O legado dos governos de Lula e Dilma e a construção do socialismo brasileiro, por Godoi & Bazzanella

O legado dos governos de Lula e Dilma e a construção do socialismo com características brasileiras

por Cintia Neves Godoi e Sandro Luiz Bazzanella

Lula é uma das maiores lideranças políticas dedicadas à justiça social do mundo. Se tivesse nascido na França, na Inglaterra ou nos Estados Unidos, provavelmente haveria ainda mais homenagens, filmes e produções dedicadas à sua vida, à sua trajetória e à sua capacidade de compreender e interpretar e agir no mundo. Talvez até tivesse recebido um prêmio nobel pelo combate à fome e a pobreza no Brasil e, como proposta factível mundialmente.

Em tempos de eleições, proliferam os debates, as frases, as manchetes e as estratégias. A linguagem política ganha velocidade e alcance, e as redes sociais transformam cada fala, cada gesto e cada posicionamento em acontecimentos que atravessam fronteiras.

Neste cenário, é fundamental que a sociedade reconheça a importância das campanhas eleitorais que se apresentam durante as eleições. É neste momento que concepções de país, de sociedade, de desenvolvimento se apresentam por meio de candidatos e seus partidos à sociedade brasileira, regional e local. Mesmo que o leitor possa argumentar que determinados candidatos e partidos nada apresentaram de propostas é preciso considerar que a ausência de proposta é expressão de proposta política articulada por outros interesses que seguramente não são os interesses de desenvolvimento da sociedade brasileira. Ou dito de outro modo, a ausência de proposta pode ser a proposta de entrega da soberania nacional às potências estrangeiras.

Em uma palestra sobre Inteligência Artificial, Yuval Noah Harari professor de História israelense discutiu como a linguagem em sua articulação comunicacional pode adquirir uma centralidade cada vez maior na organização das sociedades e recuperou, em perspectiva histórica, a trajetória de grandes personagens que, por meio da imprensa, do jornalismo, da edição e da circulação de ideias, foram capazes de pautar discussões e influenciar os caminhos políticos de diferentes sociedades.

No dia 1 de outubro de 2026, Lula fez, em uma sala de estar, uma apresentação de suas ideias em podcast. A partir de sua maneira particular de compreender o mundo e de agir sobre ele, confrontou os interesses de um dos grupos empresariais mais poderosos do Brasil. Em poucas horas, sua fala ultrapassou 10 milhões de visualizações.

Lula é assim: um fenômeno político e social cuja dimensão parece não se esgotar. Ou para além de sugerir aqui que ele se apresente com poderes sobrehumanos, mas, de considerar que sua longa e exitosa trajetória política possui uma única e determinante característica a empatia, senão sintonia com a base da pirâmide social brasileira, historicamente explorada, expropriada, violentada. Lula fala a linguagem dos brasileiros que labutam incansavelmente para sobreviver. Ele é filho desta imensa multidão de netos de pessoas escravizadas, de trabalhadores desprezados, usados, explorados em suas forças vitais. Ele se comunica e age com o Brasil de fato, com o Brasil profundo, com o Brasil do povo brasileiro. 

Enquanto milhões de pessoas assistem, pelas redes, a trechos de suas falas, ele volta às ruas. Novamente. Gigante.

Outro aspecto interessante do atual debate político apareceu em uma manchete que afirmava: “Lula é de esquerda, mas seu governo não é.”

Essa formulação foi utilizada durante muitos anos como crítica. Hoje, também aparece como uma maneira de apresentar Lula a setores de centro e de direita como alguém capaz de governar para além dos limites estritos de uma determinada posição ideológica.

Lembro-me de um vizinho de direita que, por ocasião da primeira vitória de Lula, disse:

“Se eu soubesse que ele seria tão bom, já teria votado nele.”

Talvez essa frase contenha uma questão importante para compreendermos a trajetória de Lula.

