Anatomia do estômago: quem absorve não produz — Parte II, por Henrique Morrone

Anatomia do estômago: quem absorve não produz — Parte II

por Henrique Morrone

O Estado voltou ao médico.

Não por estética.

Por falência funcional.

A indústria perdera músculos. O investimento estava anêmico. O crescimento, ofegante. A pressão continuava alta.

A Dra. Regina pediu os exames.

Começou pelo PIB.

— Cresceu?

— Cresceu.

— Então estou bem.

A médica arregalou os olhos.

O paciente confundia movimento com saúde.

PIB é contabilidade. Registra o que circula, o que se vende, o que se compra, o que se intermedeia.

A economia pode engordar sem ficar forte.

E o Brasil engordava.

Dinheiro ia.

Dinheiro vinha.

Passava pelo banco, pela corretora, pelo aplicativo. Deixava pelo caminho tarifas, comissões, juros.

Agora também apostava.

Era uma economia frenética.

Corria muito.

Quase sempre em círculos.

Nos exames, a Dra. Regina encontrou um velho conhecido.

O Parasita Rentista.

Estava ótimo.

Corado.

Bem nutrido.

Enquanto alguém precisava investir, contratar trabalhadores, comprar máquinas, produzir e ainda encontrar quem comprasse a mercadoria, o Parasita descobrira uma forma superior de capitalismo:

ganhar dinheiro esperando.

O risco ficava para quem produzia.

O rendimento, para quem esperava.

O pobre também esperava.

Mas diante de outra tela.

Esperava um gol.

Nascia outro órgão naquele corpo.

A Bet.

Vinte reais.

Cem.

A tela piscava:

APOSTA GRÁTIS.

Grátis.

Outra palavra engraçada.

Quase tão engraçada quanto risco.

No andar de cima, o risco dormia embalado pelas bondosas taxas de juros.

No andar de baixo, corria nos gramados.

Finalmente havíamos democratizado alguma coisa:

o cassino.

Mas havia mesas diferentes.

O pobre apostava no Corinthians.

O rico, no Tesouro.

Um precisava acertar o resultado.

O outro precisava apenas esperar.

Era a meritocracia nacional levada à perfeição.

A Dra. Regina voltou ao PIB.

Durante décadas perguntamos quanto o país crescia.

Perguntamos menos o que crescia.

Talvez porque a resposta estragasse a festa.

Uma fábrica cresce.

Uma plataforma de apostas cresce.

As finanças crescem.

O PIB soma.

A economia, porém, não é uma soma.

É uma estrutura.

Uma tonelada de músculo e uma tonelada de gordura pesam a mesma tonelada.

O corpo sabe a diferença.

A balança, não.

O IBGE resolveu trocar a fotografia.

Faz sentido.

O paciente mudara.

Enquanto o estatístico ajusta a lente, porém, a economia inventa novas maneiras de fazer dinheiro circular sem ampliar na mesma proporção sua capacidade de produzir.

A aposta acontece em segundos.

O Pix atravessa o país em instantes.

O capital muda de posição antes do almoço.

A estatística chega depois.

Não por incompetência.

Porque o cassino é mais rápido que o contador.

A Dra. Regina continuou examinando o paciente.

Percebeu que o problema não era apenas produzir pouco.

Era sustentar muito.

Juros.

Comissões.

Intermediações.

Apostas.

Uma fauna inteira vivendo em torno daquilo que alguém ainda precisava produzir.

O dinheiro circulava.

O PIB registrava.

As finanças prosperavam.

A indústria procurava estacionamento.

Foi então que a Dra. Regina entendeu.

Havia dois cassinos.

Num deles, milhões apostavam para tentar escapar da própria renda.

No outro, aplicavam porque possuíam renda suficiente para jamais precisar escapar dela.

Um vendia esperança.

O outro, segurança.

A Bet dizia:

— Talvez você fique rico.

O título financeiro respondia:

— Não se preocupe. Você já é.

Era a luta de classes transformada em teoria das probabilidades.

Para baixo, risco.

Para cima, rendimento.

Até que o governo decidiu fechar uma das mesas.

A moralidade finalmente chegara ao cassino.

Pela porta dos pobres.

A Dra. Regina fechou o prontuário.

Já sabia o diagnóstico.

O problema brasileiro nunca foi apenas produzir pouco.

Foi transformar a apropriação daquilo que os outros produzem em especialidade nacional.

Produzir dá trabalho.

Cobrar pedágio é mais simples.

É mais fácil construir uma catraca do que uma fábrica.

Mais fácil cobrar juros do que fabricar máquinas.

Mais fácil apostar no crescimento do que crescer.

Na saída, o Estado perguntou:

— E agora?

— Voltar a produzir.

O Estado estranhou.

Parecia uma ideia antiga.

Talvez cafona.

Na recepção, a televisão anunciava a cotação dos mercados.

Alguém comemorava o combate às Bets.

O Estado sorriu.

Finalmente o país decidira combater a economia do cassino.

Depois consultou discretamente a taxa de juros no celular.

E respirou aliviado.

O cassino importante continuava aberto.

Henrique Morrone é professor associado da UFRGS e pesquisador do CNPQ.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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