Quando O Globo ataca, a CEITEC deve agradecer, por Lucas Tedesco
Há críticas que preocupam, há críticas que exigem resposta e há críticas que, quando se conhece a história de quem as faz, devem ser recebidas como uma condecoração. Quando O Globo ataca a CEITEC, portanto, é o caso de agradecer — não por deboche, mas por memória.
Em 1962, quando o Brasil discutia a criação do décimo terceiro salário, O Globo estampou uma previsão que atravessaria as décadas como monumento ao catastrofismo das elites brasileiras: “Considerado desastroso para o país um 13º mês de salário.” O desastre veio — e continua vindo todo mês de dezembro. Milhões de trabalhadores recebem o décimo terceiro, o comércio espera por ele, famílias pagam dívidas com ele e a economia movimenta bilhões graças a ele. O Brasil sobreviveu ao desastre. A profecia, não.
Dois anos depois, veio algo muito mais grave. Em 1964, O Globo apoiou o movimento que derrubou o presidente constitucional João Goulart e abriu caminho para uma ditadura que duraria 21 anos. Décadas depois, o próprio jornal reconheceu que aquele apoio foi um erro. Jango caiu, Brizola foi cassado e brasileiros foram presos, perseguidos, torturados, mortos ou obrigados a deixar o país. O Congresso foi fechado, mandatos foram cassados e a censura passou a decidir o que o brasileiro podia ler, assistir e ouvir. O país levou duas décadas para recuperar o direito de escolher diretamente um presidente. A história resolveu o debate.
A relação de Leonel Brizola com as Organizações Globo ainda teria outros capítulos. Em 1982, quando Brizola disputou o governo do Rio de Janeiro na primeira eleição direta para governador depois do golpe de 1964, surgiu o célebre caso Proconsult. A apuração foi tumultuada, os boletins apresentaram problemas e Brizola denunciou publicamente a existência de um ambiente propício à fraude, enfrentando a Globo em rede nacional. A auditoria posterior constatou falhas no sistema da Proconsult, embora a Justiça Eleitoral tenha concluído que os erros não foram intencionais. Brizola venceu e deixou uma lição que continua atual: o poder não está apenas em quem governa, mas também em quem escolhe aquilo que o país verá, aquilo que discutirá e a maneira pela qual os acontecimentos serão apresentados. A famosa teoria do agendamento (Agenda-Setting).
Já nos estertores daquela ditadura, quando milhões de brasileiros começaram a ocupar as ruas exigindo o direito elementar de escolher o presidente da República, a Globo novamente demonstrou enorme cautela diante da vontade popular. No início da campanha das Diretas Já, as manifestações não eram exibidas nos noticiários nacionais por decisão de Roberto Marinho, que temia que uma cobertura ampla pudesse provocar “inquietação nacional”.
O episódio mais simbólico ocorreu em 25 de janeiro de 1984. Centenas de milhares de brasileiros tomaram a Praça da Sé, em São Paulo, num dos grandes comícios pelas eleições diretas. Na chamada do Jornal Nacional, porém, o acontecimento apareceu inicialmente associado às comemorações do aniversário da cidade: “Festa em São Paulo. A cidade comemorou seus 430 anos com mais de 500 solenidades. A maior foi um comício na Praça da Sé.” A reportagem exibida em seguida informou que aquela multidão pedia eleições diretas para presidente, mas o enquadramento inicial entrou para a história como símbolo da resistência da emissora em dar à campanha a dimensão política que ela já possuía nas ruas. Décadas depois, a própria Memória Globo colocaria o episódio entre os erros de sua trajetória.
Era uma cena reveladora: o povo brasileiro estava nas ruas pedindo democracia; para quem assistia à chamada do principal telejornal do país, São Paulo estava comemorando aniversário.
Poucos anos depois, em 1989, o Brasil voltou a escolher diretamente seu presidente. Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva chegaram ao segundo turno e, na reta final daquela eleição apertada, participaram do famoso debate transmitido pela televisão. No dia seguinte, porém, o Jornal Nacional apresentou uma edição dos melhores momentos. A seleção tornou-se um dos episódios mais controversos da história da televisão brasileira. A Globo foi acusada de escolher momentos favoráveis a Collor e desfavoráveis a Lula, e houve protestos, inclusive de artistas da própria emissora. A repercussão foi tamanha que a Globo decidiu posteriormente não editar novamente debates políticos. Collor venceu aquela eleição e, depois, sofreu impeachment. Foi mais uma página para a coleção das certezas nacionais que o tempo tratou de examinar.