Embora identificado com a esquerda, Lula governou lidando permanentemente com o possível e o impossível em um país complexo, desigual e marcado por profundas contradições. Sua trajetória pessoal também foi atravessada por conflitos, injustiças e pela própria prisão. Para além do exposto é preciso considerar a capacidade política do Lula e do Partido dos Trabalhadores no qual constitui sua trajetória política. Ou seja, a lucidez do Lula é ter ciência que ganhar uma eleição no contexto de sociedades burguesas constituídas por instituições e por representatividade não significa deter a hegemonia no exercício do poder, mas de que governar implica, neste contexto, na capacidade de negociar as relações de poder sem entregar os princípios e o compromisso com a massa de trabalhadores brasileiros na luta pela afirmação da justiça social.  Assim, Lula compreendeu que ser de esquerda e se dispor a disputar eleições (mecanismo de justificação das estruturas estatais burguesas) implica na habilidade de estabelecer negociações em torno da governabilidade, a partir da qual é possível afirmar direitos sociais. 

Aos 80 anos, poderia escolher a aposentadoria, o conforto e uma vida distante das disputas políticas. Poderia viver em qualquer lugar do mundo com muito mais tranquilidade. Entretanto, apresenta-se novamente como candidato e continua submetendo-se a uma rotina rigorosa para permanecer ativo, altivo e presente na vida política brasileira.

Há nisso uma dimensão que precisa ser compreendida. Os Gregos Antigos, cidadãos Atenienses partiam do pressuposto que uma vida que faz sentido é uma vida comprometida com a política entendida como compromisso com o espaço público, com os bens públicos, com a comunidade. A vida humana somente pode ser qualificada e ser rememorada pelas futuras gerações quando comprometida politicamente com o mundo humanamente compartilhado. Uma vida vivida no conforto do consumo individual não se compromete com o mundo e se extinguirá tão somente quando a morte bater a porta do indivíduo. Foi isto que os Gregos compartilharam e que parece valer à pena enquanto houver mundo.

Lula não é apenas um personagem eleitoral. Sua trajetória expressa uma experiência histórica brasileira. E talvez seja justamente por isso que precisamos olhar novamente para aquilo que ele propôs e para aquilo que ainda pode propor ao Brasil e ao mundo.

Lula retirou o Brasil do Mapa da Fome e recolocou a redução da pobreza, a inclusão social e a ampliação dos direitos no centro da agenda política nacional. Ao mesmo tempo, testemunhamos transformações no sistema internacional, inclusive a perda relativa de centralidade dos Estados Unidos e a emergência de novas referências de desenvolvimento, particularmente a China.

É significativo observar como adolescentes, jovens e muitos adultos passaram a questionar antigos imaginários sobre os Estados Unidos, sobre o chamado “sonho americano” e sobre a própria ideia de liberdade historicamente associada àquele país.

Talvez não pudéssemos imaginar que, na atualidade, em corredores de escolas, adolescentes passariam a fazer piadas chamando os Estados Unidos de “Estados Falidos”. Em outro momento, ao acompanharem os dramas relacionados às prisões e às deportações, ouvimos deles uma observação particularmente perspicaz: “Disseram que lá é a terra da liberdade, mas é como o sanduíche deles: não tem carne, tem sabooooor de carne. Não é a terra da liberdade; é só sabooooor de liberdade”.

A juventude é genial. E talvez não seja por acaso que Lula tenha dirigido parte de suas palavras, em seu discurso pré-eleitoral, justamente a esse público.

O compromisso e a lucidez política de Lula se expressa em sua mensagem aos jovens. O metalúrgico presidente sabe que a continuidade e o desenvolvimento do Brasil e do mundo está nas mãos dos jovens. Lula sabe que é preciso abraçar os jovens, oferecer-lhes oportunidades porque é neles que reside a força e a criatividade e o senso de justiça que levarão a adiante as transformações em curso na sociedade brasileira.

