
Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
Atire a primeira pedra quem nunca ligou desesperadamente para alguém querido, na esperança de ter um pedido atendido ou na expectativa de não ser passado para trás. O desespero tem som, e ele se parece muito com o toque de um celular chamando no vazio.
Nos quatro dias que antecederam a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, em 17 de novembro do ano passado, o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro protagonizou uma insistente via crúcis telefônica. O parlamentar não apenas enviou mensagens perguntando se o dono do Banco Master poderia atender a uma ligação, como também efetuou chamadas que foram sumariamente ignoradas. E, no fim das contas, implorou para que o banqueiro lhe desse “uma luz”.
Reportagem de Aguirre Talento, no jornal O Estado de S.Paulo de hoje, mostra que a Polícia Federal, ao extrair os dados do celular de Vorcaro, revelou os detalhes dessa angústia.
O roteiro começou no dia 13 de novembro de 2025, às 9h13, com um animado “Fala mermão! Bom dia! Pode atender?”. Sem sucesso, Flávio deixou uma chamada perdida no dia 14. No dia 15, após o banqueiro dar uma desculpa envolvendo trânsito e voo, o senador repetiu a ladainha: “Pode atender?”.
O ápice da humilhação ocorreu no dia 16, véspera da prisão. Vorcaro usou a ida à igreja como justificativa para não falar, o que arrancou de Flávio uma declaração de lealdade digna de novela: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs”.

No fim da tarde do dia seguinte, a única luz que Vorcaro viu foi a da Polícia Federal chegando, que o prendeu no Aeroporto de Guarulhos enquanto ele tentava fugir para o exterior.
O que motivava tamanha fixação do senador em falar com um banqueiro investigado, cujos indícios de crimes na gestão do Banco Master já eram públicos na reta final daquelas investigações? Dinheiro, claro. As mensagens recuperadas mostram que, desde meses antes, Flávio cobrava repasses de Vorcaro, em tese para financiar o filme “Dark Horse”, uma obra sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas a Polícia Federal investiga se a grana não foi usada para seu irmão conspirar contra o Brasil junto ao governo Trump nos Estados Unidos — traição que gerou o primeiro tarifaço.
Em setembro de 2025, o senador já havia mandado áudios reclamando que tinha “muita conta pra pagar” e que precisava honrar compromissos para não perder atores, diretor e equipe do projeto.
Não se sabe se o senador queria apenas cobrar os milhões do banqueiro ou também convencê-lo a não delatá-lo caso preso fosse.
E enquanto Flávio jurava estar com o “irmão” para sempre, o banqueiro estava mais preocupado em traçar seu plano de fuga do Brasil e enviar mensagens ao ministro Alexandre de Moraes questionando se precisava estar fora do país.
Mais do que o ghosting e a humilhação de implorar para o bandido-Master do país lhe dar um “oi”, deve ter doído descobrir depois quem era o verdadeiro objeto de desejo de Vorcaro. Pois Flávio implorava pela luz de Vorcaro, que implorava pela luz de Moraes.