Eleições presidenciais no Brasil: uma questão nacional, democrática e popular.
por Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida
Por muito tempo se criticou, ao longo do século XX, a sedução das esquerdas pelo canto de sereia do nacionalismo. Porém, apesar de sua inegável importância, o alerta vinha acompanhado de um desprezo pelo que, grosso modo, se chama de questão nacional. Mais precisamente, de como articulá-la à luta pela democracia e por transformações sociais.
Mais tarde, na passagem dos anos 1980 para os 90, o campo ficou aberto aos ideólogos da globalização para quem, no novo mundo que se abria, tudo se desmanchava: Estado, território, soberania, classes sociais, nações. E não fazia mais sentido falar em imperialismo. Tudo teria ruído aos pés de uma grande vencedora: a democracia liberal.
Hoje, em tempos de profunda crise, a situação se inverte. O que parecia em extinção reaparece e a democracia liberal, que sobreviveria ao fim da História, vive profunda crise em todos os países do chamado Ocidente, seu lugar de nascença. Está em frangalhos. Por outro lado, a referência à crise do imperialismo ronda a boca do povo em quase todos os cantos do mundo.
Diferentemente das crises que levaram ao confronto de blocos imperialistas em duas guerras mundiais, estes, ao longo da Guerra Fria, se unificaram política e ideologicamente sob a hegemonia dos EUA, situação que, após o colapso do sistema soviético, parecia se consolidar ainda mais. Basta nos lembrarmos da ideologia do novo século americano que conferiu tonalidade épicas a aventuras desastradas como as invasões ao Iraque e ao Afeganistão sem qualquer imposição de uma ordem estável ao Oriente Médio. Pior: nestas duas décadas e meia do novo século, os aspectos internos da crise se manifestam com intensidade e profundidade cada vez maiores em todos os polos do sistema. Entre os aspectos desta crise se destacam o declínio da atividade econômica, o empobrecimento, a intensificação do racismo,o avanço da política e da ideologia neoliberais e, mais uma vez, em aparente contradição, o crescimento do fascismo. Tudo isso sob o peso de uma contradição potencialmente antagônica entre os EUA e a China.
Neste contexto, o governo dos EUA adota uma política constituída de, no mínimo, dois aspectos importantíssimos: um remanejamento das relações sociais internas à sociedade por meio da transfiguração da crise do capitalismo em problema étnico, o que, em nome do interesse nacional, joga trabalhadores/as contra trabalhadores/as; e tentativa de conquistar o controle econômico e político de todo o chamado hemisfério ocidental (as três Américas), no que busca o apoio de governos amigos seja qual for o regime político. Dois aspectos complementares são o enfraquecimento dos vínculos com os países da Europa Ocidental, o que passaria por algum tipo de entendimento com a Rússia; e uma ação conjunta com outros países, como a Índia, Japão e Austrália, para o enfrentamento econômico com a China na bacia do Indo-Pacífico.
Observe-se o contraste entre, neste último cenário, a ação conjunta e o tratamento do chamado hemisfério ocidental como espécie de reserva de caça dos EUA.
O segundo texto, datado de 16 de outubro de 2025, foi a primeira das recentes propostas de acordo tarifário com o Brasil. Publicado recentemente (16/09/26) por O Estado de S. Paulo e muito bem contextualizado por Felipe Frazão, seu conteúdo era extremamente lesivo a este país, o que teria como “retribuição” tarifas menos pesadas. As 21 exigências percorriam variadíssima gama de questões, desde a ausência de prisão, detenção ou impedimento de que “dissidentes políticos” (leia-se Jair Bolsonaro) se candidatassem à Presidência da República; o processo eleitoral fosse “justo e livre”, o que dificilmente coaduna com a oferta de dólares a cada eleitor caso candidatos de determinados partidos sejam eleitos; até o direito de os EUA aplicarem sanções financeiras em território brasileiro e uma espécie de vassalagem da política no que tange aos minerais de importância crítica.
O governo brasileiro reagiu com dignidade ao considerar as demandas inaceitáveis, o que levou a relações tensas com membros do executivo estadunidense, especialmente o Secretário de Estado Marco Rubio. Por meio do acesso ao mesmo link, é possível assistir a uma contestação sistemática do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, a argumentos formulados pela outra parte.
A disputa continua e, nela, a posição do candidato Flávio Bolsonaro tem adotado submisso alinhamento, inclusive fotográfico, com o presidente dos EUA, cuja posição tende a endurecer. Em suma,o que se configura é uma disputa em torno da capacidade de autodeterminação do Estado nacional brasileiro. Ou seja, estamos às voltas com uma questão nacional. Que, por sua vez, se articula à questão democrática devido, em primeiro lugar, ao forte avanço do fascismo; e também porque, sem aprofundamento da democracia, a soberania estatal tende a potencializar as condições internas (e externas) de opressão e exploração do povo. Enfim, é uma questão socioeconômica pois recoloca em disputa uma política de desenvolvimento que, longe de privilegiar os interesses de uma ínfima minoria de financistas estreitamente ligados ao imperialismo, contemple as aspirações da imensa maioria de brasileiros e brasileiras por uma vida digna e rica em oportunidades para esta e as novas gerações.
Desde que não nos limitemos a votar, mas a participar ativamente da política, a vitória de Lula e Alckmin nestas eleições é uma aposta nas possibilidades de construirmos um presente e um futuro melhores para o Brasil e para boa parte do mundo.
Estas formulações foram escritas antes do discurso pronunciado hoje, 22 de setembro de 2026, pelo presidente Lula na Assembleia Geral da ONU, com nítida aprovação de boa parte do plenário. Não por mero acaso, foi visível o contraste, do início ao fim, com as posições expostas pelo orador subsequente, o governante dos EUA. Apresenta-se, nesta difícil conjuntura, uma oportunidade valiosa para se articular o nacional e o internacional na perspectiva de um país e um mundo melhores.
Referências
TRUMP, Donald (2025). https://www.opeu.org.br/2025/12/10/a-estrategia-de-seguranca-nacional-de-trump-2-0/
O Estado de S.Paulo (17/09/2026).
Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida – Professor e pesquisador
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