
A Meta desabilitou temporariamente a página de Lula (PT) no Facebook e restringiu o uso da conta. A empresa impediu a campanha de fazer novos anúncios na plataforma a dez dias do primeiro. A decisão já foi revertida, mas a empresa não explicou o motivo da suspensão.
O secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares, afirmou nesta quinta-feira (24) que a campanha já interpelou a empresa e estuda acionar o Tribunal Superior Eleitoral para obrigá-la a explicar por que tomou a medida, quanto tempo ela durou e qual foi o prejuízo provocado.
Segundo a Folha de S.Paulo, a Meta afirmou que a página foi restabelecida ainda na quarta-feira (23), mas não informou o motivo da suspensão. Na notificação enviada à empresa, os advogados da campanha disseram que a desabilitação ocorreu de maneira unilateral e sem justificativa objetiva. Para o PT, a restrição produziu uma interferência concreta na campanha porque impossibilitou a veiculação de novas peças publicitárias durante sua vigência.
O episódio se soma a outras decisões recentes da Meta que atingiram conteúdos politicamente sensíveis à direita e depois foram revertidas. Na própria quarta-feira, o Instagram restaurou o perfil da série “Revelando Brasil” após derrubá-lo enquanto viralizava um episódio apresentado por Fabio Porchat sobre as conexões entre Daniel Vorcaro, a Igreja Batista da Lagoinha e figuras como Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira. A empresa pediu desculpas após uma revisão interna, mas não informou qual regra havia causado a retirada inicial.
A sucessão de episódios alimenta a acusação de que erros, bloqueios e decisões de moderação das plataformas têm produzido efeitos politicamente assimétricos. Éden afirmou que “as evidências de interferência estão todas aí” e disse que as campanhas não podem ficar sujeitas à “preferência política das Big Techs”.
Ontem a página do Presidente Lula no Facebook ficou desabilitada e a nossa conta de anúncios foi restringida. Já interpelamos a META para que explique o porquê dessa medida, por qual período, por quanto tempo esse erro nos prejudicou e estudamos acionar o TSE para obrigar a…
— Éden Valadares (@edenvaladares) September 24, 2026
Mark Zuckerberg, dono da Meta, é um dos bilionários que se aproximaram de Donald Trump, que afirmou nesta semana estar “nove em nove” nas eleições de candidatos que apoiou na América Latina, todos da extrema-direita. A própria Meta já foi alvo de acusações de agir de forma politicamente assimétrica no Brasil. Em agosto, derrubou sem aviso o perfil progressista Brasil Fora da Caverna, que tinha mais de 1,1 milhão de seguidores, e só restaurou a conta depois de pressão nas redes. Em 2025, Glauber Braga acusou Zuckerberg de dar uma “forcinha” a Nikolas Ferreira na disseminação das fake news sobre o Pix, episódio ocorrido logo após a empresa anunciar o fim de seu programa de checagem de fatos.
Além disso, a campanha de Flávio Bolsonaro e seus aliados conseguiu operar em grande escala dentro do próprio Instagram. A coligação de Lula acionou o TSE contra uma rede de “collabs” ligada à candidatura do PL que chegou a 1.826 publicações compartilhadas e 492 perfis. O tribunal abriu investigação e determinou a preservação de informações das contas.
Há ainda forte presença de propaganda bolsonarista paga nas plataformas. Dados da Biblioteca de Anúncios da própria Meta mostraram que três candidatos do PL gastaram juntos cerca de R$ 126 mil entre 1º e 21 de setembro para impulsionar publicações contra Lula no Instagram e no Facebook.
Cabe agora à Meta explicar por que a página foi desabilitada, por que a conta de anúncios sofreu restrição e quais garantias existem para impedir que decisões semelhantes voltem a interferir materialmente na disputa antes da abertura das urnas.