O governo de Donald Trump prepara o terreno para ações militares diretas em países das Américas sob o pretexto de combater o narcotráfico. O alerta é do jornalista norte-americano Jon Lee Anderson, que denunciou à BBC News Brasil o avanço de um projeto de hegemonia dos Estados Unidos sobre o continente.
“A próxima coisa que veremos é ação militar americana direta em diferentes países, supostamente contra o narcotráfico. Tudo isso é preocupante em termos do respeito à soberania entre as nações”, afirmou.
Repórter da revista The New Yorker desde 1998, Anderson acompanha a América Latina desde os anos 1980. Ele é autor de uma biografia de Che Guevara e de perfis de lideranças como Fidel Castro, Hugo Chávez e Gabriel García Márquez.
Em duas entrevistas publicadas pela BBC News Brasil, o jornalista descreveu um continente submetido às decisões de um governo disposto a usar seu poder econômico, militar e tecnológico contra países que contrariem os interesses de Washington.
Para Anderson, Trump abandonou qualquer compromisso com a igualdade entre os Estados e retomou abertamente a pretensão de tratar as Américas como área de domínio dos EUA.
“Essa ideia de igualdade entre as nações, seja qual for o tamanho delas, foi jogada de lado em favor de um desenho hegemônico do país mais forte da vizinhança, que por acaso são os EUA sob Trump”, declarou.
O jornalista citou o secretário de Defesa, Pete Hegseth, como uma das figuras mais agressivas do governo. Segundo ele, o chefe do Pentágono “parece querer explodir tudo em todo lugar”.
Anderson afirmou que o Brasil ocupa uma posição central nos planos de Washington devido ao peso político e econômico do país, à Amazônia e à relação mantida pelo governo Lula com a China.
“Há razões concretas para esse interesse dos EUA. Uma é a disputa com a China: especialmente desde a guerra tarifária, Lula foi se aproximar de Pequim, e um governo aliado no Brasil seria, para Washington, tirar mais uma peça chinesa do tabuleiro”, disse.
O jornalista também chamou a atenção para o interesse norte-americano em atuar militarmente na Amazônia. Segundo ele, a eleição de um governo que aceitasse a presença de forças dos EUA abriria uma frente de intervenção no território brasileiro sob a bandeira da guerra às drogas.
“Se o próximo presidente do Brasil permitisse que forças paramilitares americanas operassem na Amazônia contra os narcotraficantes, como já ocorre hoje com o presidente colombiano e o peruano, isso seria enorme para os EUA”, afirmou.
Anderson relacionou essa possibilidade à doutrina de segurança nacional divulgada pelo governo Trump. O documento, segundo ele, defende expressamente a hegemonia de Washington do Ártico à Antártida.
“O Brasil é uma peça grande disso, mesmo que eles não falem muito no assunto”, advertiu.
Anderson também apontou o dólar e as plataformas digitais como instrumentos de interferência política. Segundo ele, o governo norte-americano pode financiar campanhas, recorrer às empresas de tecnologia e manipular redes sociais e sistemas de telecomunicações contra lideranças que contrariem Washington.
“Poderia decidir que são narcotraficantes e vir buscá-los. Poderia, através do amigo Elon Musk, dar centenas de milhões de dólares para afetar a eleição que enfrentam”, disse, ao tratar dos métodos que Trump poderia empregar contra governos e lideranças que deixassem de servir aos seus interesses.
“Estão realmente sob o domínio, agora mais do que nunca, de uma potência hegemônica que já mostrou ter, em alguns casos, impulsos perversos”, acrescentou.
Bloqueio contra Cuba
Ao tratar de Cuba, Anderson definiu a política de Washington como um “bloqueio explícito para asfixiar a ilha e provocar algum tipo de mudança”.
Segundo ele, a população cubana enfrenta uma das fases mais duras do cerco econômico, enquanto os EUA ampliam sua capacidade de interferir nos rumos do país.
“Agora estamos na pior dessas fases, um bloqueio explícito para asfixiar a ilha e provocar algum tipo de mudança. Estamos há nove meses nisso, e tem sido terrível para os cubanos”, afirmou.
O jornalista avaliou que os Estados Unidos exercem atualmente mais influência sobre o destino de Cuba do que em qualquer outro momento recente. A ofensiva contra a ilha se soma às pressões sobre a Venezuela, às tentativas de retomar o controle do Canal do Panamá e às ameaças dirigidas a outros governos da região.
Para Anderson, nem mesmo aliados históricos estão protegidos da política externa de Trump. “Até o Canadá está sendo tratado como se fosse a Coreia do Norte”, afirmou.
O resultado, segundo ele, é um continente submetido à chantagem de Washington e à possibilidade de novas intervenções. “Vivemos um momento perverso, e toda a América Latina também”, resumiu.