O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a ameaçar o uso da força militar na América Latina e no Caribe durante discurso nesta terça-feira (22) na abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Trump afirmou que os Estados Unidos poderão recorrer ao seu poderio militar para proteger interesses considerados vitais pela Casa Branca e também fez novas ameaças contra o Irã.
Em uma fala de cerca de 40 minutos, Trump citou as ações militares americanas na Venezuela e afirmou que os Estados Unidos não permitirão que ameaças à segurança do país se estabeleçam no hemisfério ocidental.
“Nossas ações na Venezuela provam que os EUA não permitirão mais que ameaças à América ganhem terreno em qualquer parte do Hemisfério Ocidental. E, se necessário, usaremos nosso poderio militar inigualável para garantir os interesses nacionais vitais dos EUA”, declarou.
Trump também mencionou México e Cuba. Sobre os mexicanos, afirmou manter boas relações com o governo da presidente Claudia Sheinbaum, mas disse ser inaceitável que os Estados Unidos tenham como vizinho um país que classificou como “epicentro da violência dos cartéis”.
“Portanto, o México deve retomar o controle de seu território das mãos dos inimigos da humanidade”, afirmou.
A declaração ocorre em meio à defesa, pelo governo mexicano, de que o combate ao narcotráfico não pode ser utilizado como justificativa para intervenções externas.
Venezuela
Ao abordar a Venezuela, Trump comemorou as ações realizadas pelos Estados Unidos no país e destacou o acordo envolvendo a indústria petrolífera venezuelana. Segundo ele, o entendimento firmado com a presidente encarregada Delcy Rodríguez garante a uma empresa ligada ao Pentágono o controle de até 21% do petróleo venezuelano.
“Foi uma guerra, mas talvez seja o maior negócio já realizado. Ao vencedor pertencem os espólios; todos vocês já ouviram isso”, afirmou.
A fala ocorre após a operação militar americana que, segundo a matéria, resultou na invasão da Venezuela e na captura do então presidente Nicolás Maduro. A justificativa apresentada pelo governo americano foi a acusação de que Caracas seria um “narcoestado”.
Após a prisão de Maduro, porém, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos retirou a acusação de que ele seria líder do chamado “Cartel de Los Soles”. A existência da organização também é objeto de controvérsia entre especialistas.
Na semana passada, os Estados Unidos retiraram a Venezuela da lista de países considerados grandes produtores ou pontos de trânsito de drogas que não cooperam no combate ao narcotráfico. O país estava nessa relação desde 2005.
Estado Islâmico
O presidente americano também voltou a comparar organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas na América Latina ao Estado Islâmico (ISIS), grupo extremista que surgiu no Iraque e na Síria.
“Acionei as Forças Armadas dos Estados Unidos para eliminá-los. Os cartéis são o ISIS do Hemisfério Ocidental”, declarou.
A associação entre cartéis e organizações terroristas tem sido utilizada por integrantes do governo Trump para justificar possíveis operações militares em países latino-americanos. Analistas citados pela Agência Brasil avaliam que essa classificação pode ser utilizada como justificativa para interferências nos assuntos internos dos países da região.
Trump também voltou a ameaçar Cuba. Durante sua fala, integrantes da delegação cubana deixaram o plenário da ONU em protesto.
Ameaça ao Irã
Além das declarações sobre a América Latina, Trump adotou tom de ameaça em relação ao Irã. O presidente afirmou que enfrenta uma “grande decisão” diante do conflito com Teerã e disse que os Estados Unidos poderiam “aniquilar” a República Islâmica rapidamente caso o governo iraniano não aceite os termos de um eventual acordo.
“Tenho uma grande decisão a tomar”, afirmou.
Trump também declarou acreditar que poderá chegar a um acordo de paz após as eleições legislativas americanas de novembro. O pleito definirá se o Partido Republicano manterá o controle do Congresso.
“Eu acredito que faremos um acordo logo depois da eleição”, disse.
O presidente americano negou, porém, que o calendário eleitoral esteja influenciando sua condução do conflito. Segundo ele, o governo iraniano estaria esperando para avaliar seu desempenho nas eleições de meio de mandato.
Escassez de munições
Durante o discurso, Trump também rejeitou informações de analistas de defesa e autoridades americanas segundo as quais os estoques de munições dos Estados Unidos estariam em níveis críticos em razão do conflito.
O presidente classificou como “covardes e traidores” aqueles que divulgam essas informações.
“Temos mais munições do que poderíamos sequer imaginar usar”, afirmou.
Trump também apresentou sua administração como responsável por avanços na resolução de conflitos internacionais. Segundo ele, enquanto outros líderes discutiram a paz, seu governo teria adotado medidas concretas.
“Enquanto outros falaram, eu agi. Enquanto outros falaram sobre paz, eu fiz a paz”, declarou.
O presidente voltou ainda a afirmar que ajudou a encerrar “oito guerras”, incluindo o conflito em Gaza.
Ingerência externa
O discurso de Trump ocorreu logo depois da fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral.
Antes da manifestação do presidente americano, Lula afirmou que a América Latina e o Caribe estão sob pressão por estarem próximos dos Estados Unidos, maior potência militar do mundo.
“Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais, a divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais”, afirmou Lula, citando situações envolvendo Venezuela, Haiti e Cuba.
O presidente brasileiro também defendeu que o país não se submete à lógica de áreas de influência ao afirmar que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
Críticas à ONU e defesa do multilateralismo
Trump também criticou instituições do sistema multilateral durante o discurso. Ao mesmo tempo em que agradeceu ao Conselho de Segurança da ONU pelo apoio a uma resolução contra o Irã, classificou o Conselho de Direitos Humanos da organização como formado por “hipócritas covardes”.
O presidente americano também atacou o Tribunal Penal Internacional, que classificou como “fora de controle”, e criticou a Organização Marítima Internacional por, segundo ele, tentar assumir funções de um “governo global” ao defender medidas relacionadas à taxação de carbono.
Antes de Trump, o secretário-geral da ONU, António Guterres, havia feito uma defesa do multilateralismo e afirmado que nenhuma potência é capaz de enfrentar sozinha os desafios atuais.
“Nenhuma potência pode resolver sozinha os desafios de hoje”, declarou Guterres. O secretário-geral também advertiu que o poder militar, isoladamente, não é suficiente para garantir a paz.
*Com informações da Agência Brasil e Financial Times.
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