Trump promete usar “poderio militar inigualável” no hemisfério e recoloca América Latina no centro da estratégia dos EUA

Da Redação

Em discurso na Assembleia Geral da ONU, presidente dos Estados Unidos afirmou que Washington usará sua força militar para assegurar seus “interesses nacionais vitais” no Hemisfério Ocidental, comparou cartéis ao Estado Islâmico e apresentou a operação que capturou Nicolás Maduro como demonstração do que está disposto a fazer. A declaração não equivale a uma ameaça de ataque indiscriminado contra toda a América Latina, mas ocorre quando os EUA ampliam operações militares antidrogas, buscam acordos para ações dentro de países da região e reivindicam explicitamente uma versão atualizada da Doutrina Monroe. Brasil e México estão fora da coalizão regional organizada por Washington.

Donald Trump utilizou a tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas nesta terça-feira, 22 de setembro, para apresentar uma das formulações mais explícitas de seu segundo mandato sobre o papel que pretende reservar aos Estados Unidos na América Latina. Depois de meses de operações militares contra embarcações no Caribe e no Pacífico, da captura de Nicolás Maduro na Venezuela e da classificação de organizações criminosas latino-americanas como terroristas, o presidente americano declarou que Washington está “reafirmando o poder americano” no Hemisfério Ocidental e poderá recorrer ao que chamou de seu “poderio militar inigualável” sempre que considerar ameaçados interesses nacionais vitais dos Estados Unidos.

A formulação é grave, mas precisa ser reproduzida com precisão. Trump não anunciou um ataque contra a América Latina como um todo nem declarou que todos os governos da região são alvos militares. Sua ameaça foi apresentada dentro da política americana contra cartéis, organizações classificadas por Washington como terroristas e aquilo que seu governo considera presença de adversários externos no hemisfério. O alcance potencial dessa doutrina, entretanto, ultrapassa o combate convencional ao narcotráfico porque a Casa Branca vem associando segurança interna, influência geopolítica, petróleo, presença chinesa e russa e supremacia americana na região dentro de uma mesma estratégia.

Foi nesse contexto que Trump recorreu à Venezuela como exemplo.

“Nossas ações na Venezuela são a prova de que os Estados Unidos não permitirão mais que ameaças à América obtenham uma posição em qualquer lugar do Hemisfério Ocidental”, afirmou. Em seguida veio a advertência: se julgar necessário, Washington empregará sua capacidade militar para proteger aquilo que definir como interesse vital americano.

Não se trata apenas de retórica produzida diante da ONU. Durante o último ano, os Estados Unidos transformaram parte importante de sua política latino-americana em operação militar.

Desde setembro de 2025, forças americanas vêm atacando embarcações no Caribe e no Pacífico Oriental sob a alegação de que transportariam drogas. No último fim de semana, o Comando Sul informou ter matado quatro pessoas em mais um desses ataques. Segundo levantamento da Associated Press, pelo menos 231 pessoas morreram em 69 ataques realizados em aproximadamente um ano. Em muitos desses episódios, o governo americano não tornou públicas provas específicas de que as embarcações atingidas efetivamente transportavam narcóticos.

É esse precedente que muda a dimensão da declaração feita por Trump na ONU. Os Estados Unidos já passaram da cooperação policial e de inteligência para o emprego direto de força militar letal na região.

Da guerra às drogas à lógica da guerra

A mudança mais profunda talvez esteja na linguagem utilizada pela administração americana.

Trump comparou os cartéis latino-americanos ao Estado Islâmico e afirmou que seus integrantes deveriam ser mortos, expulsos ou detidos como “combatentes inimigos”. O governo sustenta que está envolvido num “conflito armado” contra organizações classificadas como narcoterroristas e apresenta os ataques militares como necessários para impedir que drogas cheguem aos Estados Unidos.

Essa construção jurídica é contestada.

