A contagem regressiva para as urnas traz um desenho inesperado para o maior bastião do conservadorismo no país. Na Região Sul, o encolhimento da vantagem histórica obtida pelo bolsonarismo surge como o elemento capaz de reconfigurar a disputa nacional e, eventualmente, liquidação do pleito presidencial logo em primeiro turno.
O diagnóstico foi apresentado pelo cientista político Tarson Núñez, doutor pela UFRGS e pesquisador associado do INCT Observatório das Metrópoles, em entrevista ao jornalista Luis Nassif durante o programa TVGGN 20H [confira abaixo]. Ao analisar a dinâmica das pesquisas eleitorais nos três estados sulistas, Nunes ressaltou a diminuição nas margens de vantagem da extrema-direita em relação aos números apurados em 2022.
“O que a gente pode perceber é que, de modo geral, as pesquisas estão apontando para um resultado que ainda é desfavorável pro presidente Lula, mas que se a gente for comparar com os resultados anteriores, o desempenho do presidente Lula tá ficando bem melhor. Então, assim, ainda que o Sul continue sendo um grande bastião da direita, os resultados estão apontando para uma redução dessa grande vantagem que o Bolsonaro conseguia tirar aqui nos Estados do Sul.”
A retração nos números estaduais
A comparação direta com a votação de 2022 evidencia a oscilação nas intenções de voto. No Rio Grande do Sul, por exemplo, Bolsonaro registrou 49% no primeiro turno de 2022. Os levantamentos atuais situam Flávio Bolsonaro (PL) na faixa entre 35% e 44%. Em Santa Catarina, o patamar obtido pela direita em 2022 foi de 62%. As medições atuais apontam oscilação entre 47% e 50%. Já no Paraná, cidade conservadora e a mais lavajatista do país, o ex-presidente alcançou 55% dos votos válidos em 2022. Agora, o cenário oscila entre 40% e 53%, a depender do instituto consultado.
Conforme explica o analista, essa retração não significa a desidratação do campo ideológico conservador, mas reflete a fragmentação eleitoral provocada por nomes como Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante).
“O fato é que o Flávio Bolsonaro não conseguiu capitalizar o capital político do Jair Bolsonaro. Na verdade, o resultado do Flávio é pior, o que não quer dizer que a direita não continue tendo muita força. Os candidatos da direita são bastante favoritos no governo estadual. A direita segue forte aqui no Sul, mas perdeu algum espaço e isso pode ser decisivo na eleição e eventualmente levar o Lula à vitória no primeiro turno.”
O Senado: do fantasma do “6 a 0” ao equilíbrio de bancada
A perspectiva inicial de uma varredura completa da direita nas cadeiras do Senado em disputa no Sul foi matizada pela evolução dos números locais.
No Rio Grande do Sul, Manuela d’Ávila e Marcel van Hattem (Novo) intercalam a liderança de acordo com as últimas pesquisas. A segunda vaga é disputada voto a voto entre Paulo Pimenta (PT) e Germano Rigotto (MDB).
No Paraná, após a impugnação da candidatura do ex-procurador da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol, abriu-se um triplo empate técnico entre Gleisi Hoffmann (PT, com 16%), Alexandre Curi (Republicanos, com 18%) e Felipe Barros (PL, com 18%).
Já em Santa Catarina, estado onde a candidatura de esquerda de Décio Lima (PT) enfrenta maior desvantagem, a disputa favorece os nomes apoiados pelo governador Jorginho Mello (PL), como a deputada Carol de Toni (PL) e Carlos Bolsonaro (PL).
Diante do quadro, Nunes observa o ajuste na correlação de forças. “Dada a forte hegemonia da direita nos três estados do Sul, teria uma chance muito grande da gente sair dessa eleição com seis senadores totalmente alinhados com a direita. Mas o que a gente vê é que os dados estão bem mais complexos. Numa situação que podia ser 6 a 0, a gente pode ter um resultado de 4 a 2 ou eventualmente até 3 a 3. O quadro é de fato ruim para as esquerdas, mas ele é muito menos ruim do que poderia estar sendo.”
