Democratas acusam Trump de interferir no Brasil e pedem respeito ao resultado eleitoral

Um grupo de 31 parlamentares dos Estados Unidos enviou, na quarta-feira (24), uma carta oficial ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, acusando o governo de Donald Trump de promover um esforço coordenado para interferir nas eleições brasileiras marcadas para 04 outubro, o primeiro turno.

O documento foi publicado no site da Câmara dos Representantes pela deputada Delia Ramirez (Illinois), que liderou a iniciativa. A carta conta com as assinaturas do senador independente Bernie Sanders, da deputada Alexandria Ocasio-Cortez, conhecida como AOC, e de outros 29 congressistas democratas.

Eles expressam ​em documento formal a “grave preocupação” com a campanha “sustentada e multifacetada de interferência e desestabilização” da administração Trump vcontra a “segunda maior democracia do Hemisfério Ocidental”.

Os signatários exigem respostas substantivas do Departamento de Estado até o dia 1º de outubro, prazo estipulado a apenas três dias do primeiro turno.

Ações de desestabilização

Os parlamentares fundamentam a denúncia numa série de medidas concretas tomadas por Washington. Entre elas, citam o pacote de tarifas e sanções aplicado em 2025, diretamente associado por Trump em declarações públicas ao julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF). Também ressaltam as sanções impostas ao ministro Alexandre de Moraes, a nomeação de Darren Beattie para a pasta responsável pelo Brasil no Departamento de Estado e o encontro de Flávio Bolsonaro com Trump no Salão Oval da Casa Branca, evento seguido pela designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras.

O documento relembra ainda a tentativa de envio dos emissários norte-americanos Riley Barnes e Samuel Samson ao território brasileiro, que tiveram seus vistos negados pelo Itamaraty, além da revogação do visto da embaixadora do Brasil em Washington.

Diante desse cenário, a correspondência questiona formalmente se a diplomacia estadunidense assumirá o compromisso de respeitar o processo eleitoral brasileiro, classificado no texto como “um dos mais seguros e confiáveis do mundo”, além de exigir o reconhecimento do resultado que for certificado ao fim do pleito, “qualquer que seja o candidato legitimamente escolhido”.

O grupo cobra também a demonstração dos critérios jurídicos da Lei Magnitsky aplicados contra Moraes e a apresentação da base legal utilizada para enquadrar as facções criminosas brasileiras na legislação antiterrorista.

Antecedentes

Em 6 de maio, a própria deputada Delia Ramirez, acompanhada por James McGovern e outros congressistas, já havia enviado uma representação a Rubio alertando que a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas poderia ser instrumentalizada para influenciar a disputa política no Brasil.

Posteriormente, em junho, uma carta oficial de Rubio endereçada a Flávio Bolsonaro registrou a “oferta generosa” de apoio para uma equipe de transição na hipótese de vitória do senador, documento que foi protocolado pelo PT junto à Procuradoria-Geral Eleitoral.

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Até a quinta-feira (25), o Departamento de Estado norte-americano não havia respondido oficialmente à carta enviada pelos congressistas.

Histórico Imperialista

A Estratégia de Segurança Nacional divulgada pela Casa Branca em novembro de 2025 proclamou abertamente o chamado “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, que busca restaurar a “preeminência americana” sobre o continente, bloquear a presença econômica da China em portos e infraestruturas estratégicas e autorizar o uso de força letal contra cartéis na região.

Essa orientação já se manifestou na prática no endosso público de Trump a candidaturas conservadoras como a de Nasry Asfura, em Honduras, e a de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, além das pressões diplomáticas sobre o Canal do Panamá que resultaram na anulação de concessões de uma empresa de Hong Kong.

O movimento culminou, em 3 de janeiro de 2026, na chamada Operação Absolute Resolve, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro em Caracas.

Trata-se de uma linha de atuação que resgata métodos históricos documentados em arquivos oficiais desclassificados do governo estadunidense: o golpe de Estado na Guatemala em 1954 (Operação PBSUCCESS), a tentativa de invasão da Baía dos Porcos em Cuba, o apoio direto à ditadura militar no Brasil por meio da Operação Brother Sam em 1964, as ordens do presidente Richard Nixon para “fazer a economia gritar” no Chile de Salvador Allende, a articulação da Operação Condor, o financiamento aos Contras na Nicarágua e a invasão do Panamá em 1989.

Ao exigir garantias sobre o respeito às urnas brasileiras, a carta apresentada pelos democratas revela e registra as ações concretas dos EUA de ingerência contra a soberania e a democracia na América Latina.

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