A propósito de p o n t u a ç ã o (1), por Walnice Nogueira Galvão

A propósito de p o n t u a ç ã o (1), por Walnice Nogueira Galvão

Para analisar a pontuação, nada melhor que  ter como guia um belo ensaio de T. W. Adorno.

Ele, sempre sombrio e pessimista (se é que está escrevendo “depois de Auschwitz”, em suas próprias palavras): mas vejam a alegria, o senso de humor e o brio de “Sinais de pontuação” ( Notas de literatura). O ponto de exclamação é “um indicador ameaçadoramente erguido”; a interrogação é como “luzes intermitentes ou um baixar de pálpebras”; os dois pontos abrem a boca e cabe ao escritor saciá-la; o ponto-e-vírgula recorda “bigodes pendurados” e tem “violento sabor”; as vírgulas “passam a língua pelos lábios”, mostrando-se “satisfeitas”.

Mas isso ainda não é tudo: os sinais de pontuação (na sintaxe, na frase) não passam de sinais de tráfego da linguagem. Aliás, os sinais de tráfego se inspiraram nos sinais de pontuação: os pontos de exclamação são a luz vermelha do semáforo, os dois pontos o verde, os travessões dão ordem de stop. Não estão a serviço da relação do texto com o leitor, são antes “sinais de dicção ou elocução”. Isto é, servem “hieroglificamente” ao tráfego interno da própria linguagem. Adorno também desenvolve analogias com a música, seu grande tema.

Alguns comentários sobre as cartas de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, à luz de Adorno, iluminam uma ausência:

Aviso preliminar: não é porque sejam grandes escritores que suas cartas estão à altura de suas obras. Um bom exemplo é o de Proust e Flaubert: Flaubert escreve muito menos cartas mas discute sua literatura com inteligência e pertinência. Proust, cuja correspondência foi reunida em 21 volumes (é uma das maiores que existem), só fala bobagem, frivolidade e leviandades.  Guimarães Rosa  discute muito sua literatura, Euclides jamais fala dela. Quando pesquisar correspondência de escritores, prepare-se para a decepção.

*  *  *

No caso de Euclides, são cerca de 400 cartas, às quais dediquei especificamente 7 anos de trabalho, e isso após ter realizado por outros 8 anos a Edição Crítica de Os sertões. Para a Edição Crítica, as cartas foram muito úteis e no próprio processo de preparação fui utilizando cartas e juntando cartas. A própria epígrafe da Edição Crítica é uma carta. Depois que a terminei, era mesmo inevitável que preparasse uma edição da correspondência.

Como demonstrou a pesquisa, as fontes eram numerosas, até excessivas: revistas, jornais, panfletos, cópias em coleções particulares, alguns originais, livros, relatórios, cartas de terceiros, arquivos privados e públicos, alguns até no exterior etc.

Nos longos anos tomados pelo preparo da Edição Crítica, fui-me familiarizando com o precioso auxiliar que é a correspondência. E me deparei com o desastroso estado em que se encontrava.

No início, as cartas de Euclides, após sua morte, foram publicadas regularmente em duas revistas, a do Grêmio Euclides da Cunha e a da Academia Brasileira de Letras. Ambas as instituições colecionavam as cartas e solicitavam doações a seus possuidores.

Essa correspondência tinha-se constituído por acervos, ou seja, conforme o destinatário, e aos poucos. Alguns acervos ainda se encontravam inéditos, porque os destinatários, ou seus herdeiros, manifestavam intenção de publicá-los e por isso não os cediam. Em 1966, saíra pela primeira vez uma Obra Completa publicada pela Aguilar, incluindo a seção Epistolário, que juntava os vários acervos até então dados à luz: não só os do Grêmio e da Academia, como vários outros que tinham sido estampados em edições especiais de periódicos.

Quando saiu a Correspondência por mim preparada, pôde-se constatar que as duas maiores novidades da pesquisa epistolográfica se encontravam nas duas extremidades da vida de Euclides. Uma é o bloco da correspondência com um de seus mais assíduos correspondentes, Reinaldo Porchat, amigo de juventude, que por coincidência viria a ser o primeiro reitor da USP (que a essa altura ainda nem existia): Euclides morreu em 1909 e a USP seria fundada em 1934. A família finalmente cedeu e autorizou a publicação. A outra é a edição corrigida, ordenada, datada e completada do acervo pertencente a Oliveira Lima, datando de seus últimos anos.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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