Organizações de direitos humanos e especialistas em direito internacional questionam se atividades de narcotráfico, mesmo praticadas por organizações violentas, permitem transformar suspeitos em combatentes militares e substituir prisão, investigação e julgamento por ataques letais. A administração Trump, por sua vez, sustenta que a escala e a organização dos grupos justificam o tratamento militar.

A controvérsia ficou ainda maior porque Washington começou a discutir a expansão dessas operações do mar para o território continental.

No início deste mês, uma autoridade americana afirmou a jornalistas que as forças dos Estados Unidos podem atacar narcotraficantes “onde for necessário”.

Ao mesmo tempo, o governo busca acordos com países latino-americanos para ampliar operações conjuntas. O secretário de Defesa Pete Hegseth declarou recentemente que Colômbia, Honduras e Guatemala haviam aceitado formas de cooperação militar dentro de seus territórios, embora o governo guatemalteco tenha negado ter fechado o acordo descrito por Washington. O Equador já realiza missões conjuntas com forças americanas.

Há, portanto, uma transformação concreta acontecendo sob a superfície do discurso presidencial: o narcotráfico está deixando de ser tratado exclusivamente como problema criminal transnacional e passando a integrar uma doutrina de segurança militar para o Hemisfério Ocidental.

Essa mudança possui consequências diretas para a soberania dos países latino-americanos.

A Doutrina Monroe volta ao vocabulário oficial

O governo Trump não esconde a moldura histórica que pretende utilizar.

A Estratégia de Segurança Nacional divulgada no fim de 2025 recuperou explicitamente a Doutrina Monroe, formulada originalmente em 1823. Trump e seus aliados passaram a utilizar informalmente a expressão “Doutrina Donroe”, numa referência ao próprio presidente. A Reuters observa que críticos associam historicamente a Doutrina Monroe às sucessivas intervenções americanas no continente.

A Casa Branca utiliza linguagem ainda mais direta em seus próprios documentos.

Em agosto, ao anunciar um acordo petrolífero envolvendo a Venezuela, o governo declarou oficialmente que Trump havia “restabelecido a Doutrina Monroe”, afastado influência considerada hostil e assegurado que a “dominância americana em nosso hemisfério nunca mais seja questionada”. O documento identifica especificamente China, Rússia e Cuba como adversários cuja presença Washington procura reduzir.

Essa formulação permite compreender por que a atual política não pode ser reduzida simplesmente à guerra contra drogas.

Segurança, energia e competição entre grandes potências passaram a fazer parte da mesma estratégia hemisférica.

A Venezuela é o exemplo mais evidente. Depois da operação que capturou Nicolás Maduro, Washington reorganizou sua relação com Caracas e avançou sobre a questão petrolífera. A própria Casa Branca afirma que parte dos campos adicionais incluídos no novo arranjo energético havia sido anteriormente operada ou controlada por empresas e interesses russos e chineses. O objetivo declarado pelo governo americano é reorganizar cadeias estratégicas dentro do hemisfério e reduzir a influência desses países.

Trump utilizou a operação venezuelana na ONU como demonstração de força.

Isso produz uma diferença importante em relação às formulações históricas anteriores sobre a América Latina: a doutrina apresentada em Nova York já possui um precedente militar recente ao qual o presidente pode apontar.

O “Escudo das Américas” organiza os governos aliados

Horas depois de seu discurso, Trump tinha prevista uma reunião com integrantes do Shield of the Americas — Escudo das Américas, coalizão lançada por seu governo em março para ampliar a cooperação contra cartéis.

Mais de uma dezena de governos aderiu à iniciativa. Argentina, Equador e El Salvador estão entre os integrantes, assim como Colômbia e Peru depois das mudanças políticas ocorridas nesses países. Brasil e México não participam da coalizão.

Essa divisão é relevante porque Washington procura construir uma arquitetura regional capaz de sustentar sua nova política não apenas com forças americanas, mas mediante cooperação com governos latino-americanos.

Ao mesmo tempo, recursos militares começam a acompanhar essa mudança de prioridades. O governo Trump notificou o Congresso sobre a intenção de redirecionar aproximadamente US$ 52 milhões em assistência militar antes destinada a países da Europa e do Oriente Médio para parceiros latino-americanos, entre eles Panamá, Peru, Equador e Colômbia.

