Não repita as mesmas táticas que o levaram à vitória,
mas mude seus métodos de acordo com a infinita variedade de situações.
Sun Tzu, A arte da guerra
1 Tudo se decidirá em duas semanas. Mas quem tem iniciativa tática conquista vantagem. Prevaleceu, finalmente, no comando da campanha o sentido de máxima urgência diante de uma eleição indefinida. As decisões de aumentar o valor do Bolsa-Família, de assumir o acesso às canetas emagrecedoras, gratuitamente, pelo SUS, e enfrentar a epidemia de endividamento pelas bets como uma tragédia de saúde pública vieram atrasadas, mas ainda a tempo de incidir na disputa da pauta das eleições, ao lado do fim da jornada 6×1. A apresentação da biografia de Lula e, mais importante, a defesa do legado do governo, em especial diante da inescapável comparação com as calamidades da gestão Bolsonaro, foram necessárias nas primeiras semanas de campanha. Foi, também, uma decisão justa fazer a defesa da soberania, diante da interferência de Trump, e da democracia, diante do perigo autoritário do retorno do bolsonarismo ao poder, ambicionando uma maioria absoluta no Congresso, em especial no Senado, e o controle do STF (Supremo Tribunal Federal) com a nomeação de ministros “terrivelmente” reacionários.
2 Mas a dinâmica da disputa exigia um reposicionamento emergencial, assumindo novos compromissos para o futuro, porque esta eleição é diferente da campanha de 2022. Um giro era necessário, e oxalá se mantenha. O que não avança, recua. Propostas como a defesa da regulamentação de imposto sobre as grandes fortunas e o passe livre, como exemplos de compromissos para o quarto mandato, mereceriam ser, também, consideradas. Não só têm audiência de massas e podem energizar a mobilização da militância que será indispensável, mas respondem a expectativas adiadas por décadas que podem fazer a diferença em uma eleição que será definida por uma margem de votos, dramaticamente, estreita. A resposta ao medo deve ser a agitação da esperança de que dias melhores virão.
3 A sessão do STF foi um escarcéu confirmando que não havia remédio jurídico para um julgamento político. Mas o desfecho permitiu ganhar tempo. Foi evitado que as duas últimas semanas de campanha eleitoral tivessem como pauta a corrupção. Devemos ter sentido de perspectiva considerando a correlação de forças no Tribunal e na sociedade. Pior teria sido se fosse iniciada a investigação somente contra Xandão, porque este desenlace iria eletrizar o núcleo duro bolsonarista associando Lula a Alexandre de Moraes em um amálgama manipulador e desonesto. Melhor teria sido, evidentemente, se tivesse vencido a questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes, e todos os ministros suspeitos de envolvimento com favores de Vorcaro, todos sem exceções, fossem investigados. Mas isso era impossível. A solução de impasse pelo pedido de vistas de Dino foi um mal menor. Impasse é muito melhor do que derrota. O objetivo de Fachin era abrir a investigação contra Alexandre de Moraes antes do primeiro turno, o que turbinaria, inevitavelmente, a campanha “Fora Xandão, Fora Lula”. Ninguém deveria se surpreender que tenha sido apoiado por Fux o ministro que absolveu Bolsonaro no julgamento por golpismo. Mas é bom lembrar que foi por um triz. Felizmente, as informações disponibilizadas no celular de Vorcaro, na véspera e sob intensa pressão, provocaram pânico em Nunes Marques, que se declarou impedido. Mas estão equivocados aqueles que na esquerda se uniram à louvação de Carmem Lúcia deixando-se “hipnotizar” pela defesa da “dignidade” do Supremo. O voto dela contra um julgamento unificado de todos os envolvidos em relações suspeitas com Vorcaro favoreceu a manobra de Mendonça, e revelou uma completa incompreensão do perigo neofascista colocado por uma possível volta do bolsonarismo ao poder.
