Gêmeos digitais: cada peça conta, por Celso P. de Melo

Gêmeos digitais: cada peça conta

Do cuidado artesanal à produção em massa, como a indústria aprende a acompanhar cada componente – e a aprender com ele

por Celso P. de Melo

Cada peça carrega o conhecimento que a tornou possível
– e pode devolver conhecimento a quem a produziu.

Uma peça, milhares de consequências

Imagine uma peça atravessando uma linha de produção. Uma câmera registra sua superfície; outro dispositivo mede uma dimensão. O sistema compara os resultados com os limites previstos e identifica uma alteração discreta. A peça talvez ainda possa ser utilizada. Talvez precise ser separada. Talvez o desvio anuncie o desgaste de uma ferramenta que continuará a produzir milhares de exemplares.

Essa é uma situação ilustrativa, mas o dilema é concreto: quando uma fábrica deve interromper a produção? Parar custa tempo. Continuar pode multiplicar o problema. A resposta depende de saber o que foi medido, o que aquela informação significa e quem tem condições de agir sobre ela.

A indústria contemporânea dispõe de meios cada vez mais poderosos para acompanhar sua própria atividade. Entretanto, a pergunta que eles procuram responder é antiga: como produzir em grande quantidade sem perder a capacidade de assegurar a qualidade de cada unidade?

Ao longo de mais de um século, essa questão transformou máquinas, métodos de trabalho e relações entre quem planeja e quem executa. Transformou também o acesso aos bens materiais. A abundância industrial exigiu aprender a reproduzir qualidade em escala.

O homem que ajustava cada exemplar

Para compreender o que está em jogo naquela peça, vale sair por um momento da fábrica atual e voltar a duas concepções de produção que marcaram o início do século XX: o ajuste cuidadoso de cada exemplar, associado a Henry Royce, e a fabricação em massa apoiada na padronização e na intercambialidade das peças, desenvolvida por Henry Ford [1].

Royce, engenheiro britânico e cofundador da Rolls-Royce, fez de seu nome um símbolo de excelência mecânica. Seus automóveis eram ajustados por artesãos altamente especializados, capazes de perceber e corrigir diferenças que escapariam a um olhar pouco treinado. O conhecimento estava tanto nas máquinas quanto nas mãos e no julgamento de quem as construía.

Esse cuidado exigia tempo, profissionais qualificados e trabalho dedicado a cada unidade. Seu custo delimitava o público: em 1914, somente o chassi de um Rolls-Royce Silver Ghost custava US$ 7.000 em Nova York, sem incluir a carroceria feita sob encomenda. Naquele mesmo ano, um Ford Modelo T Touring completo custava cerca de US$ 500; em 1925, seu preço chegaria a US$ 260.

Ford perseguia outra ambição: colocar o automóvel ao alcance de um mercado muito mais amplo. Para isso, precisava fazer mais do que acelerar o trabalho artesanal. Era necessário reorganizar a fabricação para que cada veículo pudesse ser montado com rapidez e resultados previsíveis.

Em vez de depender de um artesão capaz de ajustar o conjunto, a linha distribuía a montagem entre operações delimitadas, que podiam ser aprendidas em menos tempo. A especialização mudava de lugar: parte do conhecimento antes concentrado no trabalhador passava a ser incorporada ao projeto, às máquinas, às ferramentas e à organização da fábrica. Peças intercambiáveis reduziam a necessidade de ajustes individuais e permitiam ampliar a produção.

A diferença de preços tornava visíveis essas duas maneiras de produzir. Mas seria precipitado concluir que a abundância exigia abrir mão da precisão: a montagem em escala também dependia dela. Para entender como esse aparente conflito seria transformado, precisamos voltar à peça que segue pela linha.

Trinta mil peças, um único problema

Um automóvel contemporâneo pode reunir cerca de 30 mil peças. O número oferece uma medida da tarefa de coordenar materiais, fornecedores e operações, embora varie conforme o veículo e o critério de contagem [2].

O Modelo T já era um produto complexo: um exemplar de 1924 reunia mais de 10 mil peças [3]. Comparações entre veículos de épocas diferentes precisam, portanto, distinguir entre peças individuais, tipos de peças e conjuntos montados.

A transformação mais importante vai além da contagem. No automóvel atual, mecanismos, sensores, circuitos e programas precisam operar conjuntamente. O funcionamento depende das relações entre as partes, de suas condições de uso e de decisões tomadas durante o projeto.

Uma peça pode atender à especificação e, ainda assim, integrar um conjunto que funciona mal. A qualidade do produto exige compreender suas interfaces: como uma variação dimensional afeta uma montagem, como a temperatura altera o desempenho, como uma leitura de sensor influencia uma decisão de controle.

Por isso, o desvio da abertura admite perguntas diferentes. Trata-se de um problema isolado? De uma mudança persistente no processo? De uma incompatibilidade que a inspeção individual não revela? A fábrica precisa observar o objeto e compreender o sistema que o produz.