Também há mudanças operacionais. Informações confirmadas à CNN indicam planos para deslocar drones MQ-9 Reaper anteriormente empregados na África para a estrutura militar responsável por operações na América do Sul.

Separadamente, o próprio Comando Sul afirma que a chamada Operation Southern Spear completou um ano como uma campanha de grande escala contra narcotráfico e “narcoterrorismo” no Hemisfério Ocidental. Segundo o comando americano, as operações reduziram significativamente atividades marítimas ilícitas em áreas do Caribe e do Pacífico. Esses percentuais são avaliações das próprias autoridades militares dos Estados Unidos e não constituem auditoria independente dos resultados da campanha.

O que pode ser verificado independentemente é a ampliação do aparato.

Ataques no mar, drones, operações conjuntas, transferência de recursos militares, acordos bilaterais e uma coalizão regional passaram a funcionar como partes de uma mesma estratégia.

Brasil aparece diretamente na nova doutrina americana

O Brasil não foi mencionado nominalmente na passagem da Assembleia Geral em que Trump prometeu utilizar a força americana para defender interesses no hemisfério. Isso impede interpretar a frase, isoladamente, como anúncio de ataque contra território brasileiro.

Mas Brasília aparece em outra frente da mesma política.

Em documento encaminhado ao Congresso americano em 15 de setembro, Trump acusou o governo brasileiro de não ter conseguido enfrentar adequadamente o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho. Washington havia classificado anteriormente PCC e CV como organizações terroristas estrangeiras. Segundo Trump, as duas facções teriam transformado o Brasil em um centro dos fluxos internacionais de cocaína. A afirmação sobre a atuação do governo brasileiro é uma avaliação da administração americana.

A combinação entre esses fatos é politicamente sensível.

Primeiro, Washington transforma determinadas organizações criminosas latino-americanas em organizações terroristas.

Depois, afirma estar em “conflito armado” com cartéis.

Em seguida, realiza ataques militares contra suspeitos no mar e procura autorização para operações conjuntas em territórios de países parceiros.

Por fim, o presidente declara diante da ONU que poderá empregar o poder militar dos Estados Unidos para proteger interesses americanos em qualquer ponto do Hemisfério Ocidental.

Nenhuma dessas etapas, isoladamente, autoriza concluir que exista um plano americano para atacar o Brasil. Não há evidência pública de preparação de uma operação militar dos Estados Unidos em território brasileiro.

Mas a sucessão de decisões amplia a importância jurídica e diplomática da discussão sobre soberania.

A designação americana de uma organização como terrorista não cria, por si só, autorização no direito internacional para os Estados Unidos empregarem força militar dentro de outro país sem seu consentimento. A soberania territorial continua sendo um princípio central da Carta das Nações Unidas, com exceções juridicamente específicas e disputadas, como autorização do Conselho de Segurança e legítima defesa nas condições previstas pelo direito internacional.

Essa diferença entre legislação doméstica americana e autorização internacional é fundamental para entender a nova política.

Washington pode decidir internamente que PCC ou Comando Vermelho são organizações terroristas.

Isso não transforma automaticamente território brasileiro em teatro de guerra.

México recebeu uma advertência direta

Se Trump não direcionou sua ameaça militar especificamente ao Brasil, fez uma cobrança pública ao México.

No discurso, afirmou que o controle territorial exercido por cartéis no país vizinho é “inaceitável” e declarou que o governo mexicano precisa recuperar seu território das organizações que classificou como “inimigas da humanidade”.

A relação com o México é especialmente delicada porque os dois países compartilham uma fronteira de mais de três mil quilômetros e possuem cadeias econômicas profundamente integradas.

Ao longo do segundo mandato, Trump já havia sugerido ações militares americanas contra cartéis mexicanos, enquanto o governo mexicano insistiu que qualquer cooperação em segurança precisa respeitar a soberania nacional.

