Padre baiano diz que “ser comunista é coisa boa” e critica rachadinhas

“Ser comunista é coisa boa, porque é gente que pensa no bem comum, não é gente egoísta”. Há palavras que, no calor do púlpito, ganham contornos de manifesto. Na Bahia, o padre Gilvânio Cardoso, da Diocese de Livramento de Nossa Senhora, transformou uma homilia em uma aula de cidadania e em uma defesa intransigente do serviço público.

Ao ser questionado sobre os ataques dirigidos ao seu bispo, dom Vicente de Paula Ferreira, o sacerdote não recuou. Pelo contrário, abraçou o rótulo pejorativo e o ressignificou, conforme registrado em vídeos da celebração.

A teologia do bem comum

O episódio ocorreu ao final da missa em honra a Nossa Senhora do Livramento, em 15 de agosto, quando dom Vicente foi alvo de críticas nas redes sociais por suas reflexões sobre a simbologia do demônio e a consagração a São Miguel Arcanjo. Em vez de ignorar as ofensas, o padre Gilvânio foi direto ao ponto. “Dom Vicente sofreu muitos ataques, inclusive chamando de comunista. E eu vou dizer o que é comunismo para vocês”, iniciou, desmontando a caricatura ideológica com um argumento pragmático: “Comunismo não é ideologia, é economia”.

Para o sacerdote, a prova desse “bem comum” está no cotidiano do povo brasileiro. Ele questionou a plateia: “Vocês pagam para ir lá na UPA? Vocês pagam para estudar? O SUS, pagam? Porque é comum a todos. Isso é que é comunismo”. A fala, analítica e direta, conecta a doutrina social da Igreja à realidade dos serviços públicos universais, lembrando que a existência de direitos básicos não é um favor, mas um dever do Estado.

A definição apresentada pelo padre é uma interpretação própria do conceito de comunismo. Historicamente, o termo designa um conjunto de correntes político-econômicas muito mais amplo do que a noção de serviços públicos compartilhados utilizada em sua fala.

O imposto é do povo, não do “malandro”

A reflexão ganha contornos de denúncia social quando o padre avança para o uso do dinheiro público. Com a clareza de quem conhece o valor do suor dos fiéis, Gilvânio estabeleceu um vínculo direto entre os tributos pagos e a obrigação do retorno social. “O governo devolve em benefício ao povo aquilo que nós pagamos pelos impostos. Impostos são caixa comum e é do povo”, afirmou.

Foi nesse momento que a homilia transcendeu a defesa do bispo e mirou o coração da corrupção sistêmica. “Portanto, imposto não é para rachadinha, nem para orçamento secreto. Isso é coisa de malandro que faz isso. Entenderam?”, completou o sacerdote, em uma crítica frontal aos mecanismos de desvio de recursos que andaram assolando a política nacional

O vídeo, que voltou a circular recentemente nas redes sociais, serve como um termômetro do clima político e religioso no país, especialmente envolvendo os Bolsonaros e seu PL do orçamento secreto. O próprio candidato presidencial Flávio Bolsonaro esteve mergulhado num escândalo de rachadinhas.

No fim, a fala do padre Gilvânio Cardoso não é apenas um ato de coragem eclesiástica, mas um espelho posto diante da sociedade. Ele nos lembra que a política, em sua essência mais nobre, deve ser a gestão do “comum”. E se pensar no bem de todos, garantir saúde e educação públicas e exigir a transparência do dinheiro do povo faz de alguém um “comunista”, então, como disse o sacerdote, talvez seja hora de reconsiderar o significado das palavras. Ou, quem sabe, de simplesmente fazer o que é certo.

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