Desmontar para aprender a montar

Voltemos agora ao início do século XX. Nos frigoríficos, carcaças avançavam diante de trabalhadores que retiravam sucessivamente suas partes. Ford e seus engenheiros aproveitaram o princípio desse fluxo de desmontagem para desenvolver a montagem em movimento. O resultado surgiu de experimentos e adaptações, e a linha móvel foi implantada em 1913 [4].

Para que o fluxo funcionasse, as peças precisavam se encaixar sem depender de uma sequência imprevisível de ajustes. A intercambialidade exigia tolerâncias controladas. A precisão tornava-se parte da infraestrutura da produção em massa.

É nesse ponto que Frederick Winslow Taylor ajuda a entender uma outra transformação. Em seu trabalho fundamental de 1911, The Principles of Scientific Management, propôs estudar as tarefas, medir tempos, definir métodos e organizar o treinamento. A administração assumiria uma parcela maior do planejamento, enquanto os trabalhadores executariam operações previamente estabelecidas [5].

Taylorismo e fordismo estão relacionados, mas têm enfoques distintos: enquanto o primeiro organiza e controla a execução das tarefas, o segundo combina peças padronizadas e intercambiáveis com um fluxo contínuo de montagem para viabilizar a produção em massa.

Em ambos, o conhecimento precisa adquirir formas que permitam repetição. Procedimentos, desenhos, instrumentos e padrões reduzem a dependência de soluções particulares. Essa reorganização amplia a capacidade produtiva, ao mesmo tempo em que pode restringir a autonomia de quem executa.

Surge uma tensão que permanece atual: quem conhece a operação, porque a realiza diariamente, dispõe de meios para modificar o método quando percebe um problema?

Quem executa também sabe

Essa pergunta conduz ao Japão do pós-guerra. O estatístico norte-americano W. Edwards Deming passou a ensinar métodos de melhoria da qualidade a dirigentes e engenheiros japoneses em 1950. No ano seguinte, a União Japonesa de Cientistas e Engenheiros criou o Prêmio Deming, destinado a reconhecer contribuições à gestão da qualidade. A iniciativa mostra que essa transformação já estava em curso muito antes de seus resultados se tornarem amplamente visíveis na competitividade dos produtos japoneses [6].

O controle estatístico permite compreender a variação: distinguir oscilações esperadas de sinais que merecem investigação e agir sobre as condições de produção. Sua contribuição ultrapassa a seleção de amostras para aceitar ou rejeitar lotes. Trata-se de aprender com o processo [7].

A experiência japonesa acrescenta uma dimensão organizacional decisiva. A melhoria contínua procura incorporar a observação cotidiana ao aperfeiçoamento dos métodos. Quem executa também pode identificar problemas, discutir suas causas e propor mudanças.

Essa orientação se traduz no kaizen, a melhoria contínua por meio de pequenos aperfeiçoamentos cotidianos, e nos círculos de qualidade, grupos de trabalhadores que se reuniam para identificar problemas, investigar suas causas e propor soluções. No Sistema Toyota de Produção, desenvolvido ao longo de uma trajetória própria, o jidoka permite detectar anormalidades e interromper a operação antes que o problema avance; o just-in-time organiza a produção para fornecer a cada etapa o necessário, no momento e na quantidade adequados [2].

A padronização permanece importante. Entretanto, um padrão pode ser objeto de revisão a partir da experiência. A aprendizagem depende de canais pelos quais um problema observado se converta em investigação e mudança.

Voltamos, então, à fábrica da abertura. Ela dispõe de muito mais medições. Mas a quantidade de dados e a capacidade de aprender são coisas diferentes. Se a informação não encontra interpretação, responsabilidade e possibilidade de intervenção, a fábrica apenas registra melhor suas dificuldades.

Cada componente tem uma história

Duas peças fabricadas segundo o mesmo desenho podem ter percorrido trajetórias diferentes. Uma foi produzida quando a ferramenta estava recém-ajustada; outra, perto de uma intervenção. Mesmo aprovadas, podem apresentar diferenças relevantes para determinados usos. Depois da montagem, cargas, temperaturas e ambientes também fazem suas histórias divergir.

A rastreabilidade permite relacionar cada unidade às condições em que foi produzida. Os gêmeos digitais são representações computacionais de objetos ou processos físicos, atualizadas por dados de seus correspondentes reais. Essa ligação permite acompanhar condições de funcionamento, simular situações e, conforme a aplicação, estimar como seu comportamento poderá evoluir [8].

Um gêmeo digital pode representar um equipamento, um processo, um sistema ou um componente. Sua utilidade depende da conexão entre medições e modelos capazes de responder a perguntas específicas. Uma imagem tridimensional, por si só, não oferece essa capacidade.

No exemplo da abertura, as medições da peça podem ser analisadas em conjunto com os dados sobre o estado da ferramenta e as condições de fabricação. O gêmeo digital pode ajudar a identificar se o desvio decorre de desgaste, de uma alteração de temperatura ou de outra causa, orientando a escolha de quando e como intervir no processo.

A inspeção individual continua sendo realizada por meio de instrumentos e sistemas de medição. O gêmeo digital pode contextualizar seus resultados e apoiar previsões. Nem toda peça precisa ter um gêmeo próprio: em muitos casos, sua rastreabilidade pode ser vinculada aos modelos do processo e dos equipamentos.

