O mundo avançou na redução das desigualdades entre homens e mulheres, mas em velocidade insuficiente para produzir uma mudança estrutural. É o que mostra a edição de 2026 do Global Gender Gap Report, do Fórum Econômico Mundial. Segundo o levantamento, 69,2% da lacuna global de gênero já foi fechada. O problema é a velocidade: mantido o ritmo atual, a paridade ainda levaria 120 anos para chegar.
O maior descompasso aparece na dimensão política. Entre os quatro eixos analisados pelo relatório: participação econômica, educação, saúde e sobrevivência e empoderamento político, este último é o que mais se afasta da paridade. Apenas 22,1% da diferença entre homens e mulheres foi eliminada.
O relatório acrescenta uma dimensão importante à análise ao observar não apenas quantas mulheres chegam aos governos, mas também quais posições ocupam dentro deles.
O avanço da representação feminina não se traduz na mesma medida em influência política
No cenário global, o número de ministérios comandados por mulheres cresceu 26% desde 2008. O avanço, porém, não alterou na mesma proporção a distribuição das áreas de maior influência. O Fórum considera critérios como visibilidade, orçamento, recursos e proximidade com o Executivo. Nesse recorte, apenas uma em cada dez pastas ocupadas por mulheres é classificada como de alta influência. Em 2026, os homens ocupam quase o dobro de ministérios nessa categoria.
Brasil avança em 20 anos, mas recua no último ano
O Brasil aparece em 72º lugar entre 145 economias, com 71,5% da lacuna de gênero fechada. O resultado representa uma queda de 0,4 ponto percentual em relação à edição anterior.
Na educação, o país mantém pelo segundo ano consecutivo a paridade completa. Na saúde e sobrevivência, fechou 97,7% da diferença. Na participação econômica, alcançou 66,6%, praticamente no mesmo nível do ano anterior.
É na política que a trajetória brasileira se torna mais contraditória. Em duas décadas, o indicador de empoderamento político avançou 15,8 pontos percentuais. A paridade no Parlamento passou de 9,4%, em 2006, para 20,7%, em 2026. Entre os ministros, o indicador de paridade subiu de 12,9% para 40,9%.
No último ano, porém, o movimento perdeu força. O indicador caiu 2,1 pontos percentuais, e o Brasil passou do 70º para o 72º lugar nessa dimensão. Em 2026, o país fechou 21,8% da lacuna de empoderamento político.
A tendência aparece também no cenário internacional. A representação feminina nos legislativos avançou de forma gradual desde os anos 1970, e mais de 80% das economias analisadas adotaram cotas de gênero desde 1995. Ainda assim, a presença das mulheres nos postos de maior influência política permanece limitada.
No setor privado, a diferença aparece ao longo da carreira. Dados analisados pelo Fórum em parceria com o LinkedIn mostram que as mulheres representam 46% das posições de entrada, mas apenas 23% dos cargos de nível C-suite. A participação feminina também cai de 41,8% no mercado de trabalho para 29,6% nos postos de alta gestão.
É diante desse ritmo que o Fórum projeta 120 anos até a paridade. O prazo não decorre da ausência de avanços, mas do ritmo em que eles acontecem. O Brasil mostra que a estrutura pode se mover: em 20 anos, o indicador de paridade parlamentar mais que dobrou e o de paridade entre ministros mais que triplicou. Os dados mais recentes, porém, mostram que essa trajetória não é linear.
A paridade passa não apenas pela entrada de mais mulheres na política e no mercado de trabalho, mas também pelo acesso aos espaços de maior influência.