Durante entrevista ao programa SP1, da TV Globo, realizada na terça-feira (15), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeditou uma tática recorrente de seu mandato: alterar indicadores, prazos e metodologias para tentar apresentar o descumprimento de metas governamentais como um suposto avanço.
A postura reflete um padrão de gestão que acumula retrocessos em áreas essenciais como educação, habitação, segurança pública e infraestrutura.
A maquiagem de balanços oficiais em participações públicas tem sido utilizada para contornar compromissos assumidos em lei, planos estaduais e no programa de governo aprovado em 2022.
Educação recua em indicadores oficiais e metas de ensino integral
A distância entre as promessas e a execução fica evidente no ensino integral. A meta inicial do governo previa atingir 60% dos estudantes da rede estadual na modalidade. Contudo, os dados atuais apontam um alcance de pouco mais de 30%.
Durante a sabatina, o governador reduziu publicamente a projeção para cerca de 40% em um eventual segundo mandato.
A incompetência da execução do modelo reflete-se na proporção de matriculados no ensino médio integral, que caiu de 27% em 2023 para 26,6% em 2024, de acordo com dados do Ministério da Educação (MEC).
A expansão de unidades físicas também apresenta divergências numéricas. O governo alega ter criado 500 novas escolas de tempo integral. No entanto, o Portal da Transparência da Educação indica que o estado contava com 2.331 unidades do gênero no início de 2023, legado da administração anterior. O total atualizado é de 2.487 escolas, o que representa uma ampliação real de apenas 176 unidades durante a atual gestão.
No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), o estado não atingiu as metas fixadas. Nos anos finais do ensino fundamental, São Paulo alcançou 5,2 pontos, ante a meta de 5,8.
No ensino médio, o registro foi de 4,3 pontos para uma meta de 5,1. O desempenho fez o estado recuar no ranking nacional do ensino médio estadual, passando do 3º lugar em 2021 para a 10ª posição em 2025.
Déficit no efetivo das polícias e superlotação carcerária
Na segurança pública, os quadros corporativos permanecem abaixo dos patamares fixados pela legislação estadual.
Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com base em dados dos portais de transparência, aponta que a Polícia Militar operava em 2025 com 82.250 efetivos – equivalente a 87,7% das 93.802 vagas previstas em lei. Na Polícia Civil, o total era de 19.420 agentes, preenchendo 79,8% da estrutura legal de 24.332 cargos.
No sistema prisional, a entrega anunciada de dez novas unidades contrasta com o déficit apurado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP), que registra um excedente de aproximadamente 76 mil detentos na rede paulista. Para zerar o déficit atual de vagas, seria necessária a criação de mais de 50 estabelecimentos penais.
Em diversos presídios do regime fechado, a taxa de ocupação ultrapassa 150%.
Habitação, saneamento e saúde apresentam distorções em balanços
A promessa de entregar 200 mil moradias populares até o final de 2026 passou a incorporar modalidades indiretas de auxílio. A conta oficial engloba desde unidades habitacionais construídas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) até a concessão de cheques-moradia, no valor de R$ 10 mil a R$ 16 mil, voltados à complementação do financiamento imobiliário.
O valor médio para a construção de uma unidade pelo estado é de R$ 200 mil.
Em relação ao saneamento em Guarulhos, a gestão atribuiu a evolução do tratamento de esgoto de 2% para 45% às ações do atual governo. Contudo, os dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) mostram que o índice de 2% remonta a 2016. Em dezembro de 2023, o próprio município já tratava cerca de 18% dos efluentes.
Na área da saúde, a meta anunciada de 1,5 milhão de cirurgias eletivas não encontra respaldo no histórico do DataSUS. O patamar mais elevado registrado pela rede estadual em 2025 foi de 1.249.053 procedimentos, partindo de uma média histórica anterior de 757 mil realizações.
A descontinuidade de metas e a alteração de parâmetros de prestação de contas revelam o truque para trazer ao eleitor uma imagem de gestor eficiente, mas a distância entre os compromissos firmados e os resultados entregues expõe um fracasso que nenhum marqueteiro consegue apagar.