Quando técnica e economicamente viável, esse acompanhamento permite examinar características de cada unidade durante a fabricação, ampliando a informação disponível para além das amostras periódicas. O controle estatístico continua necessário para interpretar variações, avaliar incertezas e reconhecer tendências. A novidade está em combinar medições individuais com a compreensão do processo que as produziu.

Essa integração está entre as possibilidades investigadas para conectar o projeto, a produção e a manutenção. Ela pode ampliar o alcance da engenharia ao reunir informações que antes permaneciam dispersas entre etapas e departamentos [9].

Há aqui uma aproximação sugestiva com Royce: a atenção às particularidades do exemplar volta ao centro da discussão, agora apoiada por meios capazes de operar em grande escala. Seu alcance, porém, depende do que pode ser medido e do que os modelos conseguem representar. Inspecionar todas as unidades não equivale a conhecer integralmente suas propriedades.

A qualidade não termina na fábrica

A história individual pode continuar durante o uso. Dois equipamentos instalados no mesmo dia e com igual número de horas de funcionamento podem ter sofrido esforços muito diferentes. Um calendário de manutenção oferece uma referência comum, mas sozinho não descreve a condição de cada um.

O monitoramento permite incorporar sinais de degradação. Quando associado a modelos adequados, pode apoiar estimativas sobre a evolução do desgaste e orientar intervenções. A manutenção periódica passa a conviver com decisões baseadas na condição observada e em previsões, cuja confiabilidade precisa ser avaliada [9]. À pergunta “quando está prevista a próxima revisão?” acrescenta-se outra: “o que o estado deste equipamento revela sobre a necessidade de intervir?”.

A qualidade ganha, assim, uma dimensão temporal. Importa como o produto saiu da fábrica, como funciona, como se degrada e o que sua experiência revela sobre o projeto e a fabricação. Uma falha em serviço pode alimentar mudanças nos componentes e no processo que irá produzir novas unidades.

Nesse horizonte, a engenharia de produção amplia sua atenção para as conexões entre etapas e para o ciclo de vida. Os gêmeos digitais podem fornecer meios técnicos para essa integração. A orientação da indústria 5.0 acrescenta a preocupação com as pessoas, a sustentabilidade e a resiliência – a capacidade de manter ou recuperar a produção diante de falhas, interrupções no fornecimento e outras situações adversas. O conhecimento deve apoiar decisões humanas, reduzir desperdícios e permitir que a fábrica se adapte sem comprometer a qualidade e a segurança [10].

Retomemos, finalmente, a peça que atravessava a linha. A ferramenta é ajustada antes que o desvio se repita. A peça é separada para exame, e seu registro permanece disponível para a investigação. Nessa possível resolução da cena inicial, uma diferença quase invisível ajuda a evitar milhares de problemas. O valor da informação aparece na decisão que ela tornou possível.

Royce dedicava atenção ao exemplar. Ford organizou a fabricação para alcançar milhões. A melhoria contínua mostrou como a experiência de produzir podia aperfeiçoar o próprio processo. Com os gêmeos digitais, abre-se a possibilidade de conectar essas conquistas: acompanhar a trajetória individual dentro da produção em massa e aprender com o produto ao longo de sua vida.

É uma mudança no sentido da abundância. Mais bens podem chegar a mais pessoas; menos material, energia e trabalho precisam terminar em defeitos, substituições prematuras e descarte. A precisão ganha valor também pelo que permite preservar.

Durante mais de um século, aprendemos a fazer uma peça caber na seguinte. Agora, podemos fazer com que a história de cada peça caiba no conhecimento da fábrica.

A peça segue. O que ela ensinou fica.

Bibliografia

1.    Winchester, S., The Perfectionists: How Precision Engineers Created the Modern World. 2018, New York: Harper.

2.    Toyota Motor Company, Toyota Production System.

3.    The Henry Ford, Exploded Ford Model T, Originally Manufactured in 1924.

4.    The Henry Ford, Henry Ford: Assembly Line.

5.    Taylor, F.W., The Principles of Scientific Management. 1911, New York; London: Harper & Brothers.

6.    Union of Japanese Scientists and Engineers, Deming Prize: How was the Deming Prize Established.

7.    Deming, W.E., Speech by W. Edwards Deming to Japanese Leaders in 1950. 1950.

8.    Lin, S.-W., et al., Digital Twin Core Conceptual Models and Services. 2023, Industry IoT Consortium.

9.    National Institute of Science and Technology, Digital Twins for Advanced Manufacturing. 2026.

10.  Comissão Europeia. Direção-Geral da Investigação e da Inovação. Industry 5.0: towards a sustainable, human-centric and resilient European industry. Autores: Maija Breque, Lars De Nul e Athanasios Petridis. Luxembourg: Publications Office of the European Union, 2021. ISBN 978-92-76-25308-2. DOI: 10.2777/308407.


Celso Pinto de Melo – Professor Titular aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “

Artigo Anterior

MEDO  

Próximo Artigo

Trump se prepara para não reconhecer vitória de Lula, diz ex-assessor

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!