Talvez essa metáfora também possa nos ajudar a pensar o desenvolvimento. Assim como um produto pode carregar o “sabor” de algo sem necessariamente possuir aquilo que promete, países podem apresentar os símbolos, os discursos e as imagens associados ao desenvolvimento sem que isso corresponda, necessariamente, à sua substância: capacidade produtiva, autonomia tecnológica, segurança econômica, bem-estar social, inovação, soberania e condições concretas de liberdade.

Talvez seja necessário, portanto, perguntar não apenas qual é o “sabor” de desenvolvimento que nos é apresentado, mas o que efetivamente existe em sua composição.

Durante décadas, fomos apresentados à ideia de que o desenvolvimento seria alcançado pela industrialização. Depois, pela abertura econômica, pelas privatizações, pela disciplina fiscal, pelo receituário do FMI e por diferentes versões das políticas neoliberais.

Mas a experiência brasileira demonstrou que o desenvolvimento requer antes de mais nada a afirmação de uma vida digna.

Exige inclusão social, reconhecimento dos direitos das mulheres, acolhida e abertura de oportunidades aos jovens.

Exige indústria.

Exige Estado.

Exige empresas nacionais e estatais capazes de atuar em setores estratégicos.

Exige inovação.

Exige ciência e tecnologia.

Exige educação básica e superior.

Exige universidades fortes.

Exige pesquisa.

Exige concursos públicos e servidores qualificados.

Exige valorização dos conhecimentos acadêmicos, técnicos e populares.

Exige articulação internacional.

E exige capacidade de construir relações econômicas e políticas com diferentes países e diferentes setores da economia.

Nesse sentido, a experiência dos governos Lula e Dilma precisa ser analisada também pelo processo de ampliação das oportunidades educacionais e de formação de uma nova geração de brasileiros.

Milhares de pessoas passaram a acessar universidades, pós-graduações, carreiras públicas, instituições de pesquisa e espaços profissionais antes restritos a parcelas muito pequenas da sociedade.

Mas, também é preciso reconhecer que existe uma contradição importante nesse processo.

Parte daqueles que conseguiram acessar essa estrutura deseja agora preservá-la restringindo o acesso das novas gerações.

Mas outra parte compreende que uma nação desenvolvida e soberana não se constitui pela concentração ou mesmo retirada de direitos. Constrói-se pela sua universalização.

Educação, saúde, ciência, tecnologia e cultura não podem ser privilégios.

São condições infraestruturais basilares para uma sociedade desenvolvida e soberana.

E as novas gerações, ao perceberem as contradições do capitalismo contemporâneo, certamente irão perguntar, se já não estão se perguntando: que outro país queremos construir?

Talvez seja justamente aí que esteja uma das tarefas intelectuais, teóricas e conceituais mais urgentes do nosso tempo.

Lula contribuiu ao ampliar as condições materiais para a formação de milhões de brasileiros. Ao ampliar o acesso à educação, à universidade, à pesquisa e às carreiras qualificadas, ajudou também a formar uma massa crítica capaz de pensar e agir para o país. A constituição de massa crítica é incomensurável em sua contribuição ao desenvolvimento nacional.

Agora, é necessário que esses teóricos se unam aos líderes comunitários, às comunidades para pensar e articular as transformações necessárias ao Brasil.

Não apenas que critiquem o neoliberalismo.

Não apenas que denunciem o capitalismo.

Não apenas que revelem os mecanismos de dominação, exploração e poder.

O diagnóstico e a crítica são indispensáveis.

É por meio deles que desvendamos as estruturas de poder, os mecanismos de dominação e as relações econômicas que organizam a sociedade.

Mas há uma pergunta que precisa vir a todo instante juntamente com crítica:

Que Brasil queremos construir? Afinal, é inerente a crítica estabelecer os critérios basilares para orientar os esforços no alcance do almejado desenvolvimento nacional assentado na justiça social.

