Uma escolha nada difícil
Em 2018, o Estadão chamou de “muito difícil” escolher entre Haddad e Jair Bolsonaro. Agora, alerta para os riscos de Flávio, que aparece tecnicamente empatado com Lula nas simulações de segundo turno.
Por Gustavo Tapioca
Em entrevista ao Canal Livre, Lula disse acreditar na vitória no primeiro turno e lançou um desafio aos eleitores: comparar biografias, experiência e realizações. É um critério simples. Na reta final da campanha, porém, a comparação precisa incluir também as propostas e os compromissos que cada candidato já assumiu.
Uma reportagem de Jamil Chade, publicada no ICL, acrescenta uma dimensão decisiva a essa escolha. Generais e militares do alto escalão relataram preocupação com o alinhamento que Flávio Bolsonaro promete aos Estados Unidos de Donald Trump.
Segundo a reportagem, eles temem que a adesão ao projeto norte-americano de combate ao narcotráfico desvie as Forças Armadas de sua missão de defesa nacional, exponha informações estratégicas e enfraqueça a indústria bélica brasileira.
Não é uma manifestação oficial das Forças Armadas, nem permite atribuir uma posição a todos os militares. É o relato de uma inquietação dentro da caserna — inclusive entre setores nacionalistas e conservadores — diante de propostas públicas de Flávio.
Entreguismo
Flávio prometeu incluir o Brasil no Escudo das Américas, coalizão de países latino-americanos e caribenhos liderada pelos Estados Unidos de Trump. Também ofereceu ao Departamento de Estado dos Estados Unidos espaço em sua equipe de transição, caso eleito.
O candidato quer aproximar a política de defesa brasileira de um projeto concebido em Washington. A pergunta não é se o Brasil deve cooperar com outros países contra o crime. Deve. A pergunta é quem define os termos da cooperação e quem conserva o comando sobre o território, as informações e as prioridades nacionais.
Os militares ouvidos por Chade temem que colocar as Forças Armadas no combate direto ao narcotráfico — e aderir à agenda de combate a grupos que Washington classifica como narcoterroristas — reduza a atenção à proteção das fronteiras e do território.
A preocupação alcança a indústria de defesa: sem capacidade própria de produzir equipamentos e tecnologia, a soberania corre o risco de virar uma palavra sem conteúdo.
Compare as biografias
Lula acumulou três mandatos na Presidência. Geraldo Alckmin, seu vice, governou São Paulo por quatro mandatos. Flávio construiu uma trajetória parlamentar, marcada por controvérsias que ainda exigem explicações, mas nunca chefiou uma prefeitura ou um governo estadual.
Essa diferença de experiência executiva não encerra o debate; torna ainda mais necessário examinar o que cada um pretende fazer com o poder. Na matéria publicada nesta terça-feira, 29, pelo Brasil 247, Lula pede que os eleitores olhem para o que foi realizado. A reportagem do Platô acrescenta novas perguntas à comparação.
Uma biografia que exige explicações
Em reportagem publicada hoje, 29, pelo Platô, Rodrigo Rangel relata ter examinado documentos, mensagens e registros guardados por Alexandre Santini, ex-sócio de Flávio numa loja de chocolates. Os dois estavam em disputa financeira: Santini cobrava do senador um acerto de contas.
Segundo o Platô, uma nota fiscal registra a compra, em 2022, de um Rolex de ouro branco por R$ 305 mil. O advogado e lobista Alan Belaciano pagou pelo relógio, que, conforme as mensagens e os registros apresentados pela reportagem, era destinado a Flávio.
Mais grave é a acusação atribuída a Santini: Flávio teria tratado diretamente com o ministro Kassio Nunes Marques de um interesse de cliente que tinha processo no gabinete do magistrado. A reportagem reproduz a mensagem em que o ex-sócio faz a acusação e a resposta de Flávio marcando uma reunião. Isso não prova, por si só, que houve lobby junto ao ministro ou favorecimento em um processo. Exige, porém, resposta clara dos envolvidos e apuração independente.
Os detalhes da vida íntima narrados na reportagem não são o que deve orientar o voto. O interesse público está em saber quem pagou despesas e presentes de alto valor e se houve tentativa de levar interesses privados ao gabinete de um ministro do Supremo.
Flávio deve ser cobrado pelo que promete e também pelas perguntas levantadas sobre sua trajetória. Oferecer a uma potência estrangeira lugar na transição de governo e alinhar a defesa brasileira ao Escudo das Américas são compromissos políticos. As revelações do Platô acrescentam questões sobre relações com lobistas e acesso ao Supremo.
Perguntas graves
Não é preciso adivinhar o que aconteceria depois da eleição. As declarações do candidato estão registradas. Tampouco é necessário tratar como certeza os temores relatados por militares nem como provada a acusação de lobby. Basta reconhecer que são perguntas graves, que não podem ser adiadas para depois do voto.
Quem comandará a política de defesa do Brasil? Quem decidirá onde, quando e como nossas Forças Armadas atuarão? O que será da indústria nacional de defesa? Houve tentativa de intermediação em favor de um cliente junto a um ministro do Supremo? E por que um governo estrangeiro deveria participar da transição de um governo eleito pelos brasileiros?
Uma escolha muito difícil?
Em 2018, o Estadão chamou de “muito difícil” a escolha entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro. O Brasil elegeu Jair. Em 2022, os eleitores escolheram Lula.
Depois do governo desastroso de Bolsonaro, da tentativa de golpe e da condenação do ex-presidente a 27 anos e três meses de prisão, o próprio Estadão publicou editoriais alertando para a trajetória de seu filho. Nenhum repetiu o título de 2018.
As pesquisas de segundo turno apontam empate técnico entre Lula e Flávio. Depois de comparar as biografias e as propostas, a escolha de 2026 ainda é muito difícil?
Gustavo Tapioca – Jornalista. Ex-diretor do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás. Consultou do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Autor de “Meninos do Rio Vermelho” e de “Entre o golpe e a eleição“.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “