
Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
Se o Brasil vivesse uma democracia saudável, a interferência do governo de Donald Trump na eleição deste domingo estaria gritando diariamente em todas as manchetes. Mas o país passou a tratar o tema como algo banal, enquanto Washington mexe as peças do tabuleiro para ajudar os entreguistas.
A AGU pediu à PF e ao MPF que investiguem um financiamento, pela Casa Branca, de uma agenda de extrema direita no Brasil. Segundo o The Guardian, US$ 1 milhão foi tirado de um fundo de direitos humanos para um programa contra “lawfare e censura” no país. Dinheiro de direitos humanos para atacar direitos humanos. O roteirista desta grande pornochanchada chamada Brasil é impagável.
Um relatório da Abin já classificava como “crítica” a pressão norte-americana. Some-se tarifaço às vésperas da eleição, sanções a autoridades e minutas de acordo exigindo que o Brasil garanta golpistas nas urnas.
Troque Trump por Xi Jinping e Flávio Bolsonaro por Lula. Canais de TV convocariam telespectadores às ruas e gente acampada na porta de quartel rezariam para pneus. Mas, como a mão peluda fala inglês, uma parte do país dá de ombros.

O Brasil tem o direito de eleger esquerda, direita ou centro. De errar feio e de acertar em cheio, sozinho. Democracia não garante boas escolhas, garante que a escolha seja nossa. Quem aceita a tutela de uma potência que nos enxerga como mina de terras raras e comprador de aço não está escolhendo, mas sendo escolhido.
Diante disso, o país se dividiu. Uma parte está anestesiada: a interferência virou alarme de carro que dispara toda noite e ninguém mais vai à janela. Outra reclama, alerta, protocola. E, às vezes, parece falar para as paredes.
E há quem sonhe com a mão peluda. Gente que se enrola na bandeira dos Estados Unidos feito panqueca, pede intervenção como quem aciona delivery e, no 7 de Setembro, desfila na Paulista com um bandeirão vermelho, branco e azul. No dia da Independência, celebrou-se a dependência.
“Mas é pela liberdade de expressão!”, dirão. Criticar o Supremo é direito de todo brasileiro. Terceirizar a crítica para um governo estrangeiro é outra coisa, vassalagem.
A PF investiga se parte dos 24 milhões de dólares que Flávio Bolsonaro pediu ao banqueiro Daniel Vorcaro bancou o lobby da família em Washington por tarifaço contra o Brasil e pela liberdade de Jair. Se confirmado, Vorcaro terá subtraído dinheiro público e entregue a Flávio, que mandou para Eduardo, que pagou lobby para castigar empresas e empregos por aqui a fim de salvar o pai.
Existe uma palavra para isso. E não é patriotismo.
Há também outro grupo, aqueles que entendem perfeitamente o que está acontecendo, mas que seguem tratando a interferência como notinha, espremida entre a pesquisa da semana e o meme do debate. Preferem o conforto da “isenção” ao incômodo de dar nome às coisas, como se equilíbrio fosse tratar da mesma forma quem defende nos sujeitar a outro país.
São os músicos do Titanic: casco já rasgou no iceberg, a água já bate no tornozelo, e eles seguem afinando o violino e garantindo à plateia que a noite estará sempre agradável. Com uma diferença: os músicos do Titanic tocavam para acalmar quem ia afundar. Aqui, a impressão é que tocam para que ninguém perceba que está afundando.