa diferentes projetos de sociedade, de um lado, aqueles baseados na exploração e na concentração dos recursos; de outro, os projetos que defendem a produção de alimentos, a preservação da natureza, a vida comunitária e a soberania dos povos.
O modelo mineral-exportador pode gerar impactos sociais e ambientais nos territórios, atingindo as condições de vida das famílias, a qualidade da água, a produção de alimentos e as possibilidades de permanência das comunidades no campo. Para as crianças, essas transformações significam também impactos sobre seu presente e sobre o futuro que estão construindo.
Construir a jornada Nacional das Crianças Sem Terrinha, é também renovar a mística da infância Sem Terra e reafirmar a luta pelos direitos das crianças, fortalecendo sua participação na vida do Movimento e nos processos de organização, formação cultura e luta.
Sem Terrinha em Ação: Da Semente de Eldorado, Sem Terrinha faz história!
Sem Terrinha em Ação:
Brincadeira e esperança!
Eldorado é memória:
Sem Terrinha faz história!
Editado por: Vítor Peruch