
Perfis bolsonaristas passaram a divulgar nos últimos dias dois conteúdos fora de contexto para associar o presidente Lula (PT) à pedofilia. Primeiro, recortaram uma fala do petista sobre exames preventivos de saúde. Depois, recuperaram um vídeo de Xuxa Meneghel, gravado em 2022 contra Jair Bolsonaro (PL), e passaram a compartilhá-lo como se a apresentadora estivesse reagindo agora ao presidente.
Na esteira da repercussão, também voltou a circular um vídeo no qual Xuxa fala sobre pedofilia, abuso sexual e pede que as pessoas não votem em determinado candidato. Publicações recentes passaram a sugerir que a manifestação teria sido motivada pela fala de Lula.
Isso é falso. Não há registro de manifestação recente da apresentadora sobre esse episódio. O vídeo foi gravado em outubro de 2022 e tinha Jair Bolsonaro como alvo.
Na ocasião, Bolsonaro concorria à reeleição e havia contado, em entrevista a um podcast, que encontrou meninas venezuelanas de 14 e 15 anos em São Sebastião, no Distrito Federal, e que “pintou um clima”. A declaração provocou ampla repercussão durante a campanha daquele ano.
Xuxa, que revelou ter sofrido abusos sexuais durante a infância, gravou então um longo desabafo contra o então presidente. “Não vote nesse homem, não deixe isso por menos, vamos falar, vamos gritar por essas meninas, por essas crianças, por essas adolescentes”, afirmou na gravação de 2022.
É muita cara de pau!
Bolsonaristas pegaram um vídeo da Xuxa de 2022, em que ela criticava JAIR BOLSONARO pela fala nojenta de que “pintou um clima” com meninas de 14 anos, e estão espalhando como se fosse uma crítica atual ao Lula.
Esse é o velho método bolsonarista de acusar… pic.twitter.com/6YGEr7l34H
— Guilherme Boulos (@GuilhermeBoulos) October 1, 2026
A declaração de Lula ocorreu na segunda-feira (28), durante uma agenda em um complexo hospitalar em Belém, no Pará. O presidente falava sobre prevenção ao câncer e sobre a resistência de parte dos homens ao exame de próstata. A visita ocorreu na Beneficente Portuguesa do Pará, que recebeu investimentos federais para ampliar atendimentos de alta complexidade pelo SUS.
Ao abordar o exame de toque retal, Lula comparou a resistência masculina aos cuidados preventivos com a maior familiaridade das mulheres com consultas e exames ginecológicos. O trecho em que afirmou que mulheres “aprendem a tomar toque desde pequenas” foi destacado isoladamente e compartilhado como se tivesse relação com abuso sexual infantil.
A íntegra do contexto, porém, mostra que Lula falava de saúde preventiva, câncer de próstata e exames ginecológicos. Agências de checagem classificaram como enganosa a interpretação de que o presidente estivesse normalizando pedofilia.
O trecho viralizou entre políticos e influenciadores ligados ao bolsonarismo. A própria campanha de Flávio Bolsonaro (PL) produziu conteúdo relacionando a declaração a estupro de menores, enquanto aliados passaram a usar expressões como “Lula não toque nas crianças”.