O mesmo vale para o impeachment de Dilma Rousseff. Sua deposição foi apresentada como uma operação técnica, moralizadora e necessária para recuperar a economia. O discurso dominante prometia estabilidade, responsabilidade e retomada do crescimento. O resultado foi outro. O processo foi conduzido por um Congresso marcado por interesses particulares, sob forte pressão política e midiática, e terminou com a retirada de uma presidenta eleita sem que se comprovasse crime de responsabilidade capaz de justificar sua destituição. O impeachment abriu uma longa crise institucional, aprofundou a polarização e desmontou parte da agenda de desenvolvimento que ainda sustentava a indústria nacional.
A promessa era modernização. O que veio foi desorganização econômica, perda de capacidade produtiva e enfraquecimento do Estado. Milhares de empregos industriais foram destruídos, cadeias produtivas foram interrompidas e empresas brasileiras perderam mercado, tecnologia e capacidade de investimento. A indústria nacional, que já enfrentava dificuldades, sofreu um golpe adicional justamente quando o mundo inteiro reforçava políticas de proteção, financiamento e planejamento industrial.
A Operação Lava Jato também precisa ser incluída nesse balanço. O combate à corrupção era necessário; a destruição de empresas estratégicas, não. A operação atingiu grupos empresariais inteiros, paralisou contratos, interrompeu investimentos e provocou a perda de milhares de empregos. Em vez de punir individualmente os responsáveis e preservar a capacidade produtiva das empresas, adotou-se uma lógica de terra arrasada. A Petrobras foi enfraquecida, a engenharia nacional perdeu espaço, grandes obras foram interrompidas, fornecedores desapareceram e trabalhadores foram demitidos. O país perdeu conhecimento acumulado e capacidade de execução.
Sérgio Moro, apresentado como símbolo de imparcialidade e rigor, tornou-se ministro do governo que se beneficiou politicamente da prisão de Lula. As mensagens reveladas posteriormente pelo The Intercept Brasil expuseram a proximidade entre juiz e acusação e colocaram em xeque a neutralidade do processo. O Supremo Tribunal Federal reconheceu a parcialidade de Moro no caso do tríplex e anulou as condenações de Lula por incompetência da vara de Curitiba. O mea-culpa é inevitável: a Lava Jato não apenas combateu a corrupção; também destruiu empregos, enfraqueceu empresas brasileiras, interrompeu projetos estratégicos e contribuiu para a desindustrialização do país. A história não absolve esse resultado.
É diante desse passado que chegamos à CEITEC. Em 2022, O Globo classificou sua criação como um “delírio do nacional-desenvolvimentismo” e tratou como “devaneio” a ideia de considerar estratégica para o Brasil a fabricação de semicondutores. A ironia é evidente. Enquanto setores brasileiros explicavam que produzir semicondutores era uma fantasia nacionalista, Estados Unidos, União Europeia, China, Coreia do Sul, Japão e outras potências despejavam recursos públicos justamente para garantir capacidade nacional de produção. Para eles, estratégia; para nós, delírio. Para eles, soberania tecnológica; para nós, desperdício. Para eles, política industrial; para nós, atraso.
Essa é uma velha doutrina brasileira. Segundo ela, o Brasil pode plantar soja, extrair minério, produzir petróleo e exportar celulose. Mas, quando pretende dominar uma tecnologia sofisticada, surge imediatamente uma legião de homens sensatos para explicar que estamos sonhando demais. O Brasil pode comprar chips; fabricá-los seria pretensão. Pode consumir tecnologia; produzi-la seria aventura. Pode financiar a indústria dos outros por meio das importações; financiar a construção da própria capacidade industrial seria irresponsabilidade fiscal.
Essa mentalidade não nasceu com a CEITEC. Ela atravessa a história brasileira. Direitos trabalhistas foram apresentados como ameaça às empresas, o salário mínimo seria excessivo, as férias remuneradas custariam caro, o décimo terceiro seria um desastre e a industrialização brasileira foi tratada muitas vezes como artificial. Agora querem convencer o país de que participar da indústria mundial de semicondutores é uma extravagância tropical. As grandes potências, porém, não receberam esse memorando. Os Estados Unidos subsidiam fábricas, a Europa subsidia fábricas, a China subsidia fábricas e os países asiáticos tratam semicondutores como assunto de Estado. Quando chega a vez do Brasil, aparecem os sacerdotes da austeridade para explicar que o melhor projeto industrial brasileiro é comprar aquilo que os outros produzem.