O capitalismo atravessa uma crise estrutural que não pode mais ser ignorada. As experiências históricas do socialismo e do comunismo também precisam ser revisitadas em seus avanços e equívocos que impediram, durante décadas, que fossem compreendidas em toda a sua complexidade, tanto que não enxergaram adequadamente as potencialidades e possibilidades contidas na ascensão e levante de trabalhadores que geraram a experiência soviética. Tanto que ainda hoje não compreendemos plenamente as transformações produzidas pela experiência chinesa.

Mas, talvez também não estejamos enxergando aquilo que a experiência brasileira recente nos apresenta. Não estamos enxergando suficientemente a dimensão histórica da redução da pobreza e da miséria e da formação de uma massa crítica alcançada pelos governos democráticos e populares do Lula e da Dilma no Brasil. Não estamos enxergando que elementos do compromisso social e político de Lula permitiram transformações sociais apesar de toda a perseguição política, jurídica e midiática patrocinada pelas elites nacionais.

E durante muito tempo, isso foi apresentado como crítica, como uma limitação.

Assim, parece importante neste contexto questionar: E se a experiência brasileira proporcionada pelos governos de Lula e Dilma foi uma perspectiva de construir, por meio de reformas sociais, ampliação de direitos, políticas públicas, participação do Estado, investimento em educação, redução da pobreza e transformação institucional, uma forma própria de transição social?

Uma forma ainda embrionária, contraditória e inacabada de Socialismo com características brasileiras?

É possível pensar isso? É possível sonhar com isso?

Parece valer a pena.

Talvez tenha passado da hora de pensarmos seriamente o Socialismo que queremos para o Brasil. Porém, não desconsidera-se aqui a valorosa contribuição dos comunistas brasileiros que desde as primeiras décadas do século XX se manifestaram pensamento profundamente o Brasil, articulando movimentos sociais, movimentos de trabalhadores, jornalistas, intelectuais, organizando o PCB, o Partido Comunista Brasileiro e, posteriormente o PC do B, o Partido Comunista do Brasil, entre inúmeras outras iniciativas acadêmicas, e populares em curso até a atualidade.

As mudanças já estão em curso.

Uma classe acadêmica, científica e intelectual foi ampliada durante os governos Lula e Dilma. Temos líderes de movimentos sociais e comunitários, pesquisadores, professores, técnicos, cientistas, intelectuais e profissionais formados em uma escala que o Brasil não conhecia anteriormente.

Temos, portanto, gente para pensar.

Temos gente para pesquisar.

Temos gente para formular.

Temos gente para construir teoria.

E temos um país que precisa dessas teorias.

Não apenas teorias produzidas para explicar a Europa.

Não apenas teorias para interpretar os Estados Unidos.

Não apenas teorias para explicar o capitalismo desenvolvido.

Não apenas para analisar o Socialismo Chinês.

Precisamos pensar o Brasil a partir do Brasil.

Precisamos tomar a experiência brasileira como objeto teórico.

Precisamos compreender nossas próprias possibilidades históricas.

Precisamos construir conceitos capazes de explicar aquilo que estamos vivendo e, sobretudo, aquilo que ainda podemos construir.

É esforço para ontem.

É necessidade para hoje.

Lula virá.

Mais uma vez.

E, se Lula representa uma parte importante da experiência histórica brasileira de transformação social, cabe aos teóricos do nosso tempo assumir outra tarefa: pensar, formular e construir as bases intelectuais de uma formação sócio espacial justa, com as características que nos cabem.

Que os teóricos voem.

Que se agigantem.

Que pensem.

Que formulem.

Que ousem.

E é preciso apressar o passo.

É tarefa da nossa sociedade para o que vem.

Dr. Sandro Luiz Bazzanella. Filósofo e Professor.

Drª. Cíntia Neves Godoi – Geógrafa e Professora

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