A dois dias das eleições, o governo de Donald Trump fechou a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília e todos os consulados no Brasil sob a alegação genérica de “questões de segurança”.
Washington não apresentou nenhuma evidência de ameaça, mas lançou sobre o país a suspeita de que diplomatas e cidadãos norte-americanos estariam em risco.
O comunicado divulgado na quinta-feira (1º) determinou a suspensão dos serviços consulares nesta sexta (2) e orientou cidadãos dos Estados Unidos a não procurar as instalações diplomáticas, nem mesmo em situações de emergência. Os funcionários receberam ordem para trabalhar de casa.
Questionado sobre a decisão, o Departamento de Estado não explicou o que havia ocorrido. Um porta-voz afirmou que a gestão Trump tem como prioridade a “segurança e a proteção dos cidadãos americanos” e informou que Washington trabalha com autoridades brasileiras para tratar do caso.
A resposta sugere que existiria uma ameaça conhecida pelo governo brasileiro, mas não informa sua origem, sua natureza ou o grau de risco. Também não esclarece quais autoridades participam das conversas nem por que a medida atingiu todos os consulados do país.
A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal afirmou à TV Globo que não havia identificado nenhuma ameaça em Brasília. Uma fonte do governo norte-americano mencionou uma possível ameaça de bomba, mas não soube dizer se ela teria sido dirigida à própria Embaixada ou a outro local da capital.
Mesmo sem informações concretas, o alerta produzido por Washington interrompeu entrevistas para emissão de vistos e mobilizou forças policiais. Em São Paulo, a Polícia Militar isolou o entorno do Consulado e impediu a entrada de pessoas que tinham atendimento marcado. Não há previsão oficial para a retomada dos serviços.
O governo Trump não relacionou oficialmente a medida às eleições de domingo (4). O momento escolhido, no entanto, dá peso político ao anúncio: sem mostrar provas, os Estados Unidos espalham dúvidas sobre a capacidade do Brasil de proteger instalações estrangeiras justamente quando milhões de brasileiros se preparam para votar.
Interferência na eleição
O fechamento das representações diplomáticas ocorre depois de uma sequência de ações do governo Trump contra instituições brasileiras durante o processo eleitoral. Na quinta-feira (1º), o The Guardian revelou que o Departamento de Estado destinou US$ 1 milhão — cerca de R$ 5,3 milhões — a um projeto voltado ao financiamento de grupos contrários ao Supremo Tribunal Federal.
A verba saiu do Fundo de Direitos Humanos e Democracia e foi reservada para uma iniciativa chamada “Combate ao lawfare e à censura no Brasil”. O beneficiário não foi identificado.
Em junho, o Departamento de Estado já havia aberto uma chamada de quase US$ 1 milhão para campanhas, coalizões e apoio jurídico contra decisões do STF.
A revelação levou três senadores norte-americanos — Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch — a cobrar do secretário de Estado, Marco Rubio, o fim das pressões sobre o Brasil. Eles denunciaram o uso de medidas diplomáticas, políticas e econômicas para favorecer Flávio Bolsonaro e exigiram que Washington reconheça o resultado das urnas.
Dias antes, outros 31 parlamentares dos Estados Unidos haviam enviado uma carta semelhante.
Em setembro, um relatório da Agência Brasileira de Inteligência classificou como crítico o nível de interferência dos Estados Unidos nas eleições. O documento, encaminhado ao governo Lula, ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério da Justiça, apontou ameaças ao processo eleitoral vindas da administração Trump.
A ofensiva também incluiu sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, adotadas após articulações do clã Bolsonaro em Washington.=