A ausência do México no Escudo das Américas ganha significado dentro desse contexto.

Washington está construindo uma coalizão com governos dispostos a participar de sua estratégia, enquanto duas das maiores economias latino-americanas — México e Brasil — permanecem fora dela.

Não se trata, portanto, de uma América Latina alinhada de maneira uniforme com a nova política americana.

Existe uma divisão regional sobre até onde deve chegar a cooperação militar com Washington.

Cuba também voltou ao centro do confronto

Trump utilizou ainda seu pronunciamento para atacar o governo cubano, acusando Havana de promover grupos “subversivos” e de esquerda nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, revelou que o secretário de Estado Marco Rubio está envolvido em negociações com Cuba.

A coexistência de pressão e negociação se repete em outras frentes da política externa americana.

Washington amplia sanções e ameaças, mas preserva canais diplomáticos. Faz isso com Cuba, faz com o Irã e fez em diferentes momentos com a Venezuela.

No caso latino-americano, entretanto, existe uma diferença histórica incontornável. A região possui uma longa experiência de intervenções, golpes apoiados externamente, ocupações militares e operações clandestinas associadas aos Estados Unidos durante os séculos XIX e XX. Por isso, a recuperação explícita da Doutrina Monroe possui uma carga política que ultrapassa seu significado formal para a atual administração.

O próprio governo Trump não tenta apagar essa dimensão de poder. Ao contrário, fala abertamente em “dominância americana” no hemisfério.

É justamente essa formulação que distingue a atual política de uma simples ampliação da cooperação antidrogas.

O discurso de Trump veio logo depois de Lula

A sequência dos pronunciamentos na ONU tornou o contraste particularmente visível.

Como determina a tradição da Assembleia Geral, o Brasil falou primeiro. Lula utilizou sua intervenção para defender soberania, multilateralismo e reforma das instituições internacionais. Trump subiu à tribuna depois e apresentou uma visão na qual os Estados Unidos reivindicam explicitamente maior liberdade para exercer poder dentro do Hemisfério Ocidental.

As duas posições não precisam ser artificialmente transformadas num duelo pessoal entre os presidentes. Elas representam concepções distintas sobre instrumentos de política internacional que podem ser comparadas objetivamente: de um lado, a ênfase brasileira em instituições multilaterais e soberania; de outro, a disposição declarada do governo Trump de recorrer unilateralmente à força quando considerar ameaçados interesses vitais americanos.

O significado concreto dessa diferença dependerá do que Washington fizer a partir daqui.

Trump não anunciou nesta terça-feira uma invasão, uma lista de novos países que serão atacados nem uma autorização geral para operações terrestres em toda a América Latina. Interpretar suas palavras dessa maneira iria além dos fatos disponíveis.

Mas também seria inadequado tratar a declaração como simples retórica eleitoral.

Quando Trump prometeu diante de líderes mundiais utilizar o “poderio militar inigualável” dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental, 231 pessoas já haviam morrido em pelo menos 69 ataques americanos contra embarcações, segundo o levantamento da Associated Press. Washington já havia capturado Nicolás Maduro, reorganizado sua relação petrolífera com a Venezuela, classificado cartéis como organizações terroristas, iniciado operações conjuntas com governos aliados e começado a deslocar recursos militares para a região.

A novidade, portanto, não é simplesmente que um presidente americano ameaçou usar força na América Latina.

É que essa ameaça foi pronunciada depois de a força já ter começado a ser usada.

E foi acompanhada por uma formulação estratégica que a Casa Branca tornou explícita em seus próprios documentos: recuperar a Doutrina Monroe, limitar a presença de potências rivais e assegurar a primazia dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental.

A partir daqui, a questão central para os países latino-americanos será onde Washington pretende estabelecer a fronteira entre cooperação antidrogas, combate ao terrorismo e intervenção militar — e até que ponto cada governo da região estará disposto a aceitar a arquitetura de segurança hemisférica que Trump está tentando construir.

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