Há coerência nisso: é a coerência de um projeto de país. Um Brasil fornecedor de matérias-primas, consumidor de tecnologia, formador de engenheiros para trabalhar em empresas estrangeiras e comprador de máquinas que não fabrica. Um Brasil que paga royalties pelas tecnologias que não desenvolveu e que, diante de cada nova fronteira tecnológica, pergunta quanto custa entrar, mas ignora quanto custará ficar de fora.
Por isso, a discussão sobre a CEITEC não pode ser reduzida à contabilidade simplória de quanto dinheiro público entrou na empresa. A CEITEC deve ser cobrada, apresentar resultados, melhorar a produtividade, estabelecer metas, justificar investimentos e ser administrada com rigor. Justamente por pertencer ao povo brasileiro, precisa responder ao interesse público. Mas existe uma pergunta anterior a todas essas: o Brasil quer dominar alguma parte da cadeia mundial de semicondutores ou decidiu continuar comprando dos outros aquilo que considera sofisticado demais para produzir?
Essa é a discussão. O resto é contabilidade sem projeto nacional.
Por fim, convém lembrar aquilo que frequentemente desaparece quando a CEITEC é reduzida à caricatura de uma aventura estatal. A empresa construiu um respeitável portfólio de produtos em RFID — identificação por radiofrequência —, depositou mais de 40 patentes nacionais de circuitos integrados e entregou ao mercado mais de 130 milhões de chips, entre outros resultados. Seu chip veicular chegou a ocupar mais de 50% do mercado nacional e está presente em tags de pedágio e estacionamento oferecidas por instituições como Nubank e C6 Bank. Não se trata, portanto, de uma fábrica imaginária, de um laboratório sem produtos ou de uma ideia que jamais ultrapassou os gabinetes de Brasília. Existe conhecimento acumulado, propriedade intelectual, infraestrutura industrial, profissionais especializados e tecnologia brasileira efetivamente colocada no mercado.
Agora, a CEITEC se prepara para uma nova rota tecnológica, voltada ao carbeto de silício (SiC) e ao mercado de semicondutores de potência, componentes cada vez mais relevantes para veículos elétricos, geração e conversão de energia, indústria e sistemas que exigem maior eficiência energética. É um mercado em expansão no qual a fábrica brasileira reúne condições para disputar espaço em uma fronteira tecnológica que ainda está sendo construída.
É justamente aí que está o ponto que certos editoriais insistem em não compreender. A questão nunca foi saber se o Brasil produzirá todos os chips de que necessita. Nenhum país sério formula sua estratégia industrial dessa maneira. A questão é decidir se teremos capacidade tecnológica própria em segmentos nos quais podemos competir, formar pessoas, desenvolver propriedade intelectual, produzir e avançar na cadeia de valor — ou se aceitaremos, mais uma vez, que nosso papel seja apenas comprar a tecnologia desenvolvida pelos outros.
A CEITEC precisa ser cobrada por resultados, eficiência e competitividade. Mas precisa ser julgada pelo que produziu, pelo conhecimento que acumulou e, sobretudo, pelo que pode entregar ao país a partir da infraestrutura que o Brasil já construiu.
Por isso, depois de tudo, talvez devamos realmente agradecer ao editorial de O Globo.
Afinal, o jornal que considerou o décimo terceiro salário um desastre, apoiou o golpe de 1964, hesitou diante das Diretas Já e carrega em sua história as controvérsias do Proconsult e da edição do debate presidencial de 1989 agora nos assegura que produzir semicondutores no Brasil é um “delírio”.
Que seja.
Guardemos mais este editorial.
A CEITEC fica com seus chips, suas patentes, seus engenheiros, sua fábrica e a tarefa de provar que o Brasil também pode produzir tecnologia.
E deixemos a O Globo aquilo que a história tantas vezes lhe reservou: o direito de explicar, alguns anos depois, por que estava errado.
Lucas Tedesco – Bacharel em Comunicação Social pela UFSM e formando em Direito pela UFRGS. Atua na área pública com experiência em comunicação institucional e governança.
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