
Um relatório sigiloso da Polícia Federal citou o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, candidato do União Brasil ao governo da Bahia, como líder de uma organização criminosa voltada à obtenção de recursos públicos por contratos superfaturados. O documento integra a investigação da Operação Overclean sobre direcionamento de licitações e fraudes em contratos em Minas Gerais ligados ao empresário Marcos Moura, conhecido como Rei do Lixo. No entanto, as ações ficaram travadas após determinações do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Os investigadores afirmaram que a análise das oito fases da operação levou à conclusão de que ACM Neto exerceria a liderança do grupo. “Ao analisarmos todo o conjunto probatório reunido nas oito fases da Operação Overclean, conclui-se que ACM Neto exerce a função de liderança da organização criminosa constituída para obtenção de recursos públicos a partir de contratos públicos superfaturados”, diz o relatório.
A PF apontou registros no celular de Marcos Moura que indicariam 232 conversas entre o empresário e ACM Neto de agosto a dezembro de 2024. Para os delegados, os contatos “reforçam a intensa relação entre os dois”.
A apuração mira contratos da Prefeitura de Belo Horizonte, especialmente na área municipal de Educação, entre abril de 2024 e abril de 2025. A suspeita envolve a infiltração de integrantes do grupo em postos da administração para direcionar licitações e contratações de ao menos seis empresas fornecedoras de materiais e serviços.

PF pediu buscas e bloqueio de R$ 77,8 milhões
Marcos Moura e outras 24 pessoas foram indiciados na investigação sobre desvios de verbas públicas provenientes de emendas parlamentares. A PF estima que o esquema tenha movimentado cerca de R$ 1,4 bilhão em contratos fraudulentos e cita movimentações de dinheiro em espécie transportado em malas em aeronaves fretadas.
No relatório, os investigadores sustentaram que, após o fim do mandato de ACM Neto na Prefeitura de Salvador, o grupo teria ampliado sua atuação para Belo Horizonte em 2024. A PF relacionou essa expansão à ocupação de postos considerados estratégicos na administração municipal mineira.
A Polícia Federal pediu ao ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, autorização para fazer buscas e apreensões contra ACM Neto e bloquear até R$ 77,8 milhões em bens e valores. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, concordou com a representação e afirmou que havia elementos consistentes sobre materialidade e autoria dos crimes investigados.
Nunes Marques autorizou medidas contra auxiliares e assessores, mas rejeitou os pedidos dirigidos a ACM Neto por entender que a PF não apresentou indícios suficientes para justificá-los. Em nota, a assessoria do político negou envolvimento e afirmou haver uma “tentativa de interferir no processo eleitoral com a criação e divulgação de factoides e insinuações mentirosas e falsas”.