4 A fração liberal da classe dominante apoiou, irresponsavelmente, a manobra de Mendonça de manipular a eleição associando Lula a Alexandre de Moraes como denúncia de um “sistema podre de corrupção”. Facilitaram a tentativa de subverter a pauta do debate eleitoral para elevar o nível de exigências à candidatura Lula. Não têm muitos votos além da classe média abastada, mas têm peso político-social. Ninguém pode desconhecer que a pauta da corrupção favorece a extrema-direita. Este paradoxo é escabroso porque é um fato inescapável que o candidato Flávio Bolsonaro manteve relações indefensáveis com banqueiro preso Vorcaro. Mas grandes grupos capitalistas que se expressam através da Rede Globo e Folha de São Paulo, além de outras empresas de comunicação social, estão fazendo, despudoradamente, um ultimato para que Lula se comprometa com um ajuste fiscal que garanta pelo menos entre 2% e 3% de superavit fiscal. Encontraram acolhida em setores do governo, como o ministro da Fazenda Dario Durigan, que sinalizou até a desvinculação do salário mínimo como piso da remuneração dos benefícios da Previdência Social. A grande mídia comercial está flertando com a catástrofe: o perigo de uma nona vitória da extrema-direita (Argentina, El Salvador, Equador, Chile, Bolívia, Honduras, Colômbia e Peru), desde que Trump voltou ao poder é real e imediato. A chantagem da Casa Branca vai ficar mais ameaçadora nas próximas duas semanas, a pretexto do discurso de Lula na abertura da Assembleia das Nações Unidas. Já ficou demonstrado que a agitação de represálias contra o Brasil para disseminar o medo é funcional. Devemos estar conscientes de que a interferência dos EUA, que começou há um ano em julho de 2025 com o tarifaço, pode ser decisiva.
5 O resultado da campanha eleitoral está imprevisível. Tanto podemos vencer quanto perder. A mais recente pesquisa Datafolha revelou, pela terceira semana seguida, apesar do tumulto no STF, que se mantém um empate técnico no segundo turno de Lula 46% contra 44% de Flávio Bolsonaro, e rejeição de ambos em 47%. Confirmou, também, que é muitíssimo provável que haja um segundo turno, e que a diferença a favor de Lula no primeiro turno veio diminuindo. Mas sinaliza um aumento da aprovação do governo, e esta é a informação mais animadora. Todas as oscilações são nos limites da margem de erro. Dados desagregados mais relevantes são que Lula mantém maioria entre os mais pobres (46% a 29%) que representam gigantescos 49% do eleitorado, no Nordeste (56% a 26%) que correspondem a 27%, defende um empate técnico, ainda que numericamente atrás, no Sudeste que concentra 42% da população (35% a 37%), vantagem entre os menos instruídos (47% a 30%), que são 28% do da sociedade, e católicos (43% a 34%) que são metade do povo. Bolsonaro mantém vantagem entre os remediados (41% a 33%) que ganham entre 2 e 5 salários-mínimos, e são 34% da classe trabalhadora e, sobretudo, na classe média acima de R$7.500,00 reais (44% a 28%) que são 12% do eleitorado, embora a margem de erro da pesquisa nos dois segmentos seja de 6 pontos. Mantém vantagem no Sul (45% a 27%), que são 15% dos eleitores. A extrema-direita tem maioria entre os brancos e quem tem escolaridade média, além de diminuir a desvantagem entre as mulheres. Mas Lula tem 35% na pesquisa espontânea, menos 4% que na estimulada, e Flávio 26%, menos 10% que na estimulada, uma adesão menos consolidada, em um contexto em que 21% não fizeram sua escolha. Isso significa que há ainda um espaço grande de disputa. Aonde a votação de Lula pode crescer? O que a história dos últimos dez anos nos sugere é que será entre os trabalhadores, negros e mulheres, considerando que na classe média se consolidou um anti-lulismo ressentido. Devemos esperar, também, que uma parte dos 15% de preferências que se distribuem entre Cury, Caiado, Renan e Zema se deslocarão para Bolsonaro já no primeiro turno.