Papa diz que uso da fé pela extrema direita não é expressão do cristianismo

O papa Leão XIV rejeitou a tentativa da extrema direita de revestir o ódio e a intolerância com aparência cristã. Ao comentar o avanço do extremismo na Alemanha, o pontífice afirmou que a associação entre posições de extrema direita e determinadas interpretações religiosas “não constitui uma expressão autêntica do cristianismo”.

A declaração foi dada nesta segunda-feira (28), durante o voo de retorno ao Vaticano, depois de uma visita de quatro dias à França. 

Questionado sobre o crescimento da extrema direita alemã, Leão XIV lembrou que lideranças católicas e protestantes do país já condenaram o uso da religião para sustentar projetos extremistas.

“Os valores do Evangelho não dizem respeito ao ódio e à divisão, mas à compreensão, à compaixão e ao acompanhamento”, afirmou. O papa também defendeu que as igrejas incentivem a participação política voltada ao bem comum e ajudem os cidadãos a reconhecer os danos provocados pelo extremismo.

A principal força da extrema direita alemã é a Alternativa para a Alemanha (AfD), partido nacionalista, racista e contrário à imigração. 

A legenda recebeu 20,8% dos votos nas eleições federais de 2025 e ficou em segundo lugar. Neste mês, venceu a disputa estadual na Saxônia-Anhalt com cerca de 44% e também terminou em primeiro lugar em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.

A AfD é monitorada pela inteligência alemã por suspeitas de extremismo de direita. Apesar do crescimento eleitoral, permanece isolada pelos principais partidos do país, que mantêm o compromisso de não formar alianças com a legenda.

A advertência do papa foi dirigida à Alemanha, mas alcança uma prática conhecida no Brasil, onde o bolsonarismo transformou a fé em instrumento político para dividir a sociedade entre supostos representantes de Deus e seus inimigos.

A estratégia reapareceu na campanha presidencial deste ano. Em vídeo divulgado em 23 de agosto, Flávio Bolsonaro afirmou que, se eleito, decretaria “Jesus Cristo o Senhor do Brasil”. 

A declaração alarmou setores da Igreja Católica por ferir o caráter laico do Estado e reforçar a ideia de que uma corrente religiosa pode falar em nome de toda a população.

Mais recentemente, o candidato da extrema direita atacou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e acusou a entidade, sem apresentar provas, de participar da divulgação de informações falsas. 

A Igreja Católica acompanha há anos o avanço de discursos que atacam outras religiões, acusam católicos de idolatria e defendem a ocupação do Estado por grupos religiosos.

Na França, Leão XIV também confrontou outras bandeiras abraçadas pela extrema direita europeia. Defendeu o acolhimento e a integração dos imigrantes, pediu a criação de rotas migratórias legais e seguras e criticou o aumento dos gastos militares. 

“Devemos nos precaver contra a ilusão de que o rearmamento seja a resposta”, declarou.

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