Em tom de despedida, Guterres prega reforma da ONU e alerta sobre inteligência artificial

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, abriu nesta terça-feira (22) os trabalhos da 81ª Assembleia Geral da entidade com um diagnóstico severo sobre a eficácia do organismo internacional. Em tom de despedida após quase dez anos à frente da instituição, o diplomata português admitiu que a ONU atravessa uma crise e cobrou uma reforma ampla na governança global para evitar o colapso do multilateralismo.

Diante de dezenas de chefes de Estado e de governo reunidos em Nova York, Guterres enfatizou que o mundo caminha para uma ordem multipolar fragmentada, marcada pelo desrespeito ao direito internacional e pelo avanço desenfreado de novas tecnologias. Seu segundo mandato de cinco anos se encerra em dezembro.

Na avaliação do diplomata, a concentração de influência por superpotências e a paralisia do Conselho de Segurança evidenciam a defasagem da arquitetura política criada após a Segunda Guerra Mundial.

Conflitos regionais e limites do poder

Durante sua fala, Guterres fez um balanço crítico do cenário geopolítico da última década, citando o agravamento da guerra na Ucrânia, a crise no Sudão e as hostilidades no Oriente Médio. O secretário-geral destacou os impactos humanos devastadores na Faixa de Gaza provocados pelo conflito entre Israel e Hamas desde outubro de 2023.

Na última década, eclodiram guerras de consequências devastadoras, prolongando-se com uma crueldade execrável. Civis foram alvos de ataques. Direitos humanos foram atropelados. A fome foi utilizada como arma. Trabalhadores humanitários foram mortos. O direito internacional foi deixado de lado. As divisões geopolíticas se aprofundaram”, discursou.

Guterres voltou a defender a criação de um Estado palestino independente vivendo em paz ao lado de Israel como única saída viável para a região. “Não podemos permitir que a Solução de Dois Estados desapareça diante dos nossos olhos”, afirmou, trecho que arrancou aplausos no plenário, embora a delegação dos Estados Unidos, aliada dos israelenses, não tenha acompanhado a manifestação.

Ao questionar a eficácia do uso da força, o líder do organismo sustentou que a estabilidade mundial depende de limites legais às grandes potências. “Poder militar apenas não pode garantir a paz. O poder econômico, por si só, não pode instaurar a estabilidade. Poder tecnológico apenas não consegue garantir segurança”, pontuou.

Riscos da inteligência artificial e reforma institucional

Outro ponto central do pronunciamento foi o avanço da inteligência artificial e de armas autônomas no campo militar. Para o secretário-geral, a velocidade das transformações tecnológicas supera a capacidade das instituições de estabelecer mecanismos adequados de regulação.

Os seres humanos estão cada vez mais delegando poder às máquinas. A inteligência artificial está em expansão, e armas autônomas estão deixando a ficção científica para se tornarem realidade militar. No entanto, nossas instituições e sistemas de governança continuam a refletir as dinâmicas de poder e os interesses de uma era em grande parte superada. Esse é o desafio decisivo que temos pela frente”, disse Guterres.

O diplomata também apontou que os próprios desenvolvedores do setor demonstram apreensão com o ritmo da inovação. “Até mesmo aqueles que criaram a inteligência artificial estão nos dizendo que estão ficando cegos diante dela”, afirmou, complementando que as novas ferramentas remodelam governos, economias e a própria distribuição global de poder.

Como demonstração de que mudanças institucionais são possíveis, Guterres ressaltou o alcance da paridade de gênero no quadro de funcionários da ONU durante sua gestão. No entanto, cobrou reformas de representatividade nos órgãos deliberativos máximos da entidade, com destaque para a inclusão do continente africano no Conselho de Segurança.

O Conselho de Segurança foi feito após a 2ª Guerra Mundial, mas o mundo mudou significativamente desde então. A África não tem representatividade no Conselho, e o Conselho de Segurança da ONU do século XXI sem um lugar africano no Conselho de Segurança é indefensável“, concluiu.

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