
O Nordeste pode voltar a ser decisivo para impedir uma vitória do bolsonarismo na eleição presidencial. Com 8 milhões de eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno, a região concentra uma das principais possibilidades de recuperação do presidente Lula (PT), que chega à disputa final com 45,16% dos votos válidos, contra 47,03% de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Com informações da Folha de S.Paulo.
A distância de 1,87 ponto percentual entre os candidatos é a menor registrada em um primeiro turno desde a redemocratização. Nesse cenário apertado, mobilizar quem ficou em casa pode fazer a diferença. Para Lula, o desafio é transformar a força eleitoral que mantém no Nordeste em maior comparecimento na votação decisiva.
A abstenção nacional chegou a 33,4 milhões de pessoas, um recorde. Os 8 milhões de ausentes no Nordeste representam um contingente expressivo, mas não podem ser contabilizados automaticamente como votos petistas. A possibilidade de virada depende de convencer esses eleitores a votar e conquistar seu apoio.
No dia seguinte ao primeiro turno, Lula cobrou uma estratégia voltada a esse público. “Tem uma coisa que nós temos que trabalhar: são 30 milhões de pessoas que não foram votar. O que aconteceu com essas pessoas? Eles perderam o sentido de responsabilidade? Eles não foram convencidos? Eles não gostam dos candidatos?”, questionou.

O caminho passa por levar os ausentes às urnas
A Bahia registrou 2,2 milhões de ausentes, o equivalente a 19,97% do eleitorado. Em Pernambuco, foram 1,3 milhão, ou 18,17%. Ceará e Maranhão também ultrapassaram 1 milhão de faltantes cada. São números que mostram o espaço para mobilização em estados onde Lula mantém bases históricas.
O cientista político Antônio Lavareda avaliou que a abstenção elevada pode prejudicar o presidente porque atinge com mais força eleitores de menor renda e escolaridade. Recuperar parte desse eleitorado exige entender as razões da ausência e enfrentar os obstáculos ao comparecimento.
Apoiadores de Lula criaram a ferramenta “Onde dá para conversar”, que mapeia seções eleitorais com base nas ausências e nos votos destinados aos candidatos eliminados. A iniciativa busca localizar áreas com potencial para ampliar o apoio ao presidente no segundo turno.
O Nordeste, porém, é uma parte da estratégia. Flávio venceu nos três maiores colégios eleitorais do país — São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro —, que também concentraram os maiores números de abstenções. Foram 7,6 milhões de ausentes em São Paulo, 3,7 milhões em Minas e 2,9 milhões no Rio.
O candidato do PL também tenta incorporar os mais de 9,3 milhões de votos recebidos pelos presidenciáveis derrotados. Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) já declararam preferência por Flávio, enquanto Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) não endossaram nenhum dos finalistas.
Para o Nordeste ajudar novamente a barrar o bolsonarismo, a campanha de Lula precisará converter apoio em presença nas urnas. Numa eleição separada por menos de dois pontos percentuais, reduzir a abstenção nos redutos petistas pode pesar no resultado e abrir caminho para a virada.