A disputa gaúcha e a ambiguidade da candidatura de centro-esquerda
A análise mais detalhada do cenário no Rio Grande do Sul passa pelo ambiente de estagnação econômica que se arrasta por quase vinte anos, período em que o estado cresce abaixo da média nacional e regional. Esse ambiente de paralisia estrutural impulsionou discursos mais radicais e corroeu o centro político liderado por Eduardo Leite (PSDB), incapaz de levar seu sucessor ao segundo turno.
A disputa final no estado contrapõe o candidato bolsonarista Zucco (PL) a Juliana Brizola (PDT), que conta com a adesão formal do PT. A condução da campanha pedetista, contudo, gera questionamentos.
“A candidata Juliana simplesmente se esconde de falar do Lula e trata como se para ela não fizesse diferença qual seja o próximo presidente do Brasil. Ela diz isso com todas as letras, que vai negociar com quem quer que seja. Ela não se coloca como uma candidata de defesa do governo Lula, o que faz ela inclusive perder votos. Se a gente olhar as pesquisas, o Lula tem quase 10 pontos a mais. Ela não ganha a simpatia dos petistas porque não defende o Lula e não ganha a simpatia dos antipetistas, porque todo mundo diz que ela é candidata do PT.”
Sobre o histórico da candidata e o peso da tradição do avô, Leonel Brizola, Nunes pontua que “ela é muito mais um nome de uma reminiscência histórica do que propriamente uma trajetória que reflita a tradição do avô. Ela tem posições muito ambíguas que, num estado historicamente de polarização como o Rio Grande do Sul, despotencializa a candidatura dela.”
A gestão da tragédia e o esvaziamento da capacidade estatal
A repercussão política das recentes enchentes no estado escancarou um paradoxo. Apesar da recente condenação judicial da prefeitura de Porto Alegre por omissão nos sistemas de contenção, o debate eleitoral acabou capturado pela narrativa da auto-organização e pela crítica genérica à atuação governamental.
A respeito do papel desempenhado pelo ex-ministro da Reconstrução, Paulo Pimenta, Nunes destacou que os limites observados refletem problemas estruturais do pacto federativo e da máquina pública.
“O Pimenta fez um esforço gigantesco, um trabalho muito positivo, mas o governo federal trata das grandes questões: botou o dinheiro, mas quem opera as ações são o governo do estado e os municípios. Não adianta o governo dizer que botou bilhões à disposição se a pessoa não vê a casa sendo construída. Mas pra casa ser construída, o prefeito tem que arranjar o terreno. A capacidade operacional de fazer as coisas andarem, de se comprometer e entregar, é que eu acho que foi a falha maior. E não é uma falha pessoal do Pimenta, mas foi muito mais uma falha da capacidade operacional do governo federal de entregar coisas rápidas e desse problema do nosso pacto federativo. Isso reflete a crise que o estado brasileiro vem passando, de esvaziamento, de destruição da capacidade estatal.”
A derrocada dos quadros de projeto e a era da lacração
A mudança no perfil das lideranças da direita sulista, com a substituição de figuras tradicionais da política conservadora por agentes projetados pelas redes sociais, fecha o diagnóstico sobre a crise da representatividade política. Para Nunes, a proliferação de candidaturas ancoradas no bate-boca digital expõe a desidratação da formulação de políticas públicas.
“O Brasil não tem conseguido formar quadros mais qualificados e, especialmente no âmbito da política eleitoral, o espaço pra demagogia, pro populismo, para soluções fáceis para problemas complexos, pro discurso estridente, hoje é muito mais eficiente. Isso nos leva a pensar sobre a crise da democracia representativa. Tu não tá mais discutindo propostas de país, tu não tá discutindo mais visões de futuro, tu tá fazendo lacração de internet. São discussões superficiais que não dão conta da complexidade da situação do Brasil e dos estados.”
Assista ao corte da entrevista abaixo na TV GGN:
Assista ao programa completo no YouTube para acompanhar a análise detalhada sobre o cenário eleitoral da Região Sul na entrevista concedida por Tarson Nunes a Luis Nassif no TVGGN 20h com